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«Não perco a paz»: Papa Francisco começou o pontificado há sete anos

Os berros dos “crucifica-o” chegaram, ruidosos. Como um pressentimento que se confirmava. O entusiasmo popular dos primeiros anos começou a ser corroído por resmungos e murmúrios, insinuações e insultos. O papa comunista, o papa islâmico, o papa da invasão, o papa herético. Velhos mata-frades e novos inquisidores clericais deram-se as mãos. O fastídio das elites económicas diante de um ensinamento irremediavelmente outro em relação às lógicas do “deus dinheiro” e as exigências de propaganda das novas correntes políticas populistas uniram-se. As redes sociais dilatavam a gritaria.

Era preciso fazer-lhe uma caricatura, espalhá-la pela internet, expô-la ao mau-humor popular. Bergoglio manipula os Evangelho e inventa um “Jesus migrante e refugiado”! Pouco importa que já Pio XII tinha falado nesses mesmos termos da família de Nazaré no exílio: «Jesus, Maria e José emigrantes no Egito e ali refugiados para se subtrair às iras de um ímpio rei, são o modelo, o exemplo e o apoio de todos os emigrantes». E o manso Bento XVI, que de heresias, das verdadeiras, sabia muito, pôde reivindicar os direitos de autor de uma expressão ainda mais forte: «O Messias, o Filho de Deus, foi um refugiado».

Bergoglio nunca cita a expressão terrorismo islâmico: é escravo dos fanáticos de Alá! Pouco importa explicar que nenhum papa moderno alguma vez usou essa expressão, porque os papas são gente séria, responsável, e não querem lançar gasolina ao fogo, identificando cada fiel islâmico com o terrorismo. Mas Francisco, Bento e João Paulo condenaram da mesma maneira, como blasfemo, o terrorismo que age «em nome de Deus», e apostaram, todos, num diálogo concreto com o mundo muçulmano, para que, sempre com mais força, isole e expulse do seu corpo as metástases fundamentalistas.

Chegaram a escrever que o papa se tinha ajoelhado no Vaticano diante de líderes islamitas, em claro sinal de submissão, mas não pediram desculpa quando lhes foi explicado que se tratava do presidente e vice-presidente do Sudão do Sul, ambos cristãos mas em guerra entre eles, e o papa tinha-lhes implorado, de joelhos, que depusessem as armas.



Está a caminho do encontro final com o Pai eterno, e é diante de Deus que quer estar em paz, e também por isso confessa-se a cada quinze dias



Bergoglio nunca fala dos cristãos perseguidos! E pouco importa mostrar-lhes a lista infinita dos discursos e homilias em que o papa falou dos novos mártires cristãos, «mais numerosos do que nos primeiros séculos», disse várias vezes; ou a decisão, para só mencionar uma, de apressar os tempos da beatificação do P. Hamel, degolado na igreja por fanáticos fundamentalistas; ou, mais ainda, o trabalho subterrâneo para obter condições de vida mais dignas para as minorias cristãs nos estados árabes, de que o documento de Abu Dhabi é um dos resultados mais encorajadores.

A lista das caricaturas de Bergoglio poderia alongar-se. A mais desonesta, a de um papa que fala só de temas sociais e nunca de Deus, como se o Deus dos cristãos não tivesse o rosto e a humanidade de Jesus de Nazaré de que fala, todos os dias, se se quisesse escutá-lo, por exemplo nas homilias de Santa Marta. Mas, lá está, perante as teses preconcebidas, os argumentos pouco importam.

«Não perco a minha paz», foi a sua resposta cada vez que se acenava nas nossas conversas a esta tema. Não conhece os nomes de muitos dos mais famosos ex-colegas do Vaticano que também dedicam grande parte do seu tempo a acusá-lo, lê os seus blogues, não frequenta as redes sociais, nem sequer vê os telejornais. Não é snobismo, creio. É uma forma de ascese, uso sóbrio do tempo; fez sempre assim, mesmo quando não era papa. Está a caminho do encontro final com o Pai eterno, e é diante de Deus que quer estar em paz, e também por isso confessa-se a cada quinze dias.

