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Livro: Palavra que equivale a dizer amor e que os povos deviam pedir como pedem pão

Os livros têm os mesmos inimigos do ser humano: o fogo, a humidade, os insetos, o tempo, o conteúdo. É preciso, por isso, cuidar do livro para que perdure no tempo, não se deteriore. Ao leitor cabe a tarefa da ocupar-se das necessidades do livro, de providenciar à sua integridade, evitando deturpá-lo, desperdiçá-lo, negligenciá-lo ou danificá-lo, dado que ele não sabe defender-se e depende totalmente das nossas atenções. Muitas vezes é, com efeito, precisamente o leitor a violar a integridade do livro com marcas inapropriadas, manipulações inábeis ou, no caso de volumes emprestados, até com verdadeiras mutilações, abrasões, lesões.

Felizmente há sempre o bom leitor a tornar bom o livro menos bom. Tornam melhor um jornal os redatores ou os assinantes? Um poema nunca está terminado, mas apenas incompleto, e os livros são as abelhas que transportam o pólen de uma inteligência para a outra. Estamos num deserto quando nenhum olhar de algum livro nos dá sinais de inteligência. Lemos mal o mundo e depois dizemos que nos engana! É preferível um grande número de leitores, é ótimo um certo número de pessoas que releem o que leram em idades diferentes da sua vida. Quem não quer pensar é um fanático; quem não ousa pensar é um cobarde. Pensar é o empreendimento mais difícil e é talvez o motivo pelo qual pouquíssimas pessoas o praticam. Agir é fácil, pensar é difícil; mas agir em conformidade com o que se pensa é igualmente difícil. Há excelentes livros que desvelam, revelam ou despertam, e mais livros que encobrem e adormecem, mas teremos sempre Casablanca: «Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos» (“O principezinho”).



«Esta é a melancolia que eu sinto, não pela gente de minha casa, o que seria mesquinho e vil, mas por todas as criaturas que por falta de meios e por desgraça não desfrutam do supremo bem da beleza»



O livro é uma experiência sensorial completa, que vai para além da banal ação de “ler”: o livro cheira-se, toca-se e acaricia-se, admira-se na colocação que lhe damos na biblioteca, e ao mesmo tempo o amor por ele vai além do simples prazer estético e tátil, estendendo o seu prazer à capacidade de viver aonde te leva. A leitura envolve quatro dos cinco sentidos: através dos olhos, vejo um livro; através das mãos, tomo a sua consistência; através das narinas, sinto o odor do papel; através dos ouvidos reconheço o ruído familiar do desfolhar das páginas; um livro não se pode comer, ainda que se possa provar e é alimento para a mente, mesmo que não passe pela boca.

No “Discurso” do célebre poeta Garcia Lorca para a inauguração da biblioteca da sua cidade-natal (Fuente Vaqueros, Granada), em setembro de 1931, disse: «Quando alguém vai ao teatro, a um concerto ou mesmo a uma festa de qualquer índole que seja, se a festa é de seu agrado, imediatamente lembra e lamenta que as pessoas que ama não se encontrem ali. «A minha irmã e o meu pai gostariam de estar aqui», pensa, e não desfruta do espetáculo, a não ser através de uma leve melancolia. Esta é a melancolia que eu sinto, não pela gente de minha casa, o que seria mesquinho e vil, mas por todas as criaturas que por falta de meios e por desgraça não desfrutam do supremo bem da beleza».



«Tenho muito mais pena de um homem que quer saber e não pode, do que de um faminto. Porque um faminto pode vencer a sua fome facilmente com um pedaço de pão ou com umas frutas, mas um homem que tem ânsia de saber e não possui os meios, sofre uma terrível agonia, porque é de livros, livros, muitos livros, que necessita»



«Não só de pão vive o homem. Eu se tivesse fome e estivesse à míngua na rua não pediria um pão; pediria meio pão e um livro. E daqui eu ataco violentamente os que somente falam de reivindicações económicas sem jamais apontar as reivindicações culturais, que é o que os povos pedem aos gritos. É bom que todos os homens comam, contanto que todos os homens saibam. Que desfrutem de todos os frutos do espírito humano, porque o contrário seria convertê-los em máquinas ao serviço do Estado, seria convertê-los em escravos de uma terrível organização social.»

«Tenho muito mais pena de um homem que quer saber e não pode, do que de um faminto. Porque um faminto pode vencer a sua fome facilmente com um pedaço de pão ou com umas frutas, mas um homem que tem ânsia de saber e não possui os meios, sofre uma terrível agonia, porque é de livros, livros, muitos livros, que necessita; e onde estão estes livros? Livros! Livros! Aqui está uma palavra mágica que equivale a dizer: «amor, amor», e que deveriam pedir os povos como pedem pão ou como desejam a chuva para as suas colheitas.»



Os livros mudam as pessoas porque não as julgam. Deixam-se ler confiantes de que quem lê saberá extrair as suas conclusões, não refreiam a inteligência, ainda que não possam substituir-se aos nossos pensamentos



Nas apresentações dos livros há uma tendência, se não para a crítica áspera, pelo menos para um género de hagiografia hipócrita na qual não gostaria de incorrer. Mais adequado e realista seria, ao contrário, pelo menos no que me diz respeito, repetir com o filósofo estoico: «Se te vêm dizer que alguém falou mal de ti, não negues o que disse; mas responde apenas que não conhece todos os teus outros vícios, e que se os conhecesse ainda falaria pior».

Muitas vezes não somos imparciais em relação aos livros e aos escritores. Por inclinação natural mostramo-nos mais propensos a censurar os erros do que a louvar os resultados positivos, exigindo dos outros o dever de serem perfeitos. No entanto quem tem o direito de criticar deve ter o coração para ajudar, e quem foge a fazer um elogio atente no conselho de Cervantes: «Considera que é absurdo/ sendo de vidro o teto/ encher de pedras as mãos/ para atirá-las ao vizinho». Há uma falsa modéstia que é vaidade, uma falsa grandeza que é mesquinhez, uma falsa virtude que é hipocrisia e uma falsa sabedoria que é falsa prudência. É possível, em todo o caso, que a verdade nos torne livres, enquanto é impossível que a verdade se faça livro, por muito bom que seja.

Os livros mudam as pessoas porque não as julgam. Deixam-se ler confiantes de que quem lê saberá extrair as suas conclusões, não refreiam a inteligência, ainda que não possam substituir-se aos nossos pensamentos, mas treinam-nos, põem-nos à prova, fazem morrer alguns, mas fazem nascer muitos mais.


 

Armando Savignano
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Zeferli/Bigstock.com
Publicado em 28.04.2021

 

 
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