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Não imagino viver sem Deus, «estou grato a quem me trouxe até aqui», diz António Lobo Xavier

A imprescindibilidade da fé para marcar posições políticas, a necessidade de estudar o cristianismo a fim de o compreender e esclarecer quem tem dúvidas, a dificuldade que muitos ambientes manifestam com o catolicismo, e a herança familiar de testemunho religioso foram algumas das questões abordadas esta quarta-feira por António Lobo Xavier, advogado e conselheiro de Estado, na segunda sessão do ciclo “E Deus nisso tudo?”, acolhidas pela paróquia do Campo Grande, em Lisboa.

«Se não fosse Deus, caminharia na sombra, sem luz. Não imagino. Estou grato a quem me ajudou a trazer até aqui»: foi com estas palavras que Lobo Xavier concluiu a conversa de quase uma hora com a jornalista Maria João Avillez, na qual vincou que «há limites para a política que vêm da fé».

Algumas dessas fronteiras, afirmou, são «fáceis de aceitar por todos: os relacionados com o desrespeito pelos direitos humanos, a escravatura, a tortura, a violência; um cristão não pode estar aí. Por isso é difícil compreender como é que há aí cristãos, bem como nos partidos da ditadura, nas polícias secretas».

«Outras coisas são mais difíceis de perceber: por exemplo, as relacionadas com a vida, o nosso tempo: perceber se uma lei deve permitir o casamento de pessoas do mesmo sexo, se um casal do mesmo sexo pode adotar crianças, a eutanásia, o aborto a pedido sem qualquer limitação. Nestes temas de fronteira, as pessoas têm mais dificuldade em perceber que há posições políticas incompatíveis com a fé», aponta.



«Eu não quero discutir teologia nem pôr-me a dizer se a fé é mais para a direita ou mais para a esquerda, se se pode fazer isto ou aquilo. Mas temos de saber o mínimo, até para falar para os que não têm fé»



O antigo líder parlamentar não é indiferente a esses antagonismos: «Vejo essas incompatibilidades, se tenho oportunidade sublinho-as, mas não gosto de as julgar na praça pública, nem gosto de fazer campanhas políticas baseadas na minha fé. Mas o meu pensamento político está baseado pela minha fé, embora não precise de andar por aí a bater com a mão no peito e a dizer “estou a fazer isto em nome de Deus”».

Ao recordar um debate com José Pacheco Pereira, sobre a eutanásia, observou: «Temos leis, simplificando, que proíbem as pessoas de renunciar às heranças, e proíbem aos trabalhadores que aceitem reduções salariais. O legislador pensou: temos de proteger os fracos, não podemos confiar na vontade das pessoas em situações-limite. Temos leis que proíbem decisões de pessoas esclarecidas, com vontade própria, na plena posse das suas capacidades renunciarem às heranças, fazerem legados a médicos que as assistem no hospital, aceitarem que o patrão reduza o salário. Quando é a questão da vida, já aceitamos que ela possa ser tomada de qualquer maneira».

«Tenho dificuldade em perceber – não no sentido de aceitar, mas de entender – como vivem as pessoas imaginando que resultaram de uma evolução da matéria, e que depois voltam para a matéria e acabou tudo. Não consigo ver a minha vida sem ter dela o sentido de uma passagem», assinala.



Apesar de Portugal ser considerado «um país católico», alguém «afirmar-se e ser abertamente católico, já há alguns anos que em certos ambientes, mais cultos, embora não dizendo que seja para heróis, causa estranheza, não é bem compreendido nem bem recebido»



A conversa com Pacheco Pereira, também moderada por Maria João Avillez, então na capela do Rato, em Lisboa, a par dos posicionamentos políticos marcados pela fé e do testemunho de vida, exigem aprofundamento, porque o cristianismo não pode só viver de «intuições e sentimentos»: «Faz-me impressão que uma pessoa tenha fé e não estude, não saiba ao menos tanto quanto sabe de história de Portugal».

