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João Manuel Duque: Intervenção no Ato de Entrega do Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes

Depois de agradecer a todos os envolvidos no meu percurso, aproveito esta ocasião para tecer algumas considerações sobre os desafios ao trabalho teológico nos dias de hoje. Fá-lo-ei a partir da minha perspetiva, que não é a única nem pretende ser a mais acertada. É evidente que o ministério da teologia pode conhecer vários enquadramentos, nomeadamente no interior da comunidade eclesial. Mas eu permito-me interpretar este prémio como reconhecimento e valorização de um estilo de teologia que não se limita a refletir a vida interna da Igreja, mas que procura contribuir para o debate sobre a vida comum a todos os humanos, em todas as suas dimensões. Nesse sentido, interpreto este reconhecimento não apenas como valorização de um trabalho individual (o que é sempre muito discutível), mas como valorização simbólica de um perfil e um estilo, que se considerou ser representado pelo meu trabalho nas últimas décadas. Trata-se da elaboração de uma teologia universitária, em permanente atenção ao debate cultural contemporâneo. Nesse sentido, valoriza-se explicitamente o trabalho da Faculdade de Teologia em Portugal, ao longo dos últimos mais de 50 anos. E reconhece-se que esse trabalho é muito importante para a vida da Igreja, na formação dos líderes eclesiais e na reflexão crítica sobre as dinâmicas culturais do nosso tempo. Reconhece-se, também, pela mediação da teologia, a importância do contributo da fé cristã para o nosso mundo comum contemporâneo.



Uma teologia universitária tem sobretudo dois objetivos fundamentais: fazer ouvir a voz teológica no concerto dos saberes e das realizações culturais; fazer ouvir a voz dos saberes e das culturas no interior da voz teológica



Ora, este paradigma de teologia distingue-se de um paradigma exclusivamente centrado na reflexão sobre a vida interna da comunidade eclesial ou sobre elementos exclusivamente focados na tradição cristã ou mesmo eclesiástica. Não que se recuse validade a esse trabalho interno, mas considera-se insuficiente e, se assumido como exclusivo, mesmo perigoso, porque não permite um certo grau de intervenção pública da teologia, alimentando problematicamente um potencial espírito de seita ou de bolha.

Ora, uma teologia universitária – e tem sido a essa que eu tenho preponderantemente dado voz, sem negar a importância da tradição cristã e eclesial – tem sobretudo dois objetivos fundamentais: fazer ouvir a voz teológica no concerto dos saberes e das realizações culturais; fazer ouvir a voz dos saberes e das culturas no interior da voz teológica.



A teologia não é ainda significativamente acolhida no espaço público, como seria desejável e, acredito, benéfico para todos, pois a sua voz pode ser muito pertinente na busca e nas propostas para a construção de um mundo comum, muito para além das identificações religiosas



Reconheço que o primeiro aspeto, no mundo pós-secular e plural em que vivemos, é mais difícil, pois o eco do discurso teológico no espaço público continua a ser muito limitado. Pessoalmente, considero que tenho conseguido colocar essa voz em alguns ambientes não especificamente eclesiásticos – como é exemplar o caso do Prof. João Loureiro. No seu estatuto de académico de uma área diferente da teologia, tem tido a generosidade de ler o que tenho escrito, acompanhando as minhas propostas de forma profunda e exigente. Diria, contudo, que deve ser o único (entre teólogos e não teólogos) que leu tudo o que escrevi, conseguindo ao mesmo tempo uma síntese e uma análise admiráveis. O que é estranho: primeiro porque duvido que o que escrevi mereça tal esforço; segundo, por não se tratar de um teólogo de profissão. Este segundo aspeto, contudo, é para mim especialmente gratificante, pois vejo aí realizado um dos objetivos que desejaria para o que escrevi: ser lido e levado suficientemente a sério por não teólogos. Isso dá também especial relevo à minha gratidão em relação ao Prof. João Loureiro, que tão generosamente aceitou fazer a magistral apresentação que hoje fez.

Mas sejamos honestos; trata-se de um caso raro. A teologia – nem a que é escrita por mim nem a que é escrita por quase todo os meus colegas – não é ainda significativamente acolhida no espaço público, como seria desejável e, acredito, benéfico para todos, pois a sua voz pode ser muito pertinente na busca e nas propostas para a construção de um mundo comum, muito para além das identificações religiosas.



