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«Não sou crente, mas confesso que muitas vezes pensei em Deus e se Ele me podia ajudar»

«Contactei com uma parte minha completamente desconhecida»: esta podia ser uma síntese do depoimento do psiquiatra Daniel Sampaio publicado no “Expresso” de 16 de abril, depois de, aos 74 anos, ter sobrevivido ao Covid-19, após 50 dias de internamento hospitalar.

O texto estava, originalmente, para ser uma entrevista, mas o médico partilhou «de forma tão espontânea e sincera a intensidade do que passou», que o projeto transformou-se «na recolha de um testemunho», explica a jornalista Christiana Martins na introdução.

«Várias vezes pensei que ia morrer, mas tive sempre grande determinação em viver. Também sempre disse que não era ateu, mas agnóstico, e lembrei-me de uma frase de Voltaire, que, quando indignado sobre a sua relação com Deus, dizia: “Cumprimentamo-nos, mas não nos falamos”», declara Daniel Sampaio.

E prossegue: «Eu tenho muito respeito pela ideia de Deus, não sou crente, mas confesso que muitas vezes pensei em Deus e se Ele me podia ajudar. Tive imensa gente a dizer que estava a rezar muito por mim, eu agradecia e foi muito reconfortante».

«Nunca minimizei a fé dos outros, e a ideia de que Deus eventualmente me poderia estar a ajudar foi uma boa ideia», acrescenta.

Na enfermaria, na qual passou de 26 de fevereiro a 19 de março, dia de S. José, do Pai e data em que regressou a casa, «a experiência foi muito boa»: «Só tenho uma palavra para classificar o atendimento: excecional. Ternura, cuidado, assistência operacional e humana insuperáveis».

Durante o internamento no hospital de Santa Maria, em Lisboa, durante o qual precisou de ser entubado, ventilado e colocado em coma induzido, além de ter passado por uma grave infeção bacteriana, Daniel Sampaio fez «muitos balanços» da sua vida, «sempre positivos».

«Constatei que o mais importante que fiz foi ter constituído uma família. É importante que se diga isso numa altura em que as pessoas privilegiam as carreiras. Eu tive uma boa carreira, mas, sem qualquer demagogia, o mais importante que construí foi a família», sublinha.

Antes, relata: «Nos momentos mais difíceis, como quando tive de fazer uma TAC pulmonar, pensei nos membros da família, um por um e por ordem de idade. E depois usei esta técnica várias vezes. Tinha um enorme desejo de os tornar a ver e fui recebendo deles uma energia extraordinária. Era uma força psicológica».

«Sabia que se não ficasse destruído, ia ficar uma pessoa melhor. Esta é uma mensagem importante que quero transmitir. Porque o sofrimento é muito grande, as pessoas não têm a noção do que é esta doença. É uma doença em que é fundamental lutar porque a própria doença provoca um desamparo», assinala.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Expresso
Imagem: © Ana Baião/Expresso
Publicado em 26.04.2021

 

 
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