«Eu não quero discutir teologia nem pôr-me a dizer se a fé é mais para a direita ou mais para a esquerda, se se pode fazer isto ou aquilo. Mas temos de saber o mínimo, até para falar para os que não têm fé. Para mim, isso sempre foi uma grande preocupação. Aparecem pessoas, amigos ou profissionais, que pedem: “Você podia ajudar-me a perceber por que é que é desta maneira ou daquela”. Tem de se saber, tem de se estudar, tem de se ter uma palavra para essas pessoas», vinca.

Lobo Xavier constata a existência de pessoas que «são tão boas, que não precisam de verbalizar. A sua própria vida basta. Ninguém lhes pergunta nada, porque já perceberam». E logo a seguir anota: «Não é o meu caso. Por isso compreendo que as pessoas, vendo alguém que tendo algumas letras, tenham a esperança de que ela possa explicar, dar alguma razoabilidade. A razão é muito importante para a fé». E os atos concretos também: «A nossa fé tem uma vida para mostrar».

E prossegue: «Faz-me muita impressão discutir os problemas atuais da Igreja e do clero, as generalizações, as imagens, este tempo horrível que atravessamos, porque eu só conheci pessoas fantásticas. Não conheci sacerdotes maus. Foram vários os que passaram pela minha vida, com diferentes formações. Fui um privilegiado. E aflige-me muito pensar naqueles que, não tendo neste aspeto a minha sorte, vivem estes acontecimentos».



«Um ministro do atual governo converteu-se aos 40 anos. Eu fico um pouco embaraçado e envergonhado com a força interior que é preciso para uma pessoa inteligente, culta, lida, pública, criada num ambiente agnóstico, converter-se»



Apesar de Portugal ser considerado «um país católico», alguém «afirmar-se e ser abertamente católico, já há alguns anos que em certos ambientes, mais cultos, embora não dizendo que seja para heróis, causa estranheza, não é bem compreendido nem bem recebido: “Agora vais-te embora porque tens de ir à missa?”».

O ambiente familiar foi determinante para a identidade cristã de António Lobo Xavier:
«A minha avó paterna tinha três irmãs religiosas, os avós do lado da minha mãe têm dois filhos padres – um foi superior dos Beneditinos, outro é um sacerdote secular. Na minha geração, desse lado da família, tenho dois primos direitos padres e duas religiosas. Isso é produto de uma vida, de um ambiente e de uma admiração enorme que tínhamos pelos meus avós e pela sua espiritualidade».

«Não era uma casa com grandes demonstrações exaltadas de fé, mas era vivia-se uma fé exigente, rigorosa e com espiritualidade. Foi assim que fui educado, e nunca resisti, sempre achei bem. Dou graças por ter sido educado assim», referiu.

Procura conservar e prolongar a herança espiritual que recebeu; «Costumamos ir à missa juntos. E ao longo da vida dos meus filhos, em vários momentos, tive de lhes lembrar a importância da espiritualidade». E acrescenta: «Na mãe têm um bom exemplo; no pai, têm pelo menos um exemplo humano, com sobressaltos, mas sempre com essa preocupação».

Quem tem mais «mérito», aquele que recebeu o testemunho da fé desde que nasceu, ou quem foi despertado para ela já em adulto? Só Deus sabe, comentou Maria João Avillez, a propósito de um episódio contado por António Lobo Xavier.

«Há alguns dias tive um debate, no Porto, com um tema semelhante a este, com políticos de vários quadrantes, e uma das pessoas, ministro do atual governo, converteu-se aos 40 anos. Eu fico um pouco embaraçado e envergonhado com a força interior que é preciso para uma pessoa inteligente, culta, lida, pública, criada num ambiente agnóstico, converter-se.»

Confessa que teve «momentos mais distantes da fé, como se diz no Direito Criminal, mais desviantes, de afastamento». E ainda que afastado dos sacramentos, nunca deixou de acreditar. «A ausência de Deus é que eu não consigo explicar.»


 

SNPC
Imagem: SNPC
Publicado em 04.04.2019

 

 
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