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Jean Delumeau (1923-2019): O medo e o Paraíso que da história chegam aos nossos dias

Como se pode, enquanto historiador, escrever sobre o Paraíso e o Inferno, ou seja, sobre algo que para os crentes está para lá do tempo e do espaço físico, portanto, por definição, para além daquilo que é, precisamente, objeto da história? Jacques Le Goff, que escreveu a história do Purgatório, não acreditava nele, limitando-se a historiar como nasceu a crença, sendo que para ele era como escrever um livro de mitologia.

Também Delumeau escreveu sobre o Paraíso ("Uma história do Paraíso", Terramar) e o Inferno. A diferença é que ele era católico, e acreditava em ambos. «Agora conhece...», como dizia Dante. Desde há alguns dias - segundo a maneira com os contabilizamos - sabe-o. A nós resta a admiração pelas suas obras e a dor pelo seu desaparecimento, aos 96 aos, ocorrido há uma semana, a 13 de janeiro, em Nantes, onde tinha nascido, em 1923.

«Terrível é a força das coisas que não existem», dizia no fim do século XIX Arturo Graf, e dizia-o a propósito do diabo, em quem não acreditava. Jean Delumeau ter-lhe-ia respondido que a forçadas coisas que são, ainda que normalmente não se vejam e não se possam ver, é ainda mais forte.

Delumeau foi professor de história moderna na universidade de Rennes (1957-70), depois em Paris-Sorbonne (1970-75), por fim no Colégio de França (1975-94), onde ensinou história das mentalidades religiosas no Ocidente moderno. Membro da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres (desde 1988), dedicou-se à história no Renascimento ("A civilização do Renascimento", Estampa, Edições 70,) da Reforma luterana, e às perspetivas do cristianismo na contemporaneidade.



Católico praticante, mas crítico, desejava medidas de impacto adequadas aos nossos tempos para salvar a Igreja, a partir de uma revisão profunda do papel das mulheres.



O seu nome está também ligado aos estudos sobre o medo que caracterizaram o seu trabalho a partir do fim dos anos 70, durante uma década. Entre 1992 e 2000 publicou três grandes volumes sobre a história do Paraíso e, para um público mais amplo, uma síntese desta história, que liga às preocupações mais contemporâneas, em que o Paraíso permanece, apesar das dificuldades atravessadas pelo cristianismo, um horizonte impraticável e desejável.

Católico praticante, mas crítico, desejava medidas de impacto adequadas aos nossos tempos para salvar a Igreja, a partir de uma revisão profunda do papel das mulheres. O seu desaparecimento é ainda mais sentido e pesado num momento em que a Igreja católica é atravessada por uma fratura profunda entre o desejo de mudança, personalizado, aos olhos de muitos pelo papa Francisco, e tendências pseudotradicionalistas, que na realidade querem fazer do catolicismo um instrumento político ao serviço do "governo profundo" do mundo e de quem o comanda para seu ganho. Uma ideia impensável para uma fé que nasce plural e universalista.

Admitamo-lo; melhor, declaremo-lo. Delumeau deixou-nos num momento em que todos temos medo. As suas obras-primas escritas entre 1978 e 1989 sobre o medo e a necessidade de segurança captaram a marca do presente, muito mais do que ele poderia ter imaginado.

Aliás, essas obras de Delumeau sobre o tema do medo poderiam servir de orientação no momento que atravessamos. A investigação do historiador francês partia não do "medo" como se fosse algo dado e objetivo, mas do papel do medo na história, de modo particular no Ocidente pré-industrial, procurando compreender as dinâmicas sociais nas quais ele se produz e as suas consequências. Para o fazer, baseava-se, segundo a melhor tradição da historiografia francesa a partir daquela dos "Anais", nas ciências sociais: psiquiatria, psicologia, sociologia, antropologia.



O turco, os judeus, os hereges, as mulheres, em particular as bruxas, são a projeção dos medos, que agem quer a nível popular, quer na hierarquia do poder



 Existe um medo instintivo e natural: «O medo é, todavia, ambíguo. Inerente à nossa natureza, ela constitui um bastão essencial, uma garantia contra os perigos,um reflexo indispensável que permite ao organismo escapar provisoriamente à morte. (...) Mas se ela ultrapassa uma dose suportável, torna-se patológica e cria bloqueios».

A base de partida que a psiquiatria ou a antropologia podem dar não chegam, todavia, para o historiador, que colhe também mecanismos políticos e sociais que enquadram o crescimento do sentimento de medo que se torna angústia; o seu estudo mais célebre tem como subtítulo "a cidade assediada", que para Delumeau é a Igreja entre os séculos XIV e XVIII, ou seja, entre a peste negra e o período a seguir à Reforma protestante. O turco, os judeus, os hereges, as mulheres, em particular as bruxas, são a projeção destes medos, que agem quer a nível popular, quer na hierarquia do poder.

Uma lição, em síntese, para além das possíveis revisões da sua obra e das suas posições, sempre lícitas em contexto historiográfico, que muito pode dizer também da nossa contemporaneidade. Assim como é uma lição a maneira como Jean Delumeau nos deixou; segundo o diário "La Croix", o próprio historiador preparou um texto para ser lido no seu funeral: «A minha vida teve as suas dores e as suas alegrias, os seus fracassos e os seus sucessos, as suas sombras e as suas luzes, os seus defeitos, os erros e as inadequações, mas também os seus impulsos e as suas esperanças. Terminei a minha corrida. Possa eu adormecer-me na tua paz e no teu perdão! Sê o meu refúgio e a minha luz. Rendo-me a ti. Entrarei na terra. Mas que o meu ultimo pensamento seja o da confiança».


 

Franco Cardini
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Jean Delumeau | D.R.
Publicado em 19.01.2020

 

 
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