
Excertos da imprensa internacional sobre o filme
O GRANDE SILÊNCIO decorre durante 162 minutos – 162 absorventes, emocionantes, alegres minutos. O realizador, Philip Gröning, faz-nos mergulhar num mundo tão misterioso e frequentemente tão silencioso como o lado obscuro da lua, um convento de monges cartuxos nos Alpes franceses. Fundado no século XII, os cartuxos estão entre as ordens católicas mais rigorosas, já que os monges (e as freiras acomodadas separadamente) vivem praticamente sozinhos nas suas celas individuais. Num mundo esmagadoramente barulhento, os cartuxos procuram Deus na solidão; ponderando um todo, incluindo a invejável tranquilidade e concentração das suas vidas, cedo compreenderão porquê. Porque a solidão é a vocação essencial dos cartuxos, O GRANDE SILÊNCIO tem poucas palavras. Enquadrado pelas estações do ano, o filme abre numa placidez invernosa com a introdução dos dois iniciados. Nos dias e estações que se seguem, o realizador leva-nos por dentro e à volta do convento e das celas, seguindo os iniciados e os monges enquanto eles comem, rezam, trabalham, e por vezes brincam. Através de ritmos vagarosos e uma realização harmoniosa, o realizador encontra beldade num grão de poeira, num pedaço de terra recém lavrado e nas longas sobrancelhas que pendem como uma cortina sobre os olhos de um monge idoso cego. A Graça, ao que parece, é silenciosa.
The New York Times
O GRANDE SILÊNCIO é um retrato íntimo da vida de todos os dias dos monges cartuxos no alto de um canto remoto dos Alpes franceses.
No mosteiro, apenas as velas rompem a escuridão.
Estamos a meio da noite e no frio gelado do seu claustro de pedra, os monges estão sentados com as suas vestes grossas a recitar versos gregorianos. “Penso que eles fazem isto porque escolhem... tornar-se próximos de Deus”, diz o realizador Philip Gröning.
“É um conceito muito simples, o conceito é Deus em si, é felicidade pura, quanto mais próximo te moveres disso, mais contente estás.”
O realizador fez o primeiro pedido para filmar no remoto mosteiro da Grande Chartreuse há 17 anos. Quando finalmente conseguiu entrar, encontrou um mundo regulamentado, imutável desde a fundação da Ordem Cartuxa decorridos dez séculos.
Os monges devotaram-se ao silêncio quase total, interrompidos apenas por o que um deles apelida de “o terror do sino”. O filme persegue as rotinas infinitamente repetidas do mosteiro. Numa cena, um monge mergulhado na sombra entrega almoços pelas frestas das portas das celas. A câmara entra em seguida no sitio onde os monges dormem em camas de palha, unicamente provido de um forno de lata por aquecedor. Lá fora, o cenário varrido de neve dos Alpes franceses providencia um toque de fundo majestoso. Gröning viveu aqui vários meses para fazer o filme.
Os Cartuxos são a ordem cristã mais estrita e este filme de três horas, quase totalmente silencioso sobre eles, não se esperava que fosse um êxito. Mas está a ser projectado para salas esgotadas com pessoas fascinadas unicamente com um vislumbre da vida contemplativa, desconhecida para lá das paredes do mosteiro.
BBC News
A mais estrita ordem monástica abriu os seus claustros a um realizador pela primeira vez, permitindo-lhe filmar um documentário de três horas praticamente mudo acerca da sua vida.
O que alguns críticos receavam que fosse o filme mais chato do ano acaba por ser uma estranhamente fascinante meditação no mosteiro da Grande Chartreuse nos Alpes franceses.
O GRANDE SILÊNCIO descreve os monges cartuxos no meio dos movimentos das suas devoções e deveres diários, desde reparar sapatos a cortar legumes.
Há até raros momentos de diversão: dois monges a deslizar por uma encosta nevada nos seus hábitos brancos, rindo histericamente, e um monge mais velho apanhado a sussurrar afectuosamente no ouvido dos gatos.
