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Imagens religiosas e procissões: Espiritualidade e beleza, critérios e desvios a evitar

A Quaresma e o tempo a seguir à Páscoa, a par das festas litúrgicas que atravessam os meses de verão, são dos períodos do ano com mais incidência de procissões. Saem às ruas imagens guardadas e cuidadas ao longo dos meses, reativam-se com mais intensidade irmandades e confrarias.

Tendo em mente a Semana Santa – mas com aplicação a todas as devoções processionais – D. Amadeo Rodríguez Magro, bispo da diocese espanhola de Jaén, redigiu há cerca de um ano um documento sobre a utilização das imagens naquele contexto. É da quase totalidade desse texto que propomos a tradução.

 

O que são as imagens para os católicos

A primeira coisa que quero dizer, logo de entrada, é que as imagens são uma ponte entre o que vemos e o mistério que evocam; são um sinal do divino, do religioso, do espiritual, do sobrenatural. É verdade que qualquer imagem material nunca poderá expressar plenamente o que representa; no entanto, fá-lo intuir e perceber. Além disso, as imagens abrem-nos o caminho para um encontro pessoal com Jesus Cristo e permitem-nos, inclusive, manter uma relação com Ele. A partir do encontro com uma imagem, pode abrir-se o caminho da busca de Deus e dispor o coração e a mente para o encontro com Cristo.



Na rua vão com as imagens aqueles que na intimidade e em comunidade vivem a sua fé em torno delas e as celebram nas suas paróquias. Não pode haver alguns cristãos para a rua e outros para os templos



A imagem de Cristo, ícone por excelência

Como se pode ver, cito sempre Jesus Cristo como o representado por qualquer imagem sagrada. É que o valor e significado de toda a representação religiosa tem sentido pela Encarnação do Filho de Deus, que inaugurou uma nova relação com o Deus invisível. Todas as imagens têm como finalidade anunciar a pessoa, a mensagem e a obra de Cristo, sendo Ele o revelador perfeito de Deus Pai e único Salvador permanente do homem e do mundo. «A imagem de Cristo é o ícone por excelência. As demais, que representam a Santíssima Virgem e os santos, significam Cristo, que neles é glorificado» (Compêndio do Catecismo da Igreja católica, 240). A Virgem Maria e os Santos são os reflexos luminosos e as testemunhas atraentes da beleza singular de Jesus Cristo. Refletem, cada qual à sua maneira, como os prismas de um cristal, as matizes do diamante, as cores do arco-íris, a luz e a beleza original do Deus amor. Daí que a imagem que os nossos olhos veem leva-nos sempre a encontrarmo-nos com Jesus Cristo e, por Ele, descobrimos a glória de Deus. Da única e perfeita Imagem derivam as demais imagens.

Foi, como referi, no onde e quando da Encarnação do Filho de Deus que se inaugurou uma nova relação do nosso mundo visível com o invisível. O próprio Deus fez-se ver na carne viveu com os homens. Assim nos recorda Jesus: «Quem me viu, viu o Pai» (João 14, 9). Portanto, podemos ter uma ideia de Deus a partir do que vimos em Jesus Cristo. Na realidade, as imagens podem ser veneradas porque o Filho de Deus se fez homem e tinha um coração humano, um rosto humano.



O que temos de deixar claro é que uma imagem não se venera por ela mesmo, mas pelo que representa; a honra não se tributa à imagem, mas àquele a quem essa imagem nos aproxima, para que possamos conhecê-lo, amá-lo e imitá-lo



As imagens traduzem o Evangelho

No entanto, para que se possa produzir um encontro com Jesus Cristo através das nossas imagens, é preciso que haja certas condições que o garantam. O primeiro requisito é que na criação e veneração das imagens se salvaguarde com esmero que traduzam a mensagem evangélica. «Os artistas de cada tempo ofereceram à contemplação e à admiração dos fiéis os factos salientes do mistério da salvação, apresentando-os no esplendor da cor e na perfeição da beleza» (cardeal Joseph Ratzinger, Introdução ao Compêndio do Catecismo da Igreja católica). As imagens estão, portanto, ao serviço da Palavra revelada de Deus, que é sempre próxima e familiar, como também o é pelas imagens que a mostram. Palavra de Deus e imagem iluminam-se mutuamente. Assim nos ensina a história: os cristãos, para anunciar a mensagem, serviram-se de uma maneira especial dos catecismos não escritos, como a “Bíblia pauperum” qquer dizer, representada em imagens. «As imagens são sermões silenciosos e livros para ilustrados por todos fáceis de entender» (S. João Damasceno).

 

As imagens são veículos para a oração e a imitação

Toda a imagem exposta à nossa veneração tem como último referente a Palavra feita carne, Cristo. Contemplá-lo não só nos facilita o conhecimento da pessoa e do mistério que a imagem representa, mas também irradia a sua presença e convida-nos a um encontro e a uma comunhão vital. De facto, se a imagem nos apresenta o mistério de Cristo, também nos conduz a Ele, para que o possamos alcançar com o louvor e a súplica. Pelo mistério da Encarnação de Cristo, as imagens colocam-nos diante da própria glória do Deus vivo que escuta a nossa oração; são uma preciosa ajuda para a oração. «A beleza e cor das imagens estimulam a minha oração. É uma festa para os meus olhos, do mesmo modo que o espetáculo do campo estimula o meu coração para a glória de Deus» (S. João Damasceno no século VIII). As imagens oferecem aos crentes um tema de reflexão e ajuda para entrar em contemplação e em oração diante das cenas da paixão de Cristo que os olhos podem ver; mesmo no meio da rua pode produzir-se um encontro íntimo com a pessoa de Jesus Cristo.

Ao entrar em comunicação com elas, as imagens também facilitam, como é natural, a nossa imitação de Cristo. Quanto mais frequentemente se detêm os olhos nas imagens, tanto mais se aviva e cresce em quem as contempla a memória e o desejo do que nelas está representado para a nossa salvação. O que temos de deixar claro é que uma imagem não se venera por ela mesmo, mas pelo que representa; a honra não se tributa à imagem, mas àquele a quem essa imagem nos aproxima, para que possamos conhecê-lo, amá-lo e imitá-lo.



Devem evitar-se, por exemplo, as comparações entre imagens sagradas; a excessiva preocupação pelo deleite estético sobre a sua mensagem espiritual e religiosa; a promoção de um humanismo antropológico das imagens que as distancie do seu sentido espiritual; o incidir no seu caráter cultural e folclórico



O que diz a Igreja diz sobre as imagens

Esta breve síntese da doutrina sobre as imagens recolhe o ensinamento da Igreja, que naturalmente evoluiu pouco a pouco ao longo da história da Igreja. Antes de chegar a critérios claros que se converteram em norma para todos, foi necessário solucionar, aos poucos, algumas questões doutrinais de suma importância para compreender se era plausível ou não venerar as imagens. Se as imagens se apoiam no mistério de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, então, naturalmente, era necessário esclarecer antes o relacionamento do Filho com o Pai; e, uma vez isso resolvido, teve de se estabelecer a relação das três pessoas divinas na Trindade de Deus. Só uma vez desvelado pela teologia esse mistério da fé, se pôde fazer o caminho que vai da imagem, passando pelo encontro com o Filho, acompanhados pelo Espírito, até chegar ao próprio Deus invisível.

Assim o definiu o segundo concílio de Nicéia, celebrado de 24 de setembro a 23 de outubro do ano 787, sendo papa Adriano I: «Definimos com todo o rigor e insistência que, à semelhança da figura da cruz preciosa e vivificante, as veneráveis e santas imagens, já pintadas, já em mosaicos ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, sobre os diferentes vasos sagrados, nos ornamentos, nas paredes, nos quadros, nas casas e nas ruas. nas ruas; tanto da imagem do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo, como da Imaculada Senhora nossa, a Santa Mãe de Deus, dos santos anjos, de todos os santos e justos». Espero que com o que acabo de referir, se tenham critérios para conhecer o essencial sobre o valor e o sentido das nossas imagens e, sobretudo, para saber como devemos relacionar-nos com eles.



Estar diante de uma imagem de Jesus, da Santíssima Virgem ou dos santos precisa de um clima humano, cultural e, sobretudo, espiritual, que torne possível um verdadeiro encontro de fé que transforme e dê um novo horizonte à vida



Erros a evitar sobre as imagens

Considero, além disso, que é também muito importante que se conheça, no que se refere às imagens, algo do que tem sido problemático ao longo da história da Igreja até aos nossos dias. Os concílios e a teologia foram matizando de diferentes maneiras o sentido das imagens, buscando sempre a autenticidade doutrinal e devocional, e situando-as na missão evangelizadora da Igreja. É, por isso, necessário que aqueles que têm alguma responsabilidade nos modos de as apresentar evitem reduções e alterações que induzam erros e, inclusive, superstições. Devem evitar-se, por exemplo, as comparações entre imagens sagradas; a excessiva preocupação pelo deleite estético sobre a sua mensagem espiritual e religiosa; a promoção de um humanismo antropológico das imagens que as distancie do seu sentido espiritual; o incidir no seu caráter cultural e folclórico, ainda que seja sempre bom que carreguem a marca da própria cultura.

 

O respeito às imagens

Em suma, o culto das imagens bem orientado está destinado a deixar a sua marca nos seus devotos. Eles identificam-nas e também se identificam com cada uma das suas devoções. Pode muito bem dizer-se que cada imagem reflete, além da vida de Jesus Cristo, a vida espiritual da infinidade dos fiéis cristãos. As imagens são transportadas na memória e no coração, de tal maneira que calam no mais íntimo e querido dos devotos. Por isso, no fundo, são o rosto da nossa intimidade espiritual.

Qualquer imagem deve ser respeitada por si mesma e pelo que significa para aqueles que as veneram com devoção. Aquele que intencionalmente ofende uma imagem, ofende os devotos. Mas, acima de tudo, ofende, como é óbvio, o mistério representado pelas imagens, embora talvez alguns sem responsabilidade, por não saberem a quem estão a ofender, como sucedeu com aqueles que crucificaram Jesus Cristo. Naturalmente, quando esses factos ocorrem, a reação dos cristãos deve ser sempre a de estar à altura e em consonância com a mensagem e os sentimentos que emanam da imagem abençoada que foi