IMpressão digital
Leitura e meditação

Relatos de um Peregrino Russo: a contemplação do amor

Os “Relatos de Um Peregrino Russo ao seu Pai Espiritual” são bem conhecidos da sociedade russa há muito tempo. Foram escritos na segunda metade do séc. XIX e divulgados tanto em forma de livro impresso, como em forma de manuscrito. Consta que São Paísio, abade do Mosteiro de São Miguel Arcanjo, da diocese de Kazan, terá copiado os manuscritos de um monge russo de Atos e tê-los-á publicado. Em 1884, em Moscovo, já saía a quarta edição. Desconhece-se o nome do autor destes “Relatos”, e, portanto, levantaram-se várias hipóteses. Uma delas diz que o autor seria o hieromártir Tikhon (1865-1925), superior de um dos mosteiros da diocese de Nijegorod, ou de Vladimir, que escreveu alguns lçivros de carácter espiritual. Outra hipótese aponta para o grande eremita de Optina, o monge Ambrósio (1812-1891), ou ainda o bem-aventurado Teófano, eremita de Atos. Mas não existem dados irrefutáveis a favor de qualquer um deles. O mais provável é ser um autor desconhecido, possuidor de elevados dons e gosto literários.

Para além dos primeiros quatro “Relatos de Um Peregrino…”, foi publicado na Rússia, em 1911, em duas edições, um suplemento a estes relatos, encontrado nos papéis de um conhecido monge de Optina, o asceta Ambrósio. Estes novos relatos – o quinto, sexto e sétimo – foram também publicados, em 1933, no estrangeiro, numa brochura em separado, pela tipografia da Igreja Russa, em Vladimir, na Eslovénia. Na presente edição, o autor apresenta os sete relatos, complementados, como antes, por três “chaves para a oração anterior”, feitas por conhecidos padres ascetas.

O sucesso deste livrinho explica-se, em grande parte, pelos valores que transmite e que estão no âmago do seu conteúdo. É desnecessário dizer que o seu estilo literário, espiritual-iluminador, não se submete às exigências quer literárias quer de cultura e esse facto poderá ter contribuído para o manter arredado do interesse de alguns amantes da literatura religiosa. Os livros de conteúdo moral e espiritual quase sempre foram escritos numa linguagem singular, pouco agradável ao ouvido literário, cheios de locuções eslavo-russas, numa língua convencional, com sabor mistérico.

Podemos afirmar, com verdade, que apesar de toda a riqueza dos tratados e das monografias religiosas de grande valor científico, a sociedade russa, ávida da iluminação religiosa, ficou completamente desprovida de livros escritos numa língua vernácula. Até as traduções académicas das obras dos Santos Padres, quase sempre feitas por professores das escolas superiores religiosas, sofriam frequentemente desta artificialidade, na elaboração do estilo das folhas ou das brochuras espirituais destinadas ao povo. Esta área da literatura religiosa não foi aberta à língua de Pushkin. Os “Relatos de um peregrino Russo” são uma feliz excepção!

O seu autor foi capaz de elevar-se ao nível do estilo exigido pela escrita moralístico-espiritual. O livro foi escrito numa linguagem viva, popular e correcta. Claro que não é alheio a uma certa afectação; é uma língua antiga em relação à actual, não está livre de eslavismos religiosos; o ritmo e o estilo não são os mesmos do princípio ao fim. Mas estes pormenores não diminuem a agradável impressão desta narrativa. Nada foi inventado. Não se trata de uma ficção. o autor ouviu, sem dúvida, estas conversas, como se diz, de fonte viva. Ele assimilou este relato e usou-o com arte e engenho. Levanta-se a questão de não sabermos se os últimos três relatos pertencem ao mesmo autor dos primeiros quatro. Parece estranho que, só em 1911, depois de o livro já ter sido publicado quatro vezes, tenham aparecido, de repente, e sido divulgados por toda a Rússia os últimos relatos.

