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Leitura: "Mapas de fé - Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger"

Imagem Capa (det.) | D.R.

Leitura: "Mapas de fé - Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger"

«Um teólogo de renome apresenta dez grandes pensadores que tentaram abrir caminhos novos para o discurso sobre a fé cristã, num tempo em que o Cristianismo aparece, cada vez mais, como estranho à cultura»: este é o ponto de partida do livro "Mapas da fé - Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger".

Assinado por Michael Paul Gallagher, padre jesuíta irlandês que já colaborou com o Conselho Pontifício da Cultura, este volume recentemente lançado pela editora Frente e Verso, de que apresentamos um excerto, é «uma obra para não especialistas que pode ser lida com grande proveito por teólogos e filósofos de todos os quadrantes».

"John Henry Newman: o Eu peregrino", "Maurice Blondel: o teatro do desejo", "Karl Rahner: o magnetismo do mistério", "Hans Urs von Balthasar: o drama da beleza" e  "Bernard Lonergan: orientação para o dom" constituem as personalidades e carismas analisados nos cinco primeiros capítulos.

A apresentação dos perfis "exploradores" prossegue com "Flannery O’Connor: tomar de assalto a imaginação", "Dorothee Soelle: fé místico-ativista", "Charles Taylor: as pressões da modernidade", "Pierangelo Sequeri: horizontes de confiança" e "Joseph Ratzinger: Deus com rosto humano".

 

Introdução: Aprender com os grandes
Michael Paul Gallagher

Instruções para viver a vida:

«Preste atenção.
Surpreenda-se.
Fale sobre isso.»
(Mary Oliver, "Red Bird")

Não faço ideia de quantas horas da minha vida foram dedicadas aos livros. Ler foi uma parte importante da minha infância na aldeia, nos anos anteriores à televisão. Aquilo que começou com Enid Blyton terminou com Balthasar, com anos de Brontë, Beckett e Bellow de permeio. Depois da aldeia e da escola secundária vieram as universidades e os estudos de literatura. Isto, por sua vez, conduziu a uns vinte anos como professor de literatura no University College de Dublin. Porque também era padre jesuíta, esse longo período de contacto com estudantes trouxe-me até à teologia. Escutá-los era como viver no futuro: aprendi que as certezas da fé tradicional estavam em sério risco, não por causa de dificuldades intelectuais, mas por causa de uma nova cultura, envolvendo todo um conjunto de pressupostos sobre a vida que mudaram. Cresceu em mim uma paixão por fazer com que a fé fizesse sentido neste novo mundo.

Então a vida afastou-me da Irlanda. O plano era ir para o Paraguai, mas acabei por ficar em Roma, onde, após cinco anos no Conselho Pontifício da Cultura, iniciei atividade como professor de Teologia na Universidade Gregoriana. Apesar de ter um doutoramento em Teologia, o meu conhecimento do assunto era diferente do da maioria dos meus colegas. Compreendi que o meu horizonte tinha sido moldado, lentamente mas de modo permanente, por todos aqueles anos de literatura numa universidade estatal. Inicialmente isso parecia uma desvantagem. Eu, simplesmente, não tinha o conhecimento em teologia típico dos meus colegas professores. Mas, depois de algum tempo, compreendi que aquilo que a vida me tinha dado podia ajudar-me a mim próprio, e aos meus estudantes, a encarar as questões da fé de um modo mais imaginativo. Com uma sensibilidade moldada pela literatura e por anos de exposição a uma cultura emergente, eu lia a teologia com olhos diferentes. Mergulhei nos grandes pensadores do século vinte, procurando torná-los compreensíveis às pessoas que tinha conhecido. E isso, muito simplesmente, é o que dá origem a este livro.

 

Colher para os outros

O que aprendi eu em todos estes anos de leituras sobre religião, de estudo ou ensino da teologia e, talvez mais importante, de tentar rezar cada dia da minha vida? O que descobri eu que podia ser comunicado a outros, àqueles que não tiveram as minhas oportunidades de inquirir e refletir? Estas páginas são uma tentativa de recolher as minhas leituras e o pensamento por elas provocado, tornando-o acessível a quem ande à procura de Deus, mesmo àqueles muitos amigos sinceros que me dizem que Deus é tão inconcebível como irreal – simplesmente fora dos seus caminhos. Inicialmente, quis intitular este livro "Traduzir os Gigantes" ("Translating the Giants"),mas os editores aconselharam-me a encontrar um título menos obscuro. A minha ideia era (e é) traduzir a grande tradição da teologia para aqueles que não puderam visitar estes campos em qualquer dos seus limites. A minha vida, como disse, empurrou-me para este campo, onde passei incontáveis horas a aprender com os grandes nomes, e agora espero servir outros juntando e apresentando-lhes os frutos dessas explorações.