Penso que tenho tido mais êxito na tentativa de fazer ressoar a voz dos saberes e das realizações culturais no interior do discurso teológico. E considero isso essencial para a própria compreensão da fé e para as dinâmicas da comunidade eclesial, evitando por esse caminho o seu encerramento numa bolha estranha ao mundo



No conjunto daquilo que tenho escrito, penso que tenho tido mais êxito na tentativa de fazer ressoar a voz dos saberes e das realizações culturais no interior do discurso teológico. E considero isso essencial para a própria compreensão da fé e para as dinâmicas da comunidade eclesial, evitando por esse caminho o seu encerramento numa bolha estranha ao mundo. E tenho-o feito essencialmente pela mediação de filosofias contemporâneas, simplesmente porque me sinto mais à vontade no mundo filosófico do que em outras áreas do saber. Mas acho possível – e até importantíssimo – fazê-lo também por mediação de outras áreas do saber, nomeadamente no campo das ciências sociais e humanas.

É claro que isso não significa qualquer afirmação de que as diversas elaborações do pensamento filosófico constituam o critério último e infalível do discurso teológico. Mas constituem desafios a ser levados a sério, que permitem repensar a teologia e a respetiva tradição. Ao mesmo tempo, no processo de interpretação de vários contributos de certos pensadores contemporâneos, parece-me perceber uma proximidade muito grande ao pensamento teológico e vice-versa, o que me permite uma posição muito fluída e até certo ponto híbrida, pouco preocupada em traçar fronteiras demasiado rígidas entre teologia e outros modos de aproximação à realidade. Academicamente, pode ser adequado estabelecer com clareza essas fronteiras; mas a realidade é mais complexa do que os limites que lhe colocamos. É nesse sentido que tenho defendido e penso que praticado uma teologia na fronteira, ou mesmo como fronteira.



Exige-se-nos o alargamento dos horizontes de debate, porque se agudizou a consciência do significado da relação dos humanos à realidade não humana em que vivemos. Isso traz ao debate velhas perspetivas, mas também perspetivas inéditas, que exigem uma reconsideração do nosso lugar no planeta, e também da nossa função relativamente à Terra



Gostaria de terminar esta minha intervenção – que é muito mais de gratidão pelo que me foi possível ter feito até hoje do que de auto-reflexão sobre o que fiz – precisamente com um pequeno esboço de um conjunto de desafios que se colocam atualmente aos humanos e que são, inevitavelmente, também desafios colocados à teologia.

Numa perspetiva algo geral, diria que o peso dos sistemas nas formas de vida contemporânea exige uma especial vigilância de todos nós, em especial da academia, articulada num pensamento crítico sobre as diversas dimensões da nossa realidade comum, nomeadamente a dimensão política, económica, religiosa e mesmo tecnológica. No cerne desse pensamento situa-se, de momento, a questão antropológica como uma das mais agudas. Estamos, de facto, perante circunstâncias algo inauditas relativamente à reconsideração ou desconstrução do estatuto dos humanos no conjunto da realidade. Exige-se, por isso, uma reflexão transdisciplinar, de ampla envergadura, sobre alguns pontos nevrálgicos da relação do humano ao mundo.



Entre as posições extremas trans-humanistas, que sonham com uma espécie de divinização do humano através da sua transformação e transfiguração tecnológica, e da demonização da tecnologia, existem infindas possibilidades de integração dos humanos e das máquinas



Em primeiro lugar, numa dimensão algo tradicional ainda, exige-se-nos um debate sério sobre a relação dos humanos uns com os outros. Qual a configuração das comunidades humanas num contexto de globalização, no pretenso horizonte de uma única comunidade? Será essa comunidade dominada pelas tradicionais forças colonizadoras, ou é possível pensar a comunidade humana de modo diverso, na pluralidade das suas configurações, na debilidade das suas articulações, numa interdependência assumida, na abertura às diferenças que nos constituem? E como dar corpo, nas relações concretas e locais, à universalidade da vocação humana à relação com o outro? O que possa significar a voz teológica no interior desse debate ficou suficientemente enunciado, por exemplo, na encíclica Fratelli Tutti. Mas a questão está longe de estar resolvida e mesmo desenvolvida.

Depois, exige-se-nos o alargamento dos horizontes de debate, porque se agudizou a consciência do significado da relação dos humanos à realidade não humana em que vivemos. Isso traz ao debate velhas perspetivas, mas também perspetivas inéditas, que exigem uma reconsideração do nosso lugar no planeta, e também da nossa função relativamente à Terra. Se as posições extremas pós-humanistas, que negam qualquer especificidade do humano, que conduzem à negação de uma responsabilidade específica, são claramente insuficientes, a colocação do problema não deixa de fazer sentido e exigir um debate aberto.



