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Sem interpretação, a Escritura é letra morta: «Um dos máximos biblistas» do século XX nasceu há 100 anos

O maior legado espiritual, mas também moral, que o jesuíta espanhol Luis Alonso Schökel (1920-1988), definido pelo cardeal Gianfranco Ravasi como «um dos máximos biblistas de Novecentos», talvez seja sintetizado numa sua frase que tinha o sabor da recomendação para os seus estudantes do Pontifício Instituto Bíblico de Roma: «O importante não é ler a Bíblia, mas aprender a ler».

Um livro pensado aos cem anos do nascimento do ilustre exegeta, “L’analogia nuziale nella Scrittura. Saggi in onore de Luis Alonso Schökel” (Gregorian & Biblical Press, 164 páginas), presta homenagem ao genial filho de Santo Inácio que se conta entre os nobres pais da tradução, nos anos após o Concílio, da Bíblia em espanhol. A se devem belíssimos comentários – uma verdadeira “Suma Teológica” – sobre o livro de Job, assim como sobre a constituição dogmática do Vaticano II sobre a Palavra de Deus, a “Dei Verbum”.

O volume organizado por Luca Pedroli, um dos discípulos de Schökel, representa um tributo ao mestre da Sagrada Escritura à luz de um ensaio que representou para o jesuíta, originário de Madrid e falecido em Salamanca, aos 78 anos, a 10 de julho de 1998, o último livro e, de certa maneira, o canto do cisne: “Os nomes do Amor. Símbolos matrimoniais na Bíblia”. As páginas recolhem contributos dos maiores especialistas sobre este delicado âmbito.

A obra permite aos leitores entrar nas dobras mais internas sobre o sentido da busca intelectual de Schökel, que tinha como missão fazer compreender a importância do «estudo literário da Bíblia». Schökel não foi só um grande exegeta, mas também um homem enamorado pela Palavra de Deus, e juntamente com o monge camaldolense Innocenzo Gargano, de autêntico mestre da “Lectio Divina” conseguiu atrair a atenção – por se deter constantemente na Bíblia no sulco da tradição judaico-cristã durante longos encontros e seminários – de um artista aparente “agnóstico” e distante da fé como Vittorio Gassman.

O mérito desta publicação, que é também fruto de um congresso dedicado a Schökel no ano de 2017, em Roma, é o de, sobretudo, prestar a justa homenagem a um exegeta que é, talvez, o último representante de uma geração irrepetível de professores jesuítas que tornaram o “Bíblico” de Roma uma instituição universal e reverenciada em todo o mundo académico. No interior destas saborosas páginas descobre-se, sobretudo, o rigor professoral e a autoironia de Schökel, a sua paixão pela música (era um excelente pianista) e pelo amado Dostoiévski; descobre-se também o génio de um docente de Sagrada Escritura nunca repetitivo, mas sempre «intuitivo e criativo».

O volume realça a «relevância» de Schökel para uma «cristologia esponsal» presente nos Evangelhos sinóticos (Lucas, Mateus, Marcos): basta pensar na figura de Jesus nas bodas de Caná. Mas mais. A sua «compreensão da Escritura» no sulco de conceitos e categorias de pensamento a ele caros, como «metáfora esponsal» e «analogia nupcial», foi o seu contributo para explicar a fundo «a relação entre Deus e o seu povo» no Antigo e Novo Testamento.

No centenário do seu nascimento, é justo reevocar Schökel com as mesmas palavras que gostava de repetir aos seus alunos, como testemunha na sua tocante recordação o jesuíta belga Jean-Louis Ska. Palavras que têm o sabor de um testamento espiritual, não só para os amantes da Escritura: «O texto bíblico é como uma partitura musical. A partitura não é música, todavia. É preciso tocar ou cantar, é preciso interpretar a partitura. É preciso também interpretar o texto bíblico, de outra maneira permanece letra morta».


 

Filippo Rizzi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Luis Alonso Schökel | D.R.
Publicado em 14.08.2020

 

 

 
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