Os monges quebraram uma das suas regras recentemente para ver a montagem final do filme. Segundo o abade, fartaram-se de rir deles próprios. Apenas um aprendiz se queixou. Não tinha “acção que chegue”, pensou ele, ou assim escreveu o abade mais tarde ao realizador alemão.
Philip Gröning passou 15 anos suavemente tentando persuadir os monges a deixarem-no filmar as suas rotinas e rituais. Foi-lhe finalmente dito “estamos prontos” em 2001.
Porém ele recebeu a luz verde somente na condição de não usar luz artificial, de não adicionar música e de ir para a Chartreuse, ao pé de Grenoble, sozinho.
O aspecto mais notável do resultado final é o seu silêncio. Não há palavras nos primeiros vinte minutos, e depois apenas ocasionalmente.
O som que existe vem do aclaramento da voz entre orações, da torre dos sinos de madeira, das gotas do gelo a derreter, do costureiro a cortar tecido para um novo hábito, ou dos passos dos monges quando se dirigem para a capela.
Um monge mais velho, contudo, quebra o silêncio para agradecer a Deus por torná-lo cego. “Tenho a certeza que Deus o fez para o bem da minha alma”, disse ele.
Empire
O GRANDE SILÊNCIO foi feito usando uma câmara digital e a qualidade de imagem vai da definição a imagens extremamente granuladas já que nenhuma iluminação artificial estava autorizada dentro do convento. Gröning explora estas restrições para filmar os grandes planos à maneira das pinturas pontilhistas de Seurat.
Os planos de detalhes minuciosos são contrastados com planos largos do mosteiro debaixo de uma larga extensão de céu frequentemente povoada de nuvens, onde o sol, a lua e as estrelas alternam com a regularidade de um relógio suíço.
Europeanfilms.net
Um magistral objecto de contemplação Quando a câmara de Gröning se adapta aos ritmos senqueciais da Grande Chartreuse vem também um sentido acrescido de libertação. Caras e acções repetem-se e são recorrentes, as estações encadeiam-se calmamente, uma atrás da outra. Os monges ainda mantêm as suas distinções únicas do eu, mas estão agora unidas (como nós estivemos) num propósito comum e uma busca singular. Busca de quê exactamente? Chamem-lhe Deus. Chamem-lhe cinema. Cada indivíduo tem um objecto de adoração e o filme de Gröning oferece paralelos inesquecíveis e espantosos entre a luta artística e a religiosa.
Slant Magazine
O espectador é convidado a partilhar a experiência. Uma longa imersão nesse mundo de mutismo e despojo, uma meditação cinematográfica sobre a incansável repetição dos gestos, a austeridade do enquadramento e o ritmo das estações.
Na nossa sociedade saturada de barulhos e de iscos, é uma retirada que se aceita. Uns verão aí um martírio, outros um renovamento, uma ode em câmara lenta, à calma, a uma outra cadência respiratória. E um esplêndido documento sobre o ascetismo.
Pela imagem, O GRANDE SILÊNCIO responde a mil perguntas que nos fazemos. A reciclagem dos objectos, a liberdade dada a cada indivíduo, um tendo feito o vazio à sua volta e o outro vivendo rodeado de livros e cadernos.
Os rituais (sete orações na cela por dia, mais as tarefas, cozinha, distribuição de alimento, cortar a madeira...), o corte do cabelo regular, os cacifos onde se deixam recados escritos, os recreios infantis(...)
E depois, há os rostos. Impenetráveis, ainda que... A determinação do aprendiz entronizado, os sorrisos trocados, aqui esta nobreza da alma que aflora, e ali esta humildade, esta alegria interior, muda, discreta na transparência , quase imperceptível tanto os traços não têm nada para exprimir, tanto a essência do homem se refugiou noutro sítio.
Como se sai de uma tal experiência? Gröning diz ter descoberto que, lá, “qualquer noção de pecado, de culpabilidade e redenção está ausente. Não há nada além de graça, gratidão, ligeireza. Saímos de lá libertos do medo, habitados pela confiança. Já nem sequer temos medo de morrer”.