A ideia clara e distinta de um dentro e um fora da Igreja – ou do mundo – é altamente problemática, por ser demasiado dualista. Distinguir é benéfico e mesmo necessário; separar é, normalmente, prejudicial ou mesmo perigoso



Depois, temos a relação do humano à tecnologia, hoje configurada digitalmente e aprofundada como inteligência artificial. Mais uma vez, entre as posições extremas trans-humanistas, que sonham com uma espécie de divinização do humano através da sua transformação e transfiguração tecnológica, e da demonização da tecnologia, existem infindas possibilidades de integração dos humanos e das máquinas. É, sobretudo, ao nível do uso quotidiano dos recursos digitais – muitas vezes já inconsciente ou implícito, como no caso da internet das coisas – que podemos debater de forma mais equilibrada o impacto antropológico da tecnologia e as transformações que comporta, seja a nível psíquico seja a nível social. Mas já é impossível pensar os humanos reais do nosso tempo sem essa dimensão.

Pode parecer que as questões enunciadas pouco tenham a ver com o discurso teológico. Mas o problema de fundo está precisamente aí. O discurso teológico não é, em primeiro lugar, apenas para ambientes eclesiais e relativo a problemas tipicamente eclesiásticos – que muitas vezes se pervertem no seu umbiguismo estéril. Depois, e talvez por efeito do discurso teológico, as próprias comunidades eclesiais, e toda a estrutura da Igreja, têm de estar permanentemente envolvidas e interessadas nas questões significativas da humanidade, sobretudo naquelas que tocam a convicção fundamental do que seja humano e do que seja o seu sentido sobre a Terra. A teologia deveria, por isso, falar para fora, a partir de dentro, e falar para dentro a partir de fora. E isso não como alternativa, mas no fluído movimento permanente de vaivém, como quem muito natural e descontraidamente passa fronteiras. Porque até a ideia clara e distinta de um dentro e um fora da Igreja – ou do mundo – é altamente problemática, por ser demasiado dualista. Distinguir é benéfico e mesmo necessário; separar é, normalmente, prejudicial ou mesmo perigoso. Já o dogma cristológico de Calcedónia no-lo recordava: evitar a confusão entre o humano e o divino nunca poderá significar separá-los, como mundos à parte. À teologia basta ser fiel a este princípio.



Há percursos muito interessantes na relação da teologia com o mundo da cultura, nomeadamente o mundo das artes, no sentido mais abrangente. Temos aí parceiros desafiantes, que procuram interpretar o mundo comum em formas muitas vezes próximas ao discurso teológico



Um dos modos da incarnação do pensamento teológico é a sua contextualização cultural. Sempre se praticou, desde as primeiras tentativas patrísticas. Nesse sentido, a teologia que praticamos aqui é uma teologia contextualizada na Europa. É claro que a Europa, nomeadamente a Europa atlântica, não pode ser pensada sem a sua relação ao resto do mundo. Hoje mais que nunca. Mas será sempre uma relação a partir desta perspetiva. Isso coloca dois desafios: pensar-nos em relação aos outros diferentes de nós; e pensar-nos nos dinamismos internos à Europa. Quanto ao primeiro aspeto, estamos perante os desafios do denominado pensamento decolonial, no qual estamos inevitavelmente envolvidos. Há, neste campo, a possibilidade de desenvolvimento de uma fértil relação com a América Latina, África e Ásia, em cujos contextos o impacto do pensamento decolonial sobre a teologia é já notório.

Quanto ao segundo aspeto, penso que há pelo menos dois caminhos promissores: por um lado, a relação da teologia com a política de acolhimento do outro diferente de nós, nomeadamente na questão das migrações e dos refugiados. Uma teologia completamente alheia a esta questão não é uma teologia atenta à realidade. Por outro lado, tendo em conta a rica tradição europeia, há percursos muito interessantes na relação da teologia com o mundo da cultura, nomeadamente o mundo das artes, no sentido mais abrangente. Temos aí parceiros desafiantes, que procuram interpretar o mundo comum em formas muitas vezes próximas ao discurso teológico.

Em todos estes aspetos, a teologia não está só, pois a academia conhece já interessantes percursos, por parte de outros saberes, no sentido muito próximo ao que referi. Como tal, se quisermos que a Igreja não se feche no seu gueto e se desejamos que a teologia europeia preste um serviço à relação da Europa consigo e com os outros, na busca de um mundo comum, a teologia terá de entrar num trabalho transdisciplinar muito enriquecedor. E não há melhor contexto para esse trabalho do que a Universidade, seja Católica ou não. No nosso caso, é sobretudo a partir Universidade Católica que esse trabalho pode ser desenvolvido. Sem esquecer que a Universidade Católica se insere num universo universitário mais vasto, e num horizonte social e humano – até planetário – ao serviço do qual estamos todos.


 

João Manuel Duque
Ato de Entrega do Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes, Espaço Vita, Braga, 15.9.2022
Imagem de topo: João Manuel Duque recebe o Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes das mãos de D. João Lavrador, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
Publicado em 15.09.2022 | Atualizado em 16.09.2022

 

 

 
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