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Maria Rueff: «Tenho uma relação de “tu” com Deus»

«Tenho uma relação de “tu” com Deus, ou seja, é como se falasse com alguém francamente familiar», afirmou esta quarta-feira Maria Rueff, para quem Ele «é uma presença de todas as horas», «um amigo» que «dá provas e pistas».

A atriz foi a primeira convidada da iniciativa “E Deus nisso tudo?”, ciclo de conversas da jornalista Maria João Avillez com personalidades do mundo da arte, política, ciência e economia, acolhido pela paróquia do Campo Grande, em Lisboa.

A infância em família passou pela «formação católica, apostólica, romana, todos batizados, a ir à missa ao domingo». E revelou: «Deus em tudo isto está no meu nome, eu chamo-me Maria de Deus».

«Estou aqui por uma promessa que a minha mãe fez. Em África não havia – como agora – grandes ajudas da medicina, e aparentemente eu era um bebé com defeito. A minha mãe disse: “Seja o que for, eu quero tê-lo. E se nascer no dia de Corpo de Deus, será Maria de Deus”; e assim foi», acrescentou.

Hoje, gosta de ter uma «relação escondida com Deus, não no sentido de a esconder, mas de procurar a intimidade com Ele».



«Sinto que Deus operou em mim esse milagre de transformar a dor em coisas risíveis; lembro-me, desde muito pequenina, de fazer rir a família», recorda, depois de falar do ciclone que varreu a cidade da Beira, onde nasceu: «É um cenário repetidamente apocalíptico»



«No meio teatral, embora haja muitos católicos, estamos normalmente rodeados de ateus. E eu lembro-me da pergunta do papa Francisco, «quem sou eu para julgar?», e portanto também não julgo ninguém. E tenho a enorme felicidade de ter muitos amigos à minha volta que não crêem, de também não me julgarem», declarou.

Nascida em Moçambique, veio para Portugal na sequência da descolonização, ocorrida na sequência da revolução de abril de 1974: «Os meus pais começaram do zero, aos 40 e tal anos, com seis filhos» – Maria era a mais nova.

«Sinto que Deus operou em mim esse milagre de transformar a dor em coisas risíveis; lembro-me, desde muito pequenina, de fazer rir a família», recorda, depois de falar do ciclone que varreu a cidade da Beira, onde nasceu: «É um cenário repetidamente apocalíptico, é o meu berço, e é a segunda vez que o vejo destruído».

No caso desta tragédia, como noutras, emerge a pergunta «porquê Deus, porquê?», que ontem foi atenuada por «uma notícia muito feliz, a promessa do papa Francisco visitar Moçambique», na primeira semana de setembro.



«Muitas vezes fui-me afastando e reaproximando da Igreja, que é feita de homens e mulheres, cheia de erros, mas nunca de Deus».



Ao longo da vida teve «várias crises de fé, no sentido de como é que se pode fazer humor, que aparentemente magoa o caricaturado, num país que, devagar, depois da ditadura, vai aprendendo a rir».

«Como é que o posso fazer sem parecer que sou sobranceira, sem magoar o outro; e tenho tido pistas de homens da Igreja, e inclusivamente do santo da minha devoção, S. Filipe Nery» - fez «questão de ir a Roma pedir-lhe inspiração» -, a quem pede «muitas vezes ajuda», até porque «não é fácil estar sempre disponível para fazer rir». E entre os padres com quem se aconselha, emerge o Fr. Bento Domingues: «Sinto-me muito protegida e acarinhada por ele».

Depois de vincar que os crentes devem repensar-se sempre como cristãos, Maria Rueff falou da sua relação com a Igreja, e desta com o universo feminino: «Muitas vezes fui-me afastando e reaproximando da Igreja, que é feita de homens e mulheres, cheia de erros, mas nunca de Deus».

«Se eu luto pela igualdade na sociedade portuguesa, através de uma profissão que não é muito comum para mulheres, o humor, por vezes é difícil gerir na Igreja os seus lados medievais; isto dava um grande debate; de resto, os bispos alemães estão a tratar disso, celibato, ordenação de mulheres, e por aí fora», assinalou.



«Penso que sou veículo de algo superior, transcendente a mim; há quem chame Deus, força da natureza, ou outra coisa qualquer… eu chamo Deus»



Do papa Francisco elogia «o condão de estar onde é preciso, de pôr os holofotes do mundo onde é preciso», e louva a sua «simplicidade, a forma como despiu as vestes, como desce as escadas e está com os outros, o abrir mão do ouro, abrir mão das capas magnas da vida».

«Sempre me formei numa família que foi isso que me ensinou. A minha mãe nasceu num berço de ouro, e sobreviveu perdendo tudo. Este papa, mesmo para quem não crê, é de uma humanidade imensa», apontou.

Sobre a sua arte, diz que «a dor é o que está sempre por trás da comédia», e comprova-o pela sua biografia, em que o desejo de fazer rir tem origem na vontade de transformar as dificuldades «numa pirueta mais feliz». E resume: «Devo o meu humor ao calvário da minha família».

Se Deus lhe dissesse agora que «está na hora» de ir para o seu encontro, acredita que partiria em paz, ainda que lhe custasse deixar de acompanhar a filha de 15 anos: «Pedi perdão a quem fiz mal; faço muito esse exercício, o exame de consciência, todas as noites».

«Penso que sou veículo de algo superior, transcendente a mim; há quem chame Deus, força da natureza, ou outra coisa qualquer… eu chamo Deus.»


 

Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 04.04.2019

 

 
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