Le Monde
Sentimos e partilhamos um pouco dessa vida austera - pouco sono e diálogos, o frio dominante. Um universo envolvente, silencioso mas sonoro, ritmado pelos sinos que dobram, as orações na cela ou na capela, os cantos, as refeições. E as estações passam. É também uma comunhão esplêndida com a natureza, o céu e os campos, as montanhas ao redor. Esta abertura para o exterior desvenda até outros aspectos, inesperados - vemos num determinado momento monges a divertirem-se como miúdos a deslizarem na neve. O fervor não exclui a alegria. Assim como a espiritualidade concorda aqui com a matéria. A pedra, a madeira, o hábito, até a pele são sensíveis. Está tudo reunido para um momento de plenitude.
Télérama
Atenção: é um fenómeno. A profundidade, o claro-escuro, a luz. Apenas o que é preciso para fazer cinema.
Elle
Um dos monges negou-se redondamente a que um realizador de câmara em riste se colasse ao seu andar ascético. Disse que se se fizesse o filme ele ia-se embora do mosteiro. O realizador disse-lhe que se não o convencesse a ficar, renunciaria ao filme. Mas convenceu-o. No final, deixavam mensagens um ao outro (essa é a forma de comunicação dos monges cartuxos). E um dia, o monge deixou um livro na cela onde dormia o cineasta. Poemas de Dylan Thomas. E uma nota: “Vejo que você está muito preocupado com a parte técnica do filme, e muito pouco com a parte poética. Concentre-se na poesia. Isto vai ajudá-lo”.
O resultado desta experiência única – e talvez irrepetível – é fascinante. O GRANDE SILÊNCIO, cinema insólito, de uma beleza extrema, arcaico mas raivosamente moderno, reivindica a serenidade, ainda que os monges tenham a sua própria versão do stress. É uma facada calada contra o palavreado e uma declaração de essência. Eu não sou crente e não poderia dedicar a minha vida a contemplar Deus, mas eles são-no e fazem-no, e o resultado é de uma coerência que assusta.
A banda sonora do filme é um espectáculo, insólito se soubermos que estamos a falar de um filme sem palavras e sem música, bem , quase sem música (o gregoriano é música). Ouve-se o ruído surdo dos flocos de neve a cair no chão, das gotas a caírem nos telhados, dos passos do jardineiro sobre os ramos secos, do vento a sussurrar entre as folhas, do carrinho da comida a parar em frente às celas, dos monges a acender o seu minúsculo e salvador aquecedor, quase se ouve o som da invariável sucessão de estações, ouve-se o silêncio em todas as suas matrizes, porque as tem.
O que interessa é a experiência extrema de se sentar num cinema durante 3 horas para ver e ouvir o silêncio. Eu defendo este filme com todo o meu coração, e recomendo-o a qualquer Deus. Nunca melhor dito.
El Mundo
Espectadores, quer participeis na vida monástica ou não, ficai seguros que o farão com esta composição tão brilhante: esta imersão no recolhimento e no silêncio (um grande silêncio é verdade) do mosteiro da Grande Cartuxa que vos convida enquanto explorador ou exploradora a investir no carácter intemporal e harmonioso de um tal espaço. Em apenas alguns planos fixos e paragens sobre as imagens, lentidão e câmara deslizando com extrema doçura de uma extremidade à outra, a obra absorve o olho do espectador que já não tem senão uma vontade: permanecer na sala, uma vez que já se considera o visitante do mosteiro.
A austeridade e rectidão numa tal dimensão e a sua realização ambiciosa são a condição de execução de uma lição meditativa tocante e frágil. Sem guru, sem seita, sem julgamento, sem condenação, até sem tomada de posição, este documentário, nos antípodas do filme ficção, não fala mas sente e decifra as cerimónias, as assonâncias dos sinos, os cantos religiosos e as orações concebidas como único diálogo captado ao vivo.
Quanto à natureza envolvente ela força o respeito e a contemplação. Descobrimos os monges em situações caricatas, público surpreendido e agradavelmente surpreendido pela originalidade que se insinua num tema que na primeira abordagem será distante e frio: alegria, celebração espiritual, ser apercebido e vivido intensamente, oferece-vos uma aura de sensibilidade a toda a prova, bem longe dos estereótipos e convenções que desrealizam erradamente o tema monástico.
Nord Cinéma.com
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