Livros
"Nenhum caminho será longo" é «companhia notável de releitura do evangelho cristão», diz Francisco José Viegas
Francisco José Viegas, escritor e anterior secretário de Estado da Cultura, analisa o pensamento da Igreja Católica em Portugal e elege para as suas «escolhas» o livro "Nenhum caminho será longo", do padre José Tolentino Mendonça, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
A obra recoloca «a amizade no centro da terra árida que é o nosso tempo, falando do silêncio, da imperfeição, do humor, da alegria, da vulnerabilidade, da hospitalidade, da felicidade», salienta em artigo publicado na edição do último domingo do jornal "Correio da Manhã", que transcrevemos de seguida.
Razão e comoção
Francisco José Viegas
O fenómeno editorial da autoajuda marcou as últimas décadas do século XX de forma decisiva. De igual forma, uma literatura vagamente exótica e "espiritualista" (onde Paulo Coelho é o epifenómeno mais visível), misturando tudo e todas as influências, substitui o discurso religioso ou sobre religião, que os anos 70 tinham transformado em "lixo antropológico" e, naturalmente, reacionário.
A ideia de que Deus tinha morrido – definitivamente – percorreu todo o século. Em seu lugar, essa espiritualidade difusa onde todas as crenças «valiam o mesmo» e que se preocupava em providenciar um módico de transcendência a leitores desprevenidos ou, pelo menos, sedentos dela. O fenómeno explicava-se: ânsia de Deus, cansaço das igrejas, esgotamento das formas de comunicação entre os intérpretes da fé e a multidão de gente abandonada que tanto estava disponível para engrossar o exército das seitas, como para se dedicar à preparação da morte ou seguir os gurus e modas.
Em Portugal, a Igreja Católica há muito que se esforçara por "não pensar". Se Portugal fosse um país "multicultural", as outras religiões seriam acusadas do mesmo. Não há, na nossa produção cultural recente (os últimos trinta, quarenta anos), intelectuais que tivessem colocado a religião como um dos seus temas ou matérias para discussão – tirando, provavelmente, José Mattoso, D. Manuel Clemente, D. Carlos Azevedo, Bento Domingues ou Tolentino Mendonça do lado católico (houve a morte de José Augusto Mourão), ou o extraordinário trabalho do jovem pastor Tiago Cavaco, no lado protestante. Nem o campo islâmico (apesar de alguns pequenos esforços), nem a reduzida comunidade judaica produziram um discurso público ou um debate que cativasse fosse quem fosse. Sei do que falo.
Poeta (obra reunida em 2006 sob o título "A noite abre os meus olhos" e entretanto acrescentada por vários livros), tradutor e estudioso da Bíblia, responsável da Pastoral da Cultura e consultor do Vaticano para essa área, o padre José Tolentino Mendonça escreveu livros como "Se eu quiser falar com Deus", "A leitura infinita. Bíblia e interpretação", "Pai-nosso que estais na terra" ou "O tesouro escondido", que um não católico (como eu) pode ler com proveito.
O novo "Nenhum caminho será longo" [Paulinas Ed.] abre caminho a uma "teologia da amizade", mas o seu mapa é mais vasto: é uma companhia notável de releitura do evangelho cristão, raríssima entre nós com esta amplitude, com esta gramática, com uma singular capacidade de mobilizar tanto a inteligência como a comoção pura. Para um católico, este livro é uma espécie de "Leal Conselheiro", pura autoajuda religiosa no sentido pleno e feliz da palavra, recolocando a amizade no centro da terra árida que é o nosso tempo, falando do silêncio, da imperfeição, do humor, da alegria, da vulnerabilidade, da hospitalidade, da felicidade: «A conquista de um ritmo humano para a vida não acontece de repente, nem avança com receitas de quatro tostões. Precisamos de aprender a planificar com sabedoria o dia a dia.» É um livro para ser seguido – que assinala a perplexidade diante das coisas maravilhosas. É muito raro isso acontecer.
Francisco José Viegas
In Correio da Manhã, 16.12.2012
19.12.12









