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João Manuel Duque: Quando o cristianismo constrói cultura

«João Manuel Duque cruza tradição e inovação, memória e futuro; melhor: a incerteza do porvir. Capaz de revisitar temas clássicos, mas também de se confrontar com os desafios da cibercultura, com as suas dimensões neognósticas e com a apocalítica do pós-humano.»

Esta foi uma das faces do poliedro que constitui a personalidade e a obra de João Manuel Duque evocada esta quinta-feira, 15 de setembro, em Braga, por João Loureiro, durante o Ato de Entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, edição de 2021, ao teólogo de 58 anos nascido no concelho de Monção, Viana do Castelo.

A intervenção de João Loureiro, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, começou por se interrogar sobre a denominação da distinção atribuída pela Igreja católica, através do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, para destacar um percurso ou obra que, além de atingirem elevado nível de conhecimento ou criatividade estética, refletem o humanismo e a experiência cristã: «Árvore da Vida ou Árvore do Conhecimento»?

A seguir, o jurista interrogou a relação entre a obra do Padre Manuel Antunes com a dos anteriores galardoados pelo Prémio, do poeta Fernando Echevarría, o primeiro, distinguido em 2005, até Eduardo Lourenço (2020).



João Manuel Duque «procede a uma cogitação profunda sobre a globalização, ainda que agora os ventos que sopram sejam marcados, crescentemente, por traços de desglobalização, em nome do soberanismo, um conceito cuja presença no espaço público se tem multiplicado»



Na terceira parte da dissertação, o membro da Direção da Academia para o Encontro de Culturas e Religiões (Universidade de Coimbra) interrogou: «Qual a justeza de atribuir o Prémio a um teólogo? Não se trata – perguntaríamos – de uma honra que se limita a olhar para o umbigo, porquanto a teologia não passa de uma espécie de “in house grammar” irrelevante fora de uma tradição eclesial ou, quando muito, do ecumenismo e do diálogo interreligioso?».  

«Tendo como pano de fundo os textos de João Duque, importará afivelar a máscara, do descrente, e perguntar: “Que relevância poderá estar reservada à teologia na esfera pública?”, a qual, naturalmente, inclui o discurso académico», interpelou.

O primeiro teólogo a ser reconhecido pelo Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes soube trazer «de forma aberta o seu contributo para um “diálogo político ecuménico” (Michael Perry), um modelo que assume o pluralismo como modo de realização da democracia contra a unilateralidade arrogante do laicismo.

«Também aqui João Manuel Duque pode e deve ser convocado. Partindo da essencialidade da cultura – “elemento chave da compreensão do ser humano” – recorda que “mesmo enquanto atividade especificamente eclesial – como o prova a história da Igreja, sobretudo da sua liturgia” – o cristianismo constrói cultura, prestando com isso um importante serviço a toda a humanidade”», acentuou João Loureiro.

O pró-reitor da Universidade Católica Portuguesa, prosseguiu o jurista, «é exemplo de uma verdadeira “compenetração” (Hans Urs von Balthasar) da teologia (enquanto esta é “expressão da expressão”, ou seja, da Revelação) com os desafios do “pensamento da época”, filosófico, desde logo».



«Manda a tradição que o galardoado agradeça o prémio, mas, verdadeiramente, nós é que temos de mobilizar essa palavra primeira da condição humana: agradecer pela vida de João Manuel Duque; pela sua fundamental via teológica e pelo dom da partilha das suas ideias e textos»



Entre as múltiplas áreas de pensamento a que João Duque se tem dedicado comparece «uma reflexão sobre a Europa, entre memória e futuro, nomeadamente em torno do lugar de Deus».

«Procede a uma cogitação profunda sobre a globalização, ainda que agora os ventos que sopram sejam marcados, crescentemente, por traços de desglobalização, em nome do soberanismo, um conceito cuja presença no espaço público se tem multiplicado», apontou João Loureiro.

O tema da «família, em geral, a partir de uma leitura antropológica, e a cristã em particular» é igualmente contemplada pelo teólogo, enquanto no seu pensamento «sobre o sentido da história, manifesta-se contra o peso demasiado de uma leitura hegeliana, movendo-se para lá da alternativa linearidade/circularidade, nomeadamente convocando Nietzsche».

«Manda a tradição que o galardoado agradeça o prémio, mas, verdadeiramente, nós é que temos de mobilizar essa palavra primeira da condição humana: agradecer pela vida de João Manuel Duque; pela sua fundamental via teológica e pelo dom da partilha das suas ideias e textos; agradecer porque a sua reflexão ajuda-nos a ter “saudades do futuro” (Teixeira de Pascoaes)», concluiu João Loureiro.

O Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, que na sua edição de 2021 foi atribuído no Espaço Vita, propriedade da Arquidiocese de Braga, é composto pela escultura “Árvore da Vida”, da autoria de Alberto Carneiro, entregue pelo presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, o bispo D. João Lavrador, e por 2.500 euros, com o patrocínio da Fundação Ilídio Pinho, conferidos por representante da instituição.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: Ato de Entrega do Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes, Espaço Vita, Braga, 15.9.2022
Publicado em 15.09.2022 | Atualizado em 16.09.2022

 

 

 
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