Assim, o objetivo deste livro é muito claro. Espero oferecer a outros os frutos da minha reflexão sobre a fé, uma aventura pessoal que durou meio século. Mais especificamente, quero colher da sabedoria de dez grandes escritores, e deixar que a sua sabedoria chegue a pessoas que não podem dedicar tanto tempo à leitura. O objetivo é captar o que estes «grandes nomes» dizem na linguagem de hoje e de um modo não académico. Estou convencido de que muitas pessoas, quer se achem crentes ou não, andam à procura de alimento deste género – uma mistura de comprimentos de onda inteligentes e espirituais. Cada um dos dez autores explorou questões de significado e de fé, com profundidade e criatividade, mas a maior parte deles pode, pelo menos à primeira vista, parecer de difícil leitura para um público não-especialista. O meu objetivo é fazer com que os seus contributos sejam acessíveis a mais pessoas.

O nosso ponto de focagem não é apenas a existência de Deus. Esta é uma questão certamente importante, mas como tal constitui tópico mais limitado do que aquilo que pretendemos. A Fé é outra coisa. Implica todo o meu ser, não apenas o nível em que sou capaz de argumentar acerca da possibilidade de Deus. Implica toda a história de Deus, tal como revelada em Jesus Cristo, não apenas qualquer explicação do universo. Recordo uma observação de um jornalista Irlandês sobre o facto de que nos "pubs" se podem, por vezes, ouvir discussões sobre Deus ou a Igreja, mas muito raramente sobre Jesus Cristo. O discurso sobre religião nos "pubs" tende a ficar na superfície. Mas o que eu quero explorar aqui leva-nos para outra lógica e outro comprimento de onda. Discussões externas sobre algum tipo de força sobrenatural (algumas vezes erradamente chamada «Deus») nunca farão justiça à verdadeira fé. É só de dentro dos nossos corações, das nossas mentes, e da nossa humilde procura, que podemos encontrar um caminho que realmente valha a pena percorrer. (Tudo o mais é território de Dawkins).

O presente livro intitula-se "Mapas de Fé" na medida em que nele cada capítulo considera um grande pensador religioso e pergunta de que forma ele ou ela nos poderia indicar a direção da Fé cristã. Centrar-nos-emos mais no modo como podemos mover-nos para a possibilidade da fé religiosa, e menos no conteúdo daquilo em que acreditamos. Tenho consciência, como disse, que muitos dos meus amigos não crentes podem pensar que não têm dicionário, nem gramática para esta linguagem-de-Deus. Eu pedir-lhes-ia simplesmente para entrarem em contacto com as suas próprias questões mais profundas e depois, folheando estas páginas, poderiam começar a apreciar a longa tradição de ponderar a estranheza e a surpresa chamada Deus. Como podemos fazer justiça a esse drama perene de desejo e descoberta de uma forma que faça sentido hoje? Na primeira secção de cada capítulo, um grande pensador será apresentado usando as suas próprias palavras. Após resumir como eles procuraram compreender o caminho para a Fé, na maior parte dos capítulos, procuro um comprimento de onda mais experiencial, tentando responder à seguinte pergunta: O que nos diria hoje este pensador? Em oito dos capítulos ousei criar um monólogo imaginário, como se fosse falado, agora, por um desses «grandes nomes». De facto, os leitores menos acostumados à teologia poderiam achar mais fácil ler estas secções em primeiro lugar (elas surgem em todos os capítulos, exceto naqueles que tratam de Dorothee Soelle e Joseph Ratzinger, em que uma segunda parte apresentada de modo diferente pareceu ser mais apropriada).

 

O contexto de hoje

O que é este "hoje"? Como podemos descrevê-lo? Permitam-me evocar algumas memórias de um mundo que já não existe. Pelo menos no nosso mundo ocidental, quem cresce a brincar numa pequena rua de aldeia ou sem televisão e Internet? E quem cresce hoje com a religião como, supostamente, uma parte natural da vida, desde a oração em família a momentos mais solenes na igreja paroquial, tais como a Bênção do Santíssimo, missões ou Missa solene? «Éramos como dinamarqueses na Dinamarca o dia todo», uma citação de Wallace Stevens que resume tudo. Estou a pensar na minha infância na Irlanda, mas isto aplica-se a todo o mundo. Há 60 anos ou mais, a maioria das pessoas vivia com uma mentalidade estilo-aldeia, mesmo no meio de cidades como Nova Iorque. Isto aplicava-se aos católicos nas suas paróquias, mas seguramente também aos crentes de outras religiões, cristãos ou não. Acreditar e pertencer andavam de mãosdadas.

