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Leitura: "Imitação de Cristo"

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Leitura: "Imitação de Cristo"

A Paulinas Editora lança esta segunda-feira nas livrarias a reedição do livro "Imitação de Cristo" (312 páginas, 14,00 €), considerada «a obra mais impressa – e como tal, certamente, umas das mais influentes – depois da Bíblia».

A obra atribuída ao monge e escritor Tomás de Kempis, nascido em Kempen, atual Alemanha, em 1380, «tornou-se numa obra de leitura obrigatória, durante o "noviciado", de muitas congregações e ordens religiosas, tocando deste modo o coração de milhares de religiosos ao longo dos séculos», refere a nota de apresentação.

O volume, que durante muito tempo conhecido sob o nome "Contemptus mundi" ("Desprezo do mundo"), resulta de quatro livros que Thomas Hoemerken von Kempen terá redigido para a instrução de noviços do convento agostiniano de Agnetenberg, nos atuais Países Baixos, cidade onde o provável autor morreu, em 1471.

Nas palavras de Honoré de Balzac, «a "Imitação"está para o dogma como a ação para o pensamento. Nela, o catolicismo é vibrante, move-se, agita-se, luta corpo a corpo com a vida humana»; da obra, disse um dia o papa S. João XXIII: «Será sempre o meu livro preferido e uma das minhas joias mais preciosas».

Apresentamos um excerto do livro inserido na coleção "Biblioteca indispensável", traduzido para português por Maria Isabel Bénard da Costa e Pedro Tamen, e que conta com prefácio de Miguel Tamen.

 

Imitação de Cristo
Tomás de Kempis (atrib.)

De como alcançar a paz e progredir na virtude

1.
Grande paz poderíamos alcançar, se nos não quiséssemos ocupar das palavras e atos alheios e do que não nos diz respeito.

Como poderá permanecer em paz aquele que interfere nos problemas dos outros, que busca o que é exterior e pouco ou muito raro se recolhe?

Felizes os simples, porque terão grande paz.

2.
Por que razão qualquer dos santos foi tão perfeito e contemplativo?

Porque a todo o momento eles matavam em si os desejos do mundo, de todo o coração pertenciam a Deus e então livremente se ocupavam de si.

Mas nós ocupamo-nos muito das nossas paixões e daquilo que passa.

Raramente vencemos por completo um defeito, e não conseguimos um progresso diário: assim nos mantemos tão frios e mornos.

3.
Se estivéssemos completamente mortos para nós próprios e mais livres por dentro, então saberíamos o gosto do divino e alguma coisa da contemplação do Céu.

O nosso maior e único obstáculo é não estarmos livres de paixões e desejos e não nos esforçarmos por entrar na perfeita via dos santos.

Quando nos sucede qualquer adversidade, imediatamente desanimamos e voltamos às consolações humanas.

4.
Se nos mantivermos quais homens fortes no combate, depressa veremos sobre nós o auxílio de Deus.

Na verdade, Ele está pronto a ajudar os que combatem e esperam na sua graça; pois é quem nos favorece as ocasiões de lutar, para que vençamos.

Se unicamente pomos o progresso da religião em observâncias exteriores, depressa a nossa devoção acabará.

Cortemos, pois, o mal pela raiz, para que, libertos das paixões, venha a ser nosso um espírito de paz.

5.
Se em cada ano nos libertássemos de um vício, depressa seríamos perfeitos.

Mas, pelo contrário, sentimos muitas vezes que éramos melhores e mais puros quando nos convertemos do que depois de há tantos anos termos professado.

O fervor e o progresso deveriam crescer todos os dias, mas hoje achamos que é já muito conservar uma parte do antigo fervor.

Se a princípio fizermos um pouco de violência, tudo faremos depois com facilidade e alegria.

6.
Custa deixar os hábitos, mas custa mais ainda ir contra a própria vontade.

E, se não vences as coisas pequenas e fáceis, como vencerás as mais difíceis?

Resiste desde o princípio à tua inclinação e abandona os maus hábitos, para que lentamente te não conduzam a maiores dificuldades. Oh, soubesses tu quanta paz para ti e alegria para os outros a tua vida santa causaria, e julgo que terias mais ardor no teu progresso espiritual!

 

Do amor da solidão e do silêncio

1
Busca um tempo próprio para te ocupares de ti, e medita frequentemente nas dádivas de Deus.

Deixa as coisas curiosas e ocupa-te daqueles assuntos que aproveitam mais à compunção que à ocupação.

Se te afastares das palavras supérfluas e das voltas inúteis, tal como das novidades e rumores, acharás tempo suficiente e próprio para boas meditações.

Os maiores santos evitavam, sempre que podiam, as companhias humanas, e preferiam servir a Deus em segredo.

2.
Disse alguém: «quanto mais vivi entre os homens, menos homem me tornei»(Séneca).

É isto o que experimentamos muitas vezes, quando conversamos por muito tempo.

É mais fácil calarmo-nos inteiramente do que não falarmos demais.

Mais fácil é ficar em casa, do que conseguir guardar-se fora dela.

Portanto, aquele que pretende chegar às coisas interiores e espirituais, terá de abandonar, com Jesus, a multidão.

Só aparece com segurança aquele que livremente se esconde.

Só com segurança fala o que voluntariamente se cala.

Só está seguramente à frente aquele que de livre vontade se submete.

Ninguém manda com segurança senão o que aprendeu a bem obedecer.

Ninguém se alegra seguramente sem ter em si o testemunho duma boa consciência.

3.
Contudo, a segurança dos santos sempre foi cheia do temor de Deus, e quanto mais brilharam em grandes virtudes e em graça, tanto mais solícitos e interiormente humildes foram.

Mas a segurança dos maus nasce da soberba e da presunção e, no fim, transforma-se na deceção de si próprios.

Nunca contes com segurança nesta vida, ainda que pareças um bom religioso ou um devoto eremita.

4.
Muitas vezes os melhores na opinião dos homens são os que mais gravemente caem, pela demasiada confiança em si próprios.

Por isso, é mais útil a muitos que não careçam totalmente de tentações, mas que muitas vezes por elas sejam atacados, para que, demasiadamente seguros de si próprios, não se envaideçam, nem caiam de bom grado em consolações exteriores.

Oh, quem se podasse de todo o vão cuidado e somente pensasse em coisas salutares e divinas, colocando a sua esperança toda em Deus, que grande paz e que repouso não teria!

5.
Ninguém é digno da consolação celeste, senão aquele que diligentemente se exercita na santa compunção.

Se queres manter a compunção da alma, entra na tua cela e foge ao tumulto do mundo; tal como está escrito: «arrependei-vos nos vossos leitos»(Sl 4,5).

Encontrarás na tua cela o que a maior parte das vezes perdes lá fora.

O retiro contínuo torna-se grato, mas, mal guardado, gera o aborrecimento.

Se desde o princípio da tua conversão bem habitares e guardares a tua cela, ela será depois para ti uma amiga querida e uma grata consolação.

6.
No silêncio e no repouso progride a alma devota e aprende os segredos das Escrituras; aí encontra rios de lágrimas com que todas as noites se lava e purifica; para que se torne tanto mais unida ao seu Criador, quanto mais longe vive de todo o tumulto do mundo.

Aquele que se afasta de amigos e conhecidos, Deus se aproximará dele com os seus anjos santos.

É melhor esconder-se e cuidar de si do que, abandonando-se a si próprio, fazer milagres.

É louvável para o homem religioso sair raramente e fugir de ser visto e de ver os homens.

7.
Por que é que queres ver aquilo que não podes possuir? «Passa o mundo e o seu desejo»(1Jo 2,17).

Os desejos dos sentidos arrastam para um e outro lado; mas, quando o momento passa, o que conservas, senão o peso da consciência e a dispersão do coração?

A partida alegre prepara muitas vezes um triste regresso, e a vigília alegre faz uma triste manhã.

Assim todo o prazer carnal se introduz brandamente, mas, no fim, morde e mata.

Que podes ver em qualquer outro sítio que aqui não vejas?

Eis o Céu e a Terra e todos os elementos: na verdade, todas as coisas são feitas deles.

8.
Que podes ver em alguma parte que se possa manter por longo tempo?

Julgas, talvez, saciar-te, mas nunca o conseguirás.

Se visses todas as coisas ao mesmo tempo, que seria isso, mais do que uma vã visão?

Ergue os teus olhos para Deus, lá no alto, e reza por causa dos teus pecados e negligências.

Deixa aos homens vãos as coisas vãs: tu, porém, ouve as que Deus te ordena.

Fecha atrás de ti a tua porta e chama para ti Jesus, o teu amado.

Permanece com Ele na cela, pois que em nenhum lado encontrarás tanta paz.

Se nunca saísses nem ouvisses quaisquer rumores, melhor permanecerias em paz.

Mas, porque de vez em quando te dá prazer ouvir coisas novas, terás de suportar a perturbação do teu espírito.

 

Da conversão interior

1.
«O Reino de Deus está dentro de vós»(Lc 17,21), diz o Senhor.

Volta-te com todo o teu coração para o Senhor e deixa este mundo miserável: e a tua alma achará o repouso.

Aprende a desprezar as coisas exteriores e a entregar-te às interiores, e verás chegar para ti o Reino de Deus.

Na verdade, o «Reino de Deus é a paz e a alegria no Espírito Santo»(Rm 14,17), que não é dado aos ímpios. Cristo virá junto de ti, mostrando-te a sua consolação, se lhe tiveres preparado interiormente uma morada digna.

Toda a sua glória e beleza são de dentro e é aí que se compraz.

Ele visita frequentemente o homem recolhido, e a sua conversa é doce, a sua consolação agradável, a sua paz imensa, o seu convívio admirável.

2.
Vai, alma fiel, prepara o teu coração para este Esposo, para que se digne vir a ti e em ti habitar.

Na verdade, Ele diz assim: «se alguém me ama, ouvirá a minha palavra; e viremos a ele e nele faremos morada»(Jo 14,23).

Dá, pois, lugar a Cristo e nega entrada a todos os outros.

Quando possuíres Cristo, serás rico e Ele te bastará.

Ele será o teu guia e o que cuidará de ti, fielmente, em todas as coisas, para que não necessites de esperar nos homens.

Na verdade, os homens depressa mudam e faltam; mas Cristo permanece eternamente, e com firmeza acompanha até ao fim.

Não se deve colocar grande confiança no homem frágil e mortal, ainda que seja útil e amado; nem nos devemos entristecer se às vezes nos trair ou contradizer.

Aqueles que hoje estão contigo podem ser-te contrários amanhã, e vice-versa: mudam muitas vezes como a brisa.

3.

Põe toda a tua confiança em Deus, e que Ele seja teu temor e teu amor.

Ele por ti responderá e fará como for melhor.

Não tens aqui cidade de repouso, e onde quer que estejas és estranho e peregrino; e nunca terás repouso, a não ser quando estiveres intimamente unido a Cristo.

4.
Que procuras à tua volta, se este não é o lugar do teu descanso?

A tua morada deve ser no Céu, e tudo na terra deve ser visto como de passagem.

Todas as coisas passam, e tu com elas.

Toma cuidado, não te apegues, para que não sejas apanhado por elas e pereças.

Que o teu pensamento esteja junto do Altíssimo, e a tua súplica se dirija sem cessar a Cristo.

Se não consegues contemplar as coisas elevadas e celestes, descansa na paixão de Cristo, e habita alegremente nas suas santas chagas.

Se assim te refugiares com devoção nas chagas e nos preciosos estigmas de Jesus, sentirás grande conforto na tribulação, não te importarás muito com as traições dos homens e facilmente suportarás as palavras malévolas.

5.
Também Cristo foi desprezado no mundo pelos homens, e abandonado, na maior necessidade, pelos conhecidos e amigos no meio das afrontas.

Cristo quis sofrer e ser desprezado, e tu ousas queixar-te de alguma coisa?

Cristo teve inimigos e adversários, e tu queres que todos sejam teus amigos e benfeitores?

Onde será coroada a tua paciência, se nada tiveres de adverso?

Se não queres sofrer nada de penoso, como queres ser amigo de Cristo?

Mantém-te com Cristo e por Cristo, se queres reinar com Cristo.

6.
Se uma única vez conseguisses entrar perfeitamente no coração de Jesus, e conhecesses um pouco do seu amor ardente, não te importarias com o que te é agradável ou desagradável, mas alegrar-te-ias de cada ofensa sofrida, pois que o amor de Jesus faz o homem desprezar-se a si próprio.

Aquele que ama Jesus e a verdade, que é verdadeiro, interior e livre de afeições desordenadas, pode voltar-se facilmente para Deus, elevar-se em espírito acima de si próprio e descansar com proveito.

7.
Aquele para quem as coisas valem segundo o que são, e não segundo o que se diz ou pensa, esse é o verdadeiro sábio, e mais instruído por Deus do que pelos homens.

Aquele que sabe caminhar interiormente e pouco se importa com as coisas exteriores, não exige lugares nem espera ocasiões para se dedicar aos exercícios de piedade.

O homem interior depressa se recolhe, pois que nunca se dispersa totalmente nas coisas exteriores.

O trabalho exterior não o prejudica, nem a ocupação por vezes necessária; mas, tal como sucedem as coisas, assim a elas se acomoda.

Aquele que é bem formado e ordenado interiormente não se importa com as ações admiráveis ou perversas dos homens.

Tanto mais se embaraça o homem e se distrai, quanto mais a si atrai as coisas.

8.
Se fosses como devias, e perfeitamente purificado, tudo se te converteria em bem e em progresso.

Mas muitas coisas te desagradam e frequentemente perturbam, porque ainda não morreste completamente para ti próprio nem te separaste de tudo o que é da terra.

Nada mancha e compromete o coração do homem como um impuro amor das criaturas.

Se renuncias às consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do Céu e alegrar-te frequentemente em teu coração.

 

Publicado em 11.03.2015

 

 

 
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Resiste desde o princípio à tua inclinação e abandona os maus hábitos, para que lentamente te não conduzam a maiores dificuldades. Oh, soubesses tu quanta paz para ti e alegria para os outros a tua vida santa causaria, e julgo que terias mais ardor no teu progresso espiritual!
Se te afastares das palavras supérfluas e das voltas inúteis, tal como das novidades e rumores, acharás tempo suficiente e próprio para boas meditações
Oh, quem se podasse de todo o vão cuidado e somente pensasse em coisas salutares e divinas, colocando a sua esperança toda em Deus, que grande paz e que repouso não teria!
No silêncio e no repouso progride a alma devota e aprende os segredos das Escrituras; aí encontra rios de lágrimas com que todas as noites se lava e purifica; para que se torne tanto mais unida ao seu Criador, quanto mais longe vive de todo o tumulto do mundo
Aprende a desprezar as coisas exteriores e a entregar-te às interiores, e verás chegar para ti o Reino de Deus
Não tens aqui cidade de repouso, e onde quer que estejas és estranho e peregrino; e nunca terás repouso, a não ser quando estiveres intimamente unido a Cristo
Cristo teve inimigos e adversários, e tu queres que todos sejam teus amigos e benfeitores? Onde será coroada a tua paciência, se nada tiveres de adverso? Se não queres sofrer nada de penoso, como queres ser amigo de Cristo? Mantém-te com Cristo e por Cristo, se queres reinar com Cristo
Se uma única vez conseguisses entrar perfeitamente no coração de Jesus, e conhecesses um pouco do seu amor ardente, não te importarias com o que te é agradável ou desagradável, mas alegrar-te-ias de cada ofensa sofrida, pois que o amor de Jesus faz o homem desprezar-se a si próprio
Aquele que ama Jesus e a verdade, que é verdadeiro, interior e livre de afeições desordenadas, pode voltar-se facilmente para Deus, elevar-se em espírito acima de si próprio e descansar com proveito
Aquele que sabe caminhar interiormente e pouco se importa com as coisas exteriores, não exige lugares nem espera ocasiões para se dedicar aos exercícios de piedade
Muitas coisas te desagradam e frequentemente perturbam, porque ainda não morreste completamente para ti próprio nem te separaste de tudo o que é da terra
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