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Jornal do Vaticano evoca José Saramago no décimo aniversário da morte

«Não obstante o pessimismo de que muitas das suas obras estão imbuídas, prestando-se a vários níveis de leitura, no décimo aniversário da sua morte preferimos recordá-lo como um autor que, no entanto, procurou destacar o fator humano que se esconde por detrás dos acontecimentos mais díspares.»

É neste quadro que o jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, assinala o décimo aniversário da morte do escritor português José Saramago (16.11.1922 – 18.6.2010), primeiro na edição diária em italiano, e depois na edição semanal em português, esta com texto publicado a 23 de junho na internet.

O artigo, intitulado “Saramago e a miopia do mal”, começa por lembrar passagens do discurso que proferiu quando recebeu o prémio Nobel da literatura, em 1988, em particular a «homenagem deveras carinhosa ao seu avô materno, “o homem mais sábio que já conheci, embora não soubesse ler nem escrever”». 

Depois de recordar que a cerimónia de atribuição do galardão coincidiu com os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, o texto vinca que «a denúncia da opressão e da iniquidade que corroem o espírito humano distinguiu grande parte da sua vasta produção, na qual ele frisa frequentemente que se perdeu o sentido de solidariedade, e que esta perda levou a sociedade contemporânea e as suas estruturas de poder a tornarem-se profundamente míopes».

Sérgio Suchodolak centra-se, depois, no «intenso romance» “Ensaio sobre a cegueira” (1995), no qual Saramago «faz uma análise lúcida da natureza humana», destacando, como «tema central por detrás dos acontecimentos absurdos e inexplicáveis» da narrativa, a «indiferença» e «egoismo», denunciados «com veemência, como dura crítica à sociedade em geral».



«Ainda se pode esperar que para as trevas da razão haja um remédio eficaz, ou seja, o da compaixão. Um antídoto seguro contra a indiferença, o único que nos pode levar da cegueira e dureza de coração ao respeito pelo outro, matéria-prima fundamental para a construção da civilização do amor», refere o artigo



No ambiente para o qual os protagonistas são lançados, um hospício, «a solidariedade é completamente banida», e «o homem chega a anular a própria evolução biológica, cultural e comunitária»; neste contexto, vendo-se aprisionado «nas garras do medo do outro, somente a luta pela sobrevivência parece mantê-lo vivo».

«Partidário convicto do pessimismo antropológico, mas profundo conhecedor do espírito humano, o autor afirma “que nós não somos bons, e é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”, se quisermos aspirar ao restabelecimento, e que a nossa reação em situações de impotência e abandono pode tornar-se impiedosa e perder qualquer sombra de objetividade, levando-nos ao verdadeiro desprezo pelo outro», aponta o jornalista da redação de língua portuguesa do jornal.

Na igreja em que entra uma das personagens, Saramago escreve que «todos os Santos estão vendados, e até Cristo na cruz, como se se quisesse afirmar que o próprio Deus já não merece ver: “Se os céus não veem, que ninguém veja”. Na verdade, é o homem que, sentindo-se abandonado ao seu trágico destino, não quer ser visto e culpa Aquele que, na sua opinião, não foi capaz de o salvar».

O romance, apesar da sua «visão distópica do mundo», pode fazer o leitor «refletir sobre os comportamentos humanos, especialmente nos momentos mais complexos e imprevisíveis da vida, se não se quiser mergulhar no absurdo».

«Ainda se pode esperar que para as trevas da razão haja um remédio eficaz, ou seja, o da compaixão. Um antídoto seguro contra a indiferença, o único que nos pode levar da cegueira e dureza de coração ao respeito pelo outro, matéria-prima fundamental para a construção da civilização do amor. Talvez semelhante àquela que povoava os sonhos do autor que, quando era criança, adormecia feliz com o seu avô debaixo de uma grande figueira», conclui o artigo.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: L'Osservatopre Romano
Imagem: José Sarmago | D.R.
Publicado em 24.06.2020 | Atualizado em 25.06.2020

 

 
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