Hoje é raro que uma criança experimente uma herança religiosa assim, suave e sem problemas. Em todo o mundo ocidental a Igreja tem sofrido uma perda massiva de terreno. Raramente está no centro da vida das pessoas. Na complexidade de hoje, é apenas uma de muitas fontes de significado possíveis, e talvez, neste ponto, uma não muito atrativa. Para grande parte da geração mais nova, o que a Igreja oferece – em termos de ensino, adoração ou imagem espiritual – soa estranho e, muitas vezes, oco e desonesto. Talvez tivessem tido algum contacto na infância, com momentos memoráveis tais como a Primeira Comunhão (um evento facilmente desviado para uma orgia consumista), mas logo que chega a adolescência a linguagem da Igreja pode parecer completamente estranha. Onde encontrarão eles caminhos que conduzam à fé cristã? Provavelmente não através dos sacramentos ou da liturgia, pelo menos como um primeiro passo. Estas são expressões elevadas, ricas quando reais, mas vazias quando não têm base pessoal na «imaginação religiosa» (uma expressão-chave de Newman). Se a Igreja põe todos os seus ovos pastorais no cesto sacramental, então (para misturar metáforas) põe o carro à frente dos bois. As pessoas precisam de descobrir primeiro as suas almas, de recuperar os desejos que um estilo de vida dominante pode sufocar. Então, seriam capazes de acordar para a surpresa do Evangelho. Isto é o que a «nova evangelização» (tão encorajada pelo Papa João Paulo II) poderia significar: já não pode ser alcançada através da abordagem de uma ‘velha pastoral sacramental’, abordagem essa perfeitamente enquadrada na cultura da minha aldeia.

Este livro assume a morte de uma tradição estável e a chegada de uma cultura complexa. Se o «contexto condiciona a consciência», como diziam os marxistas, é óbvio que este mundo radicalmente mudado tem um enorme impacto sobre a possibilidade da fé religiosa. Nesta nova situação muito poucas pessoas simplesmente herdam a fé dos seus pais. Mesmo a expressão «transmissão da fé» peca por excesso de confiança, demasiado automática e antiquada. Precisamos de uma agenda diferente de alimento espiritual e reflexão, e os autores explorados nestes capítulos tentaram fornecer alguns dos seus ingredientes essenciais. Apesar das suas muitas diferenças, partilham um objetivo comum: re-pensar e re-apresentar a fé em modos que possam alcançar as pessoas de hoje.

Como pode um livro ajudar as pessoas na sua procura? A leitura pode ser uma atividade solitária, mas os leitores destas páginas são convidados a fazê-la meditativamente. Uma abordagem somente com a cabeça nunca descobrirá o cerne da fé – enquanto amor oferecido e aceite. É um ‘sim’ a um ‘sim’, em que o ‘sim’ eterno que Deus nos dá vem primeiro e o nosso inseguro ‘sim’ de reconhecimento vem sempre mais tarde. Assim, tentarei escrever num espírito de reverência, esperando ser lido num espírito de abertura à imaginação de Deus. Sim, é disso que estamos a falar: como Deus nos convida a imaginar as nossas vidas enquanto fundamentadas num Amor para além de qualquer imaginação.

Há quase meio século, o Concílio Vaticano II produziu o primeiro tratamento sério do ateísmo na história da Igreja. Após intenso debate, o Concílio optou por uma abordagem enraizada no diálogo e no autoquestionamento. Abandonou a tendência prévia de tratar o ateísmo apenas como um erro filosófico perigoso, ou então como um sistema político injusto. Ainda hoje, as palavras de abertura das secções que tratam da descrença são notáveis: falam três vezes de amor e em seguida introduzem o fenómeno do ateísmo como uma incapacidade de reconhecer a revelação bíblica do amor. Desta forma, o ateísmo é visto não como uma rejeição teórica de um Deus distante, mas como uma questão existencial envolvendo uma relação que falta, um convite não reconhecido.

Aqui está uma paráfrase simplificada desse parágrafo de abertura ("Gaudium et spes", 19):

«O nosso mais elevado objetivo humano é encontrar Deus. Nascemos por amor, mantemo-nos vivos por amor, e a plenitude da vida vem quando reconhecemos este amor e o abraçamos livremente. Mas hoje muitas pessoas, infelizmente, não podem vislumbrar ou perceber esta chamada íntima. Por isso, o ateísmo tornou-se uma das mais sérias questões do nosso tempo».