Depois, como tinha respondido a mim e a Ruffini [Paolo, prefeito do Dicastério para a Comunicação, depois de jornalista na televisão católica italiana], as críticas fazem sempre bem à alma: porque mesmo quando não se justifiquem em determinado ponto, servem sempre de memória e advertência para outras faltas, de que aquele que critica não tem conhecimento. Porque o papa é infalível quando se exprime “ex cathedra”, mas pode errar no governo ordinário da Igreja. Na escolha e na avaliação das pessoas, por exemplo.



A diferença de humanidade está em lamentar-se e pedir desculpa, virtudes raras nos nossos dias. «Um pecador para quem o Senhor olhou», a definição que Bergoglio deu de si



Em 2015 uma jornalista perguntou ao papa se não tinha sido um erro nomear para a comissão da economia Mons. Lucio Balda e Francesca Chaouqui. E ele não hesitou em reconhecê-lo. Para não falar depois de um erro ainda mais grave, o do bispo chileno Juan Barros, erro também reconhecido com muita sinceridade. Também aos papas mais santos aconteceu fazerem escolhas que, depois não se revelaram felizes. Paulo VI deu confiança a Mons. Marcinkus no início da sua carreira vaticana. João Paulo II quis, a todo o custo, o cardeal McCarrick como arcebispo de Washington, e até ao fim acreditou na inocência do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Marcel Degollado, criminoso de vida dupla e tripla. Bento XVI sofreu pela traição do seu mordomo, e talvez não tivesse sentido como tão insustentável o peso do pontificado se tivesse tido ao seu lado uma equipa mais robusta de cireneus.

É normal e justo que cada católico tenha o seu santo preferido: aquele que melhor reflete o seu temperamento, a sua sensibilidade, a sua condição. Do mesmo modo, é normal e justo que cada um tenha o seu papa preferido, aquele que cada um sente mais como guia na fé e afetivamente próximo. A Igreja católica é grande também por isto, encoraja o caminho mais fácil para o fiel. O que não é normal e justo é passar conscientemente a maior parte do seu tempo a espalhar em público veneno contra o papa que não se gosta. Sobretudo quando se pretende fazê-lo em nome da tradição: os mestres que tive em criança no catecismo, aquele das perguntas e respostas de cor a partir do livrinho de S. Pio X, o papa antimodernista, ensinavam-nos a respeitar o «sumo pontífice romano». Não pela pessoa em si mesma, mas pelo sinal que misteriosamente representa na Igreja. A obediência à autoridade, por quão desagradável que possa ser em alguns casos, reporta-se a uma verdade humanamente profunda: que não são as minhas opiniões, ainda que inteligentes, a salvar o mundo e a Igreja, mas é um Outro, unicamente o Deus que se fez carne.

Os papas são homens, podem errar. Só Jesus e Maria de Nazaré estão isentos do pecado original. O mesmo pode acontecer a um papa, depois de ter apertado e acariciado milhões de mãos em sete anos, perder por um instante a paciência a um puxão que arrisca deitá—lo por terra. A diferença de humanidade está em lamentar-se e pedir desculpa, virtudes raras nos nossos dias. «Um pecador para quem o Senhor olhou», a definição que Bergoglio deu de si.

Se tivesse de dizer que discurso do papa Francisco considero o mais belo do pontificado, não teria dúvidas. Bolívia, prisão de Palmasola, 10 de julho de 2015: «Quem está diante de vós? Podereis perguntar-vos. Gostaria de responder à pergunta com uma certeza da minha vida, com uma certeza que me marcou para sempre. Aquele que está diante de vós é um homem perdoado. Um homem que foi e é salvo dos seus muitos pecados. E é assim que me apresento. Não tenho muito a dar-vos ou a oferecer-vos, mas aquilo que tenho e aquele que amo, sim, quero dar-vo-lo, quero compartilhá-lo: Jesus Cristo, a misericórdia do Pai».


 

Lucio Brunelli
In Papa Francesco. Come l’ho conosciuto, publicado em L’Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | D.R.
Publicado em 19.03.2020

 

 
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