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“Mudemos!”: Novo livro republica reflexões de Bergoglio e ilumina biografia espiritual do papa Francisco

«Este é o tempo propício para encontrar a coragem de uma nova imaginação do possível, com o realismo que só o Evangelho nos pode oferecer. O Espírito, que não se deixa enclausurar nem instrumentalizar com esquemas, modalidades e estruturas fixas ou caducas, propõe-nos que nos unamos ao seu movimento capaz de “fazer novas todas as coisas” (Apocalipse 21,5)». Há uma ânsia de mudança no mundo que o papa Francisco recolheu neste apelo publicado nas páginas do semanário espanhol “Vida Nueva”. E relançou-o várias vezes neste tempo de pandemia do Covid-19. A vida de milhões de pessoas mudou inesperadamente: «Estaremos dispostos a mudar os estilos de vida?», acrescentava. É claro que há uma enorme necessidade de compreender o que nos está a acontecer, de dar uma leitura humana e espiritual daquilo que vivemos. E é claro que temos também compreender em que errámos: o papa falou de um planeta gravemente doente, de injustiças planetárias por causa de uma economia que só aponta para o lucro, de conflitos internacionais que têm de ser imediatamente cessados, e o mesmo em relação a embargos e egoísmos nacionais. A pandemia desmascarou a nossa vulnerabilidade e deixou «a descoberto aquelas falsas e supérfluas seguranças com que construímos as nossas agendas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Demonstra-nos como deixámos adormecido e abandonado aquilo que alimenta, sustém e dá força à nossa vida e à nossa comunidade», disse Francisco, fazendo ressoar estas palavras numa praça de S. Pedro vazia por causa do confinamento, e nunca tão repleta por tanta gente que no mundo escutou a sua mensagem de bênção a 27 de março de 2020. «Mudemos!», parece ser o seu apelo. E tantas vezes ressoa nestas páginas o apelo à mudança. Dêmos, então, um salto atrás, para quando Francisco era um jesuíta, responsável pelos seus confrades na Argentina, para encontrar as raízes desta vontade de mudança. Por vezes a nossa vida arrisca-se a ser «uma espécie de papagaio [pipa] sem céu. Revelamo-nos seres pequeninos, absorvidos em pequenezes que nos apequenam». Ou pode ser também «um papagaio a quem o céu abunda, mas falta-lhe o fio: inevitavelmente, perde-se na obscuridade do esforço malbaratado», portanto um papagaio «repleto de céu», mas sem fio, porque é inutilidade de grandes ideias e projetos inconclusivos.



O que é que nos abre, nos “destapa” desde o interior? O desejo. O desejo é a força interior que escancara para o sentido da vida. Bergoglio fala dele na primeira e segunda partes do seu volume. Várias vezes fez saber que o desejo é, para ele, um tema central



Assim escrevia o então padre Jorge Mario Bergoglio. O volume no qual o papa amadureceu estas considerações foi publicado em 1987 e tem por título “Reflexiones espirituales sobre la vida apostólica”, aqui apresentado na sua versão integral [352 páginas, italiano, ed. Solferino]. Ele acolhe artigos que escreveu no decurso da sua atividade de reitor do Colégio Máximo e das suas Faculdades de Filosofia e Teologia entre 1980 e 1986, ano em que foi afastado do seu encargo e enviado para a Alemanha para prosseguir os estudos teológicos, e depois enviado como confessor para Córdoba. Este, precisamente, foi um tempo de provação, de purificação e de uma certa obscuridade interior. Recordamos também que cinco anos após a publicação desta recolha, Bergoglio era nomeado bispo auxiliar de Buenos Aires. Para compreender uma pessoa é preciso ir às raízes da sua formação, mas também indagar os pontos de viragem, os momentos de crise e de reviravolta. É por isso que este livro é importante para compreender o papa Francisco: é expressão de um tempo de passagem, no qual amadureceu capacidades de discernimento e de opção. Seguindo o ritmo das páginas entra-se no olhar do pontífice e compreende-se melhor a sua maneira de julgar as situações e de agir. Bergoglio, em tempo de crise, considera fundamental não fechar-se nas minudências, na dimensão tacanha do temor e da preocupação, mas abrir-se a um desejo de Deus que alarga o coração. A ansiedade, para ele, é uma combinação de ira e preguiça. Com o tempo aprendeu a não lhe estar sujeita. Neste contexto ele volta a meditar nas raízes. Podemos dizer, inclusive, no próprio sentido da vida. «Qualquer vida decide-se na capacidade de doar-se. É aí que se transcende a si própria, que chega a ser fecunda.» Bergoglio, superando todo o vitalismo vazio, considera que também a própria vida, se funcional apenas por si, não tem um significado positivo. Adquire-o se se torna fecunda, de outra forma é uma aborrecida e esgotante cadeia de gestos egoístas que nos sufoca na apatia. O que é que nos abre, nos “destapa” desde o interior? O desejo. O desejo é a força interior que escancara para o sentido da vida. Bergoglio fala dele na primeira e segunda partes do seu volume. Várias vezes fez saber que o desejo é, para ele, um tema central. Reiterou-o em várias ocasiões como pontífice desde o início. Em particular, em duas homilias: uma no capítulo geral dos Agostinianos, a 28 de agosto de 2013; e a outra na igreja de Jesus, a 3 de janeiro de 2014, para a celebração do Santíssimo Nome de Jesus, para comemorar a canonização de S. Pedro Favre. Na primeira perguntou repetidamente: «Tens um coração que deseja algo de grande, ou um coração adormecido pelas coisas? O teu coração conservou a inquietação da busca, ou deixaste-o sufocar pelas coisas, que acabam por o atrofiar?». E concluiu: «Sem desejos, o ser humano é incompreensível».



