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James MacMillan: O equilíbrio entre compor boa música e torná-la acessível aos fiéis

O escocês James MacMillan é um dos compositores mais executados do mundo: as classificações anuais da página Bachtrack veem-no regularmente entre as primeiras posições entre os compositores contemporâneos cuja música é mais interpretada nas salas de concerto de todo o mundo.

Em novembro, encontrámo-lo em Bruxelas, onde, na monumental e misteriosa basílica de Koekeberg dirigiu o Coro da Rádio da Flandres, com um programa em que se incluíam duas composições da sua autoria, o “Miserere” para coro “a cappella”, e “Seven angels”, para a qual se juntaram solistas da Orquestra Sinfónica de Bruzelas, num “ensemble” de instrumentos que MacMillan curiosamente definiu como «bíblico», a par do lendário “Miserere” de Allegri.

«As páginas da Bíblia estão repletas de música, especialmente no Antigo Testamento. Ao lado de alguns instrumentos mais genéricos, como os tambores, que indicam todas as percussões, e os instrumentos de cordas, há outros que chegaram até nós, como a harpa ou o corno. Assim, acrescentando um instrumento tomado da tradição hebraica, o shofar, criei um “ensemble” que fizesse de oposição ao coro, que também usei de modo muito insólito para descrever as terríveis atmosferas do texto do Apocalipse, que tomei como inspiração. Na realidade, coro e “ensemble” não se fundem sempre conjuntamente: muitas vezes quase colidem ou perseguem. Em algumas passagens, é o coro que tem de seguir os sons do shofar.»



«As minhas primeiras memórias musicais, sobretudo de música de “ensemble”, estiveram estreitamente ligadas às celebrações religiosas: cantar no coro, tocar o órgão na missa, fazer parte dos pequenos conjuntos para as celebrações, são tudo experiências que deixam traços profundos no espírito de um músico»



Entre as suas composições sacras avulta um “Stabat Mater”, composto em 2016 para coro e orquestra de arcos, que foi recentemente nomeado entre as 25 peças de música clássica mais influentes do início do milénio. «A composição de música sacra nunca se interrompeu; a procura do sagrado na música prosseguiu inclusive na época mais secularizada da história. Julgo que vale a pena notar como quer os compositores religiosos quer os não religiosos têm interesse em colocar em música textos antigos de há séculos, para não dizer milénios, porque os consideram ainda atuais. Claramente que nem todos escrevem para a liturgia, ainda que eu considere como um tesouro essa experiência.»

Com efeito, MacMillan tem uma longa carreira de autor de “congregational music”, ou seja, música para as celebrações, além de músico fixo para as celebrações da sua comunidade. «Os compositores confrontaram-se desde sempre com a necessidade de escrever música para amadores. Aliás, durante muito tempo não houve uma verdadeira distinção entre profissionais e não; e quando esta se delineou, especialmente no início do século XX, alguns compositores dedicaram a estes amadores páginas maravilhosas. Escrever música pensada para este tipo de intérpretes é muito formativo, e no mundo religioso isto assume um valor ainda mais importante: a partir do concílio Vaticano II, a Igreja empenhou-se cada vez mais na busca da música no vernáculo, para envolver as pessoas comuns, e não só os cantores profissionais nos momentos musicais das celebrações; infelizmente, nem toda a música que nasceu deste impulso genuíno foi de boa qualidade, mas também este facto deve motivar-nos a procurar um justo equilíbrio entre escrever boa música e torná-la acessível a todos os fiéis».

A sua experiência, igualmente prática, como músico para a comunidade foi-lhe, seguramente, útil. «As minhas primeiras memórias musicais, sobretudo de música de “ensemble”, estiveram estreitamente ligadas às celebrações religiosas: cantar no coro, tocar o órgão na missa, fazer parte dos pequenos conjuntos para as celebrações, são tudo experiências que deixam traços profundos no espírito de um músico. Quando, anos depois, me encontrei a trabalhar para a minha comunidade, esta experiência passada juntou-se aos ensinamentos mais académicos que adquiri ao longo do tempo. Espero ter deixado alguma coisa de útil, porque a mim ensinou-me muito.»


 

Filippo Simonelli
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 06.01.2020

 

 
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