Mas, mais importante que este lado exterior, é o conteúdo do livro. Trata da viagem de um peregrino, por estradas intermináveis e caminhos vicinais da Santa Rússia; viagem de um representante da “deambulação em Cristo”, por uma Rússia, que todos nós bem conhecíamos, há muito, muito tempo… Uma Rússia que já não existe e que nunca mais existirá. É a história dos que, como o bem-aventurado Sérgio, foram a Sarov, a Valaam, a Optina, aos mosteiros de Kiev, passaram por Tikhon e Mitrofan, estiveram em Irkutsk com o bem-aventurado Inocêncio, chegaram a Atos e à Terra Santa. Eles “não têm limites, procuram o além”. É a história dos que foram atraídos para terras longínquas, sem se preocuparem em ter residência permanente. Ao deixarem o seu próprio lar, foram encontrá-lo em habitações alheias. Preferiram as conversas dos monges e dos ascetas ao conforto familiar. Contrapuseram o ritmo do ofício divino nos mosteiros, com as suas tradições e recordações religiosas, ao modo de vida arreigado desde há séculos. Parece-nos que eles estão muito perto do Pobre de Assis, ou dos primeiros cristãos, sobre os quais um autor antigo escreve: “Os cristãos povoam as suas terras como forasteiros; participam em tudo como cidadãos, suportam tudo como estrangeiros. Qualquer terra estrangeira é a sua pátria e qualquer pátria é terra estrangeira… Eles não vivem carnalmente, sendo de carne; erram pela terra, mas têm residência no céu” (Carta a Diogneto).

Assim, “ele é cristão pela graça de Deus, grande pecador pelos actos que comete, peregrino sem lar, pela sua estirpe”. Passa as noites, ora em casa de um camponês ora em casa de um comerciante, ou num mosteiro, nos confins da Sibéria, em casa de um latifundiário ou de um sacerdote, e faz um relato verdadeiro da sua caminhada. O ritmo da sua melodia cativa o ouvinte, submete-o, obriga-o a ouvir e a aprender. Este pobre, que nada tem, além de pão seco, da Bíblia debaixo do braço e da “Filocalia” na sacola, enriquece-nos com este grande tesouro, que é a oração. São incomensuravelmente ricos os que adquirem este dom e esta espontaneidade. É a esta riqueza espiritual, herdada dos ascetas do Egipro, do Sinai e de Atos, e cujas raízes pertencem aos antigos tempos da cristandade, que os Santos Padres chamam “trabalho a mente” ou “abstinência espiritual”.

É esta riqueza que toca os místicos de todas as religiões, este recolhimento interior, que põe a descoberto “os segredos do coração” e que mostra ao asceta “o comportamento «logos» do ser”, isto é, sentido pacífico e o projecto artístico do plano divino da Criação do Universo.

Os antigos místicos cristãos apaixonaram-se pelas palavras apostólicas “rezar sem cessar”, com as quais praticamente começa esta peregrinação espiritual, personificaram-nas nas suas acções interiores e elaboraram uma ciência espiritual particular sobre a permanente abstinência da mente. O filósofo e teólogo Clemente da Alexandria, um dos primeiros místicos cristãos, já conhecia os princípios básicos desta acção. O seu verdadeiro “gnosticismo” condu-lo à oração interior, que não precisa de tempo especial, nem de lugar, nem de livros, nem de símbolos. Não precisa de palavras, nem de sons. A oração silenciosa da sua boca, o murmúrio dos seus lábios, é o grito do seu coração. Ele reza todo o dia e durante toda a vida. Não precisa de templos, e o ofício divino do coração não se submete ao ritual da igreja. A finalidade da sua oração não é a formulação dos pedidos, mas a pura contemplação de Deus. Os Santos Macário do Egipto, Antão (o Grande), João Crisóstomo, Máximo (o Confessor), Isaac (o Sírio), Simeão (o Novo Teólogo), Dionísio (Areopagita) e Gregório de Palamas, conhecem e ensinam esta oração. A Igreja guarda-a, com cuidado e zelo, nos escritos destes ascetas, cultivadores deste exercício orante. Ela representa o cume de toda a arte de rezar.