A paz de Deus, que supera todo o desejo, de que fala S. Paulo aos filipenses, não é uma espécie de condição de êxtase interior, mas é um dom que se funda e culmina numa forte inquietação generativa e aberta



Na segunda homilia, aos seus companheiros jesuítas, afirmou: «Porque pecadores, podemos perguntar-nos se o nosso coração conservou a inquietação da busca, ou se, em vez disso, se atrofiou; se o nosso coração está sempre em tensão: um coração que não se acomoda, não se fecha em si próprio, mas que bate ao ritmo de um caminho a fazer diante de Deus. É preciso buscar Deus para o encontrar, e encontrá-lo para procurá-lo ainda e sempre. Só esta inquietação dá paz ao coração de um jesuíta». Pedro Favre, que o papa Francisco canonizou, é um homem de grandes desejos que se carregou deles e os reconheceu. Para Bergoglio, os «desejos alargam o coração», e neles «pode discernir-se a voz de Deus»: «Sem desejos não se vai a lado nenhum, e é por isso que é preciso oferecer os próprios desejos ao Senhor». A visão de Bergoglio é a de Santo Inácio de Loyola tal como emerge nos “Exercícios espirituais” e na própria biografia do fundador. Inácio era um homem que na sua “Autobiografia”, ditada um confrade em terceira pessoa, confessou estar «atraído por um imenso desejo»: primeiro de vaidade e de honras, depois de uma mulher, depois, de «empreendimentos difíceis e grandes» no plano espiritual. Inácio define-se mesmo como «embebido» em desejos. Nos Exercícios, o termo desejo está muitas vezes unido ao verbo querer, isto é, «pedir intensamente». Porque é importante o desejo para Bergoglio, jesuíta formado na escola dos Exercícios e do desejo inaciano? É importante porque, na realidade, o próprio Deus é um “Deus desiderans”, é um Deus que deseja comunicar-se, e fá-lo suscitando no nosso coração desejos. O mundo de Bergoglio é instigado, agitado, dinâmico. A paz de Deus, que supera todo o desejo, de que fala S. Paulo aos filipenses, não é uma espécie de condição de êxtase interior, mas é um dom que se funda e culmina numa forte inquietação generativa e aberta. Assim sintetiza Bergoglio num parágrafo de grande intensidade: «Os nossos desejos podem resultar em ilusões, mas também em revelações. Revelações sobre quanto Deus quer que lhe perguntemos porque é que já o concedeu. Então o conteúdo dos nossos desejos transforma-se em símbolos. Os nossos desejos forjam símbolos, porque os símbolos, assim como os desejos, ocultam realidades ao mesmo tempo que as prometem». Deus, segundo Inácio, opera com os desejos e nos desejos, e, além de conservar os desejos, também os aumenta. Isto, porém, não significa que Deus realize precisamente aquilo que nós desejamos, mas «aquilo pelo qual Deus colocou este desejo».



Bergoglio é muito atento a reiterar o facto de que o caminho espiritual nunca é a viagem para um «outro lugar», e não tem nada a ver com uma pseudomística que «promove fábulas inventadas pelos nossos corações ansiosos e não purificados. O verdadeiro caminho interior implica o assumir a nossa idade, as nossas pobrezas, a história que nos pertence»



Para Bergoglio, está aqui a diferença entre uma utopia sem discernimento e uma utopia como força vital e abertura ao futuro a partir do real, daquilo que se é. O papa fala muitas vezes de «utopia» em sentido positivo, porque não ideológico, e sempre a partir da história e da memória. A sua utopia é abertura ao novo que se contrapõe diretamente ao banal e ao taticismo superficial. O desejo não pode ser resolvido com táticas. A criatividade deve estar embebida de desejos para encontrar os meios mais eficazes para o empenho. A própria oração só pode partir do nosso desejo. E Bergoglio é herdeiro da tradição inaciana que postula o «desejo de desejar». Com efeito, bem sempre, por causa da nossa debilidade e fragilidade, possuímos o verdadeiro desejo de Deus, o desejo de deixar crescer a semente da Palavra de Deus no campo da nossa vida. Muitas vezes deixamos crescer ervas daninhas e espinhos. E, todavia, é importante também o desejo de o desejar. Como se compreende, o desejo é a mola que abre a nossa existência e modula-se na “meia-idade” de cada vida. Bergoglio nunca fala de um desejo heroico e sublime, distante da quotidiana passagem dos dias. Funda-se no reconhecimento simples do nosso sermos criaturas, que é o «princípio e fundamento» da vida espiritual.

E assim começa o percurso da busca da nossa verdade na presença de Deus. Mas também o percurso no qual procuramos a verdade de Deus sobre nós. Bergoglio é muito atento a reiterar o facto de que o caminho espiritual nunca é a viagem para um «outro lugar», e não tem nada a ver com uma pseudomística que «promove fábulas inventadas pelos nossos corações ansiosos e não purificados. O verdadeiro caminho interior implica o assumir a nossa idade, as nossas pobrezas, a história que nos pertence». Por isso, “Reflexiones” é um convite à busca, ao caminho, ao viver uma inquietação que nos liberta das «redes e cadeias» - como escreve Santo Inácio – da hipocrisia e do pecado.


 

P. Antonio Spadaro, sj
In "Cambiamo!" (Prefácio) (Avvenire)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 24.06.2020

 

 

 
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