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«Um buraco de luz para Deus»: José Tolentino Mendonça assina textos da oratória inter-religiosa "Credo"

Imagem D.R.

«Um buraco de luz para Deus»: José Tolentino Mendonça assina textos da oratória inter-religiosa "Credo"

«Ligo o braço longe a uma estrela/ A lua límpida sobe no céu/ Um anel passa através de outro anel// Procuro o tempo e encontro a passagem/ Procuro a morada e encontro o relento».

Estes são os primeiros versos de «Um buraco de luz para Deus», título de uma das composições que o padre José Tolentino Mendonça escreveu para “Credo”, oratória inter-religiosa e intercultural que vai ser estreada no próximo dia 10, em Lisboa.

O texto, que se une à direção musical e artística do compositor italiano Mario Tronco, será apresentado na 7.ª edição do Festival Todos, que entre 10 e 13 de setembro tem o epicentro na Colina de Santana e Campo dos Mártires da Pátria.

No texto redigido para a Folha de Sala, que reproduzimos nesta página (assim como a composição “Um buraco de luz para Deus”), José Tolentino Mendonça sublinha que «a fé é uma manifestação de confiança no silêncio» e expressa a convicção de que «as experiências religiosas são instrumentos para observar o enigma do mundo».

«Crer é uma condição necessária para viver. Quer seja uma doutrina, quer seja um pensamento, ou uma qualquer relação entre pessoas, aquilo em que se crê define o caminho que se trilha na vida. É isso que iremos cantar, através das palavras escritas e escolhidas por José Tolentino Mendonça», explica, por seu lado, Mario Tronco, citado no sítio da iniciativa.

“Credo”, «partitura de músicas para nove intérpretes e instrumentistas de proveniências muito diferentes», afirma-se como «uma oração íntima, não ritual, para quem acredita que Deus existe mas também para quem, observando uma estrela ou diante de um desastre, reza para que Deus exista», acrescenta o compositor, acompanhado nos arranjos por Leandro Piccioni e Pino Picorelli.

Com uma hora de duração, a oratória que será apresentada na igreja de S. Domingos, às 21h30, «é realizada sob o tema “l’Etica Mondiale” e será uma composição original baseada nas diferentes culturas dos músicos que integram a Orchestra di Piazza Vittorio (Wolof, Sufi, Árabe e Muçulmana), que cede vários intérpretes (e o seu fundador, Mario Tronco)» ao espetáculo, refere a organização.

O Festival Todos – Caminhada de Culturas visa promover «o valor da Interculturalidade junto de todos aqueles que vivem e trabalham em Lisboa, propõe, através da convivialidade entre pessoas de diversas origens culturais, sociais, económicas e geracionais».

O programa abrange múltiplas atividades, como visitas guiadas (entre as quais ao convento da Encarnação da Ordem de Avis, no dia 13, às 12h00), teatro, música, dança, arte urbana, exposições, instalações e espetáculos na rua.

 

Do silêncio fazer música
José Tolentino Mendonça
Texto para Folha de Sala da Oratória “Credo”

O que melhor expressa a experiência de Deus, em qualquer língua e em qualquer credo, é o silêncio. A fé é uma manifestação de confiança no silêncio. Todos os livros sagrados, todas as preces que já se escreveram ou se escreverão, todas as teologias, arquiteturas ou artes que, de uma forma ou de outra, associamos ao sagrado, todas as ritualidades, tão diversas na sua morfologia, mas mantendo entre si equivalências tão flagrantes, são mapas para aproximar-se do silêncio. Que é como quem diz: as experiências religiosas são instrumentos para observar o enigma do mundo; são modos de habitar não apenas a pergunta radical que nós humanos transportamos, mas aquela interrogação ardentemente irremovível que somos; são estratégias de perfuração do visível; são a consideração de que aquilo que tateamos não é o fim, mas o princípio apenas; são laboratórios para o interminável e doloroso espanto que viver significa; são epifania, relance, vislumbre, deslumbre, revelação. Talvez por serem hermenêuticas do silêncio, as religiões mantêm com a música uma relação tão íntima, tão inesperada, tão criativa, tão verdadeira. Nietzsche escreveu que ”sem a música, a vida seria um engano". Religião e música encontram-se aí: na busca e na tradução de um sentido para a vida.

 

Um buraco de luz para Deus
José Tolentino Mendonça
Composição da oratória “Credo”

Ligo o braço longe a uma estrela
A lua límpida sobe no céu
Um anel passa através de outro anel

Procuro o tempo e encontro a passagem
Procuro a morada e encontro o relento

Às vezes mesmo sem voz
Às vezes até sem palavras
Silêncio que Deus me deu
És uma forma de luz
Tornas sagrado o que existe, centelhas da verdade
Somos o barro, somos poeira
O teu vento errante nos leva

Eu sei existe em mim, mesmo no fundo de um poço
Um buraco de luz para Deus
Um nome escrito no céu

E não sei o que fazer e rezo
Rezo sem saber dizer o quê e a quem
Mas rezo
Rezo o chão e a flor, o pão e a fome,
Rezo o branco e a dor
Nas letras do teu nome
Há um buraco de luz

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 04.09.2015

 

 

 
Imagem D.R.
Crer é uma condição necessária para viver. Quer seja uma doutrina, quer seja um pensamento, ou uma qualquer relação entre pessoas, aquilo em que se crê define o caminho que se trilha na vida. É isso que iremos cantar, através das palavras escritas e escolhidas por José Tolentino Mendonça
As experiências religiosas são instrumentos para observar o enigma do mundo; são modos de habitar não apenas a pergunta radical que nós humanos transportamos, mas aquela interrogação ardentemente irremovível que somos
Talvez por serem hermenêuticas do silêncio, as religiões mantêm com a música uma relação tão íntima, tão inesperada, tão criativa, tão verdadeira
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