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Jornal do Vaticano leu “Não é meia-noite quem quer”, de António Lobo Antunes

«“Cheguei de manhã para me despedir da casa.” É sexta-feira, 26 de agosto de 2011, e numa residência de campo ao largo de Lisboa, a voz narradora de “Não é meia-noite quem quer” (ed. portuguesa D. Quixote, 2012, 456 pp.), romance de António Lobo Antunes, manter-nos-á três dias durante um longo desafogar de pensamentos, ideias, imagens e memórias, rumores, conversas e sons, expressos numa prosa densa e desconfortável, que no momento evoca o “clássico” fluxo de consciência, mas é algo de diferente.»

É com estas palavras que o jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, inicia a apreciação ao romance do escritor português, sublinhando que a narradora se move por «associações livres (não é por acaso que o autor é um conhecido psiquiatra português) e verbaliza a sua vida psíquica e de quem acolhe no remoinho da narração, ou melhor, num vórtice de tempos, lugares e ações, sem soluções de continuidade».

«Voltou para a casa de férias, que decidiu vender, depois de anos de pendulares abandonos, agora que acabou de chegar à meia-idade, e não há mais nenhum dos seus, aliás nunca chamados pelo nome. Não a mãe, consumida na família como no papel de “burra de carga”; não o pai, sempre perto de uma garrafa, homem sem qualidade nem pulso; não os irmãos, um suicida, o outro adúltero e surdo-mudo, e o terceiro veterano de guerra em Angola (entre os anos 60 e 70 da ditadura de Salazar)», escreve Cláudio Toscani.

Nesse regresso, ouve vozes «de parentes, entre próximos e afastados, de amigos e conhecidos», numa escrita que exprime «sensações, perceções, desejos na desorientada complexidade de uma trama refletida em páginas como num espelho em estilhaços», prossegue o texto.



“E se Deus não existe o que vai ser de nós (…); sem Deus a Terra disparada por aí a chocar nos cometas, pior que os carrinhos elétricos da feira batendo uns nos outros”



«Um fim de semana de memórias [título do artigo], em suma, renitente a qualquer hipótese de trama» além de um «elenco de temas», apresentados «como cartas de um baralho para uma partida de jogadores sem fôlego, sem esperança», «“gentinha”», como é definida a classe operária, «exceto os mortos», que dão o seu contributo para um «cenário suspenso entre perceções objetivas da realidade e as suas reelaborações mentais».

Claudio Toscani questiona o que terá «acontecido ao mundo de Antunes que seja possível imaginar a partir da leitura de “Não é meia-noite quem quer”, à parte o estilo, «fibrilação sintática», «estrutura pulverizada».

«Foi a pobreza que se seguiu à crise económica? Foram os vícios pessoais dos personagens? Ou as suas dificuldades físicas e mentais? Ou não terá sido antes o desamor induzido pela má condução da sociedade; o vazio de ideais mortos por uma pesada realidade política e social, a insensibilidade e a indiferença que escondem na ausência de esperanças, de futuro?», pergunta.

Mas «a morte não é o fim porque, segundo Antunes, «“existimos à mesma só que não dão por nós”, morrer é como o “preguear de cortina”, e o tempo é uma injustiça, corre veloz precisamente quando é preciso que vá devagar, que abrande, que pare, até».

Em paralelo ao tema da morte, emerge a questão da divindade: «“Achas que Deus existe?”, pergunta repentinamente o texto na pessoa de uma figura menor. “Julgas que tenho tempo de empreender nessas coisas?”», replica o interlocutor. Mas logo depois, com a técnica da referência impessoal, lê-se: “E se Deus não existe o que vai ser de nós (…); sem Deus a Terra disparada por aí a chocar nos cometas, pior que os carrinhos elétricos da feira batendo uns nos outros”».

«Os três dias da revisitação da casa e dos lugares de infância estão para terminar, as memórias persistem mesmo sem motivo, os sonhos fazem-se irresolúveis instantâneos de desejo, mas a escrita marcha impassível como se fosse infinita. Quanto sente a suspeita de que o leitor fique aturdido pelo como ou por que coisa, enrola-se em si mesma. Mas quem se detém «”não faz nada de bom”. E por isso, adiante», conclui o autor.


NB: A transcrição das passagens do livro segue a edição portuguesa, e não a tradução italiana usada pelo "'L'Osservatore Romano".


 

Rui Jorge Martins
Fonte: L'Osservatore Romano
Imagem: António Lobo Antunes | D.R.
Publicado em 16.01.2019

 

 
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