No seu eloquente discurso de encerramento do Concílio, o Papa Paulo VI sublinhou este novo tom relativo à fé e à descrença:

«O humanismo secular mostrou-se em toda a sua estatura e desafiou o Concílio… O que aconteceu? Um conflito, uma luta, uma condenação? Isso poderia ter sido possível, mas não aconteceu. A velha história do Samaritano tornou-se o modelo da espiritualidade do Concílio. Uma enorme simpatia tomou conta… Assim, a vós humanistas modernos, embora rejeiteis a transcendência, pedimos para que reconheçais o nosso novo humanismo, porque nós também, nós mais que ninguém, somos cultivadores da humanidade».

Os dez autores visitados nestas páginas exploram a questão da fé neste espírito de diálogo e simpatia (mesmo os que viveram antes do Concílio). Estão intensamente conscientes que abordagens doutrinais ou abstratas podem não chegar aonde as pessoas hoje estão. Dão-se conta de que muitas pessoas, incluindo às vezes eles próprios, experimentam uma confusão dolorosa sobre o significado último das coisas, sobre a vida da Igreja e mesmo sobre a possibilidade de Deus. O desafio de uma cultura fragmentada estimula-os a tentar fazer sentido da fé em novas situações. Ora é também esse desafio que subjaz à minha tentativa de traduzir estes grandes pensadores, na esperança de ajudar as pessoas a descobrir, ou a redescobrir, a senda do tesouro que leva àquela fé capaz de tudo transformar.

 

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 01.11.2015

 

Título: Mapas de Fé - Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger
Autor: Michael Paul Gallagher, s.j.
Editora: Frente e Verso
Páginas: 240
Preço: 14,00 €
ISBN: 978-989-98322-4-4

 

 
Imagem Capa | D.R.
Estas páginas são uma tentativa de recolher as minhas leituras e o pensamento por elas provocado, tornando-o acessível a quem ande à procura de Deus, mesmo àqueles muitos amigos sinceros que me dizem que Deus é tão inconcebível como irreal – simplesmente fora dos seus caminhos
Cada um dos dez autores explorou questões de significado e de fé, com profundidade e criatividade, mas a maior parte deles pode, pelo menos à primeira vista, parecer de difícil leitura para um público não-especialista. O meu objetivo é fazer com que os seus contributos sejam acessíveis a mais pessoas
Discussões externas sobre algum tipo de força sobrenatural (algumas vezes erradamente chamada «Deus») nunca farão justiça à verdadeira fé. É só de dentro dos nossos corações, das nossas mentes, e da nossa humilde procura, que podemos encontrar um caminho que realmente valha a pena percorrer
O presente livro intitula-se "Mapas de Fé" na medida em que nele cada capítulo considera um grande pensador religioso e pergunta de que forma ele ou ela nos poderia indicar a direção da Fé cristã
Tenho consciência de que muitos dos meus amigos não crentes podem pensar que não têm dicionário, nem gramática para esta linguagem-de-Deus. Eu pedir-lhes-ia simplesmente para entrarem em contacto com as suas próprias questões mais profundas e depois, folheando estas páginas, poderiam começar a apreciar a longa tradição de ponderar a estranheza e a surpresa chamada Deus
Em todo o mundo ocidental a Igreja tem sofrido uma perda massiva de terreno. Raramente está no centro da vida das pessoas. Na complexidade de hoje, é apenas uma de muitas fontes de significado possíveis, e talvez, neste ponto, uma não muito atrativa. Para grande parte da geração mais nova, o que a Igreja oferece – em termos de ensino, adoração ou imagem espiritual – soa estranho e, muitas vezes, oco e desonesto
Se a Igreja põe todos os seus ovos pastorais no cesto sacramental, então (para misturar metáforas) põe o carro à frente dos bois. As pessoas precisam de descobrir primeiro as suas almas, de recuperar os desejos que um estilo de vida dominante pode sufocar
Como pode um livro ajudar as pessoas na sua procura? A leitura pode ser uma atividade solitária, mas os leitores destas páginas são convidados a fazê-la meditativamente. Uma abordagem somente com a cabeça nunca descobrirá o cerne da fé – enquanto amor oferecido e aceite
Os dez autores visitados nestas páginas exploram a questão da fé neste espírito de diálogo e simpatia (mesmo os que viveram antes do Concílio). Estão intensamente conscientes que abordagens doutrinais ou abstratas podem não chegar aonde as pessoas hoje estão
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