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Não há nada na vida que apague o amor de Deus por ti: Todos estamos tatuados na sua mão

O primeiro passo de toda a oração cristã é a entrada num mistério, o da paternidade de Deus. Não se pode rezar como os papagaios. Ou entras no mistério, na consciência de que Deus é o teu Pai, ou não rezas. Se eu quero rezar a Deus meu Pai, inicio o mistério.

Para compreender em que medida Deus é pai, pensamos na figura dos nossos pais, mas devemos sempre, de alguma forma, “refiná-la”, purificá-la. (…) Nenhum de nós teve pais perfeitos, ninguém (…). As nossas relações de amor vivemo-las sempre sob a marca dos nossos limites e também do nosso egoísmo, e por isso são muitas vezes envenenadas por desejos de posse ou de manipulação do outro. É por isso que às vezes as declarações de amor se transmudam em sentimentos de raiva e hostilidade. Ora vê, aqueles dois amavam-se tanto a semana passada, hoje odeiam-se de morte: vemos isto todos os dias. (…)

Quando falamos de Deus como «pai”, enquanto pensamos na imagem dos nossos pais, especialmente se nos quiseram bem, temos, ao mesmo tempo, de ir além. Porque o amor de Deus é do Pai «que está nos céus» [cf. oração do Pai-nosso], segundo a oração que Jesus nos convida a usar: é o amor total que nesta vida saboreamos apenas de maneira imperfeita. Os homens e as mulheres são eternamente mendicantes de amor – somos mendicantes de amor, precisamos de amor –, procuram um lugar aonde possam ser finalmente amados, mas não o encontram. Quantas amizades e quantos amores desiludidos há no nosso mundo; tantos! (…)

Há uma expressão do profeta Oseias que enquadra de maneira impiedosa a congénita debilidade do nosso amor: «O vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho matutino que logo se dissipa» (6,4). Eis o que é muitas vezes o nosso amor: uma promessa que é árdua de manter, uma tentativa que depressa seca e evapora, um pouco como quando de manhã o sol se ergue e desaparece o orvalho da noite.



A expressão «nos céus» não quer exprimir uma distância, mas uma diversidade radical de amor, uma outra dimensão do amor, um amor incansável, um amor que sempre permanecerá, que está sempre ao alcance da mão



Quantas vezes nós, humanos, amámos desta maneira tão frágil e intermitente. Disso todos temos a experiência: amámos, mas depois esse amor caiu ou tornou-se frágil. Desejosos de querer bem, confrontámo-nos depois com os nossos limites, com a pobreza das nossas forças; incapazes de manter uma promessa que nos dias de graça nos parecia fácil de realizar. No fundo, também o apóstolo Pedro teve medo e fugiu. O apóstolo Pedro não foi fiel ao amor de Jesus. Existe sempre esta fraqueza que nos faz cair. Somos mendigos que no caminho arriscam a nunca encontrar completamente aquele tesouro que procuramos desde o primeiro dia de vida: o amor.

No entanto, há um outro amor, o do Pai «que está nos céus». Ninguém deve duvidar de ser destinatário deste amor. Ama-nos. «Ama-me», podemos dizer. Ainda que o nosso pai e a nossa mãe não nos tivessem amado – uma hipótese hipotética –, há um Deus nos céus que nos ama como ninguém sobre esta Terra alguma vez o fez e poderá fazer. O amor de Deus é constante. Diz o profeta Isaías: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos» (49,15-16).

Hoje a tatuagem está na moda: «Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos». Eu fiz uma tatuagem de ti nas minhas mãos. Eu estou nas mãos de Deus, assim, e não posso tirá-lo. O amor de Deus é como o amor de uma mãe, que nunca se pode esquecer. E se uma mãe se esquece? «Eu nunca te esqueceria», diz o Senhor. Este é o amor perfeito de Deus, assim somos amados por Ele. Ainda que todos os nossos amores terrenos se desmoronassem e nas mãos não ficasse mais que pó, há sempre para todos nós, ardente, o amor único e fiel de Deus.

Na fome de amor que todos sentimos, não procuramos algo que não existe: ela é, em vez disso, o convite a conhecer Deus que é pai. A conversão de Santo Agostinho, por exemplo, passou por isso: o jovem e brilhante reitor procurava simplesmente entre as criaturas alguma coisa que criatura nenhuma lhe podia dar, até que um dia teve a coragem de erguer o olhar. E nesse dia conhece Deus. Deus que ama.

A expressão «nos céus» não quer exprimir uma distância, mas uma diversidade radical de amor, uma outra dimensão do amor, um amor incansável, um amor que sempre permanecerá, que está sempre ao alcance da mão. Basta dizer «Pai nosso, que estais nos céus», e esse amor vem.

Portanto, não temer! Nenhum de nós está só. Se mesmo por desventura o teu pai terreno se esquecesse de ti e tu tivesses rancor dele, não te é negada a experiência fundamental da fé cristã: a de saber que és filho amadíssimo por Deus, e que não há nada na vida que possa extinguir o seu amor apaixonado por ti.


 

Papa Francisco
Audiência geral, 20.2.2019, Vaticano
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: pixelking/Bigstock.com
Publicado em 20.02.2019

 

 
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