São Simeão dá-nos a sua expressão mais completa e brilhante em três formas de orar, que nos mostram o valor e o conteúdo desta oração “disforme”. Trata-se de uma oração que consiste na repetição permanente do nome de Deus, desprovida de beleza e sem contemplação de símbolos litúrgicos, sem criar energias divinas, pois tudo isso é dado por Deus ao coração puro do asceta.

Esta experiência foi transmitida de Palamas a Sinaíta e conservou-se nos mosteiros de Atos. Por intermédio de Paísio, o Grande, chegou aos nossos monges dos mosteiros de Optina e Valaam.

Por mais de uma vez tentaram utilizar esta mobilidade cristã, sob a capa de obscurantismo, ou fuga ao mundo e ao homem. Mas tendo atrás de si uma “nuvem de testemunhas” e o suporte de toda uma experiência religiosa do asceta, criador da oração da mente, é representante ao mesmo tempo de uma cultura espiritual verdadeira. Assim, o gnóstico Clemente não só não hesitou perante as aparentes contradições do verdadeiro comportamento e de fé, como se esforçou com toda a sua alma e inteligência por alcançar o conhecimento das coisas e do mundo. A oração é o caminho para o contacto com Deus e para um comportamento santo. A oração tem o seu profundo significado gnoseológico e mostra nas contemplações místicas aquilo a que os Santos Padres chamam o “conhecimento «logos» das coisas”, isto é, o seu sentido pacífico. O peregrino – narrador destes relatos – descobriu a concepção do mundo e o seu sentido, ignorado pelos filósofos do conhecimento positivo. Através da “rudeza da matéria” ele vê o «logos» sagrado desses seres, a verdadeira realidade, as coisas deste mundo reflectidas em símbolos. Isso enche-o de amor pelo mundo, pela natureza, pelos animais e pessoas, que nos impossibilitam não só de falar do mundo como abominável, mas pelo contrário, lê-se na sua narrativa, sem artifícios, o verdadeiro hino do amor em relação a este mundo e ao homem. Ele próprio adquiriu esse conhecimento e transmitiu-o, como fez São Máximo, o Confessor, a outros padres e escritores da Igreja, exactamente porque todo o mundo se apresenta como um todo orgânico, unido pelo amor. Absorto em si próprio, numa constante repetição do sagrado nome de Jesus, na contemplação silenciosa do «Logos» de Deus, ele atingiu a luz interior e com ela a contemplação da transformação do mundo e do homem, na luz da Graça Divina.

 

Artigos relacionados:

Leitura: Orai sem cessar

A cadência orante do coração

Introdução aos "Relatos de um Peregrino Russo", por Cristina Campo

Professor Cipriano, Arquimandrita do Mosteiro de S. Sérgio, Março de 1948

in Relatos de um Peregrino Russo ao seu Pai Espiritual, Paulinas

Publicado em 13.02.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Capa do livro






















É a história dos que foram atraídos para terras longínquas, sem se preocuparem em ter residência permanente. Ao deixarem o seu próprio lar, foram encontrá-lo em habitações alheias










 























Preferiram as conversas
dos monges e dos
ascetas ao conforto
familiar. Contrapuseram o ritmo do ofício divino nos mosteiros, com as suas tradições e recordações religiosas, ao modo
de vida arreigado
desde há séculos





















 

Este pobre, que nada
tem, além de pão seco,
da Bíblia debaixo do
braço e da “Filocalia” na sacola, enriquece-nos
com este grande
tesouro, que é a oração











 














 

 







A finalidade da sua oração não é a formulação dos pedidos, mas a pura contemplação de Deus

















 

 

















Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada