Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

João Bigotte Chorão (1933-2019): Atrever-se a dizer o que choca e opor-se à terraplanagem do espírito

«A questão não é serem poucos os leitores a acompanhar ou a adquirir os seus livros, mas sim ele escolher ficar, numa manifesta posição moral, como apátrida em terra própria, seguindo os passos dos que ele chama os “autores paradoxais”: aqueles que se opõem à terraplanagem do espírito que o pragmatismo em cada geração leva a cabo e se atrevem a dizer o que choca (e por consequência, o que afasta) os leitores bem-pensantes. Porém, se olharmos bem, é tão bela, mas tão bela a sua solidão!»

Foi com estas palavras que o agora arcebispo José Tolentino Mendonça evocou o escritor, crítico literário e ensaísta João Bigotte Chorão, falecido no sábado, 23 de fevereiro, aos 85 anos. O texto, publicado a 24 de março deste ano no “Expresso”, centrava-se no “Diário – 2000-2015”, recordações do autor guardense editadas pela Imprensa Nacional Casa da Moeda.

«João Bigotte Chorão é um antimoderno. E é-o por convicção, por instinto e por estilo. Parte da estranheza, mas também do fascínio da sua obra deriva dessa posição de fundo e do custo em solidão que, desde sempre, a acompanhou», acentuou Tolentino Mendonça, que no livro destacou «a sua natureza interior e reflexiva, o contrastado “dialogue avec soi” que mantém, a coragem de desenhar sem rodeios um itinerário intelectual e espiritual».

No seu “Diário”, Bigotte Chorão «discorre sobre a tristeza, a infelicidade ou a culpa», transparecendo um «cristianismo agónico» que se «reconhece nas palavras de Catarina de Sena, mais do que naquelas que soam gratas aos ouvidos» do «amnésico» tempo de hoje «(e Santa Catarina dizia: “Não encontrarás repouso verdadeiro a não ser no Sangue”)».



«A Igreja tem dado passos decisivos ao repensar a cultura, não como um espaço fechado, mas aberto ao diálogo intercultural que não quer impor unilateral e dogmaticamente apenas a sua visão, sem abdicar de, ela própria, se centrar no essencial»



Para o presidente da República, a personalidade e obra do autor são «assinaladas pela notável inteligência, a vasta cultura, o rigor analítico e o constante empenho no conhecimento e na valorização da literatura portuguesa», através de uma «incansável curiosidade e poderosa capacidade reflexiva».

«Eloquente tradução de um percurso devotado ao que sempre encarou como inseparável de uma Ideia de Portugal foi a riquíssima ensaística e a criativa crítica literária, que se debruçaram sobre autores dos séculos XIX e XX, com destaque para Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo ou João de Araújo Correia», refere Marcelo Revelo de Sousa.

Bigotte Chorão deixa na «memória dos seus leitores e pares o que de melhor definiu a sua vida como missão - o subtil diálogo entre a escrita, o escritor e o seu decifrador no tempo e para além dele. Sempre a pensar em Portugal», conclui a nota da Presidência.



«Ele mantinha a tranquilidade de alguém que está bem com Deus e com o mundo porque está bem consigo mesmo; alguém com convicções fortes e fundas que não precisava de dar gritos para ser ouvido»



Jaime Nogueira Pinto lembra «o João católico em religião, nacionalista em política e conservador em costumes; e em tudo isto com um sentido de medida, de equilíbrio, de razão prática, que lhe vinham de aliar uma cultura humanista e universal às raízes do Portugal profundo, da sua Guarda natal».

«Lembro o João como um homem bom, de grande serenidade e sentido de humor, coisa rara nos nossos círculos ideológicos, cujos frequentadores, juntando a forma ao conteúdo, primavam mais pela exaltação. Ele mantinha a tranquilidade de alguém que está bem com Deus e com o mundo porque está bem consigo mesmo; alguém com convicções fortes e fundas que não precisava de dar gritos para ser ouvido», recorda, em artigo publicado esta terça-feira no Observador.

Enquanto diretor do Departamento de Enciclopédias da Editorial Verbo, coordenou a “Enciclopédia do Século XXI”, a “Enciclopédia da Sociedade e do Estado”, a “Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia Logos” e a “Enciclopédia das Literaturas de Língua Portuguesa Biblos”. Foi membro efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia.

«A Igreja tem dado passos decisivos ao repensar a cultura, não como um espaço fechado, mas aberto ao diálogo intercultural que não quer impor unilateral e dogmaticamente apenas a sua visão, sem abdicar de, ela própria, se centrar no essencial», escreveu João Bigotte Chorão no texto “Uma obra pode não ser religiosa à primeira vista mas, ‘pela sua carga espiritual, tornar-se naturalmente cristã’”, publicado no Observatório da Cultura de novembro de 2011 (cf. artigos relacionados).


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Expresso, Presidência da República, Observador
Imagem: D.R.
Publicado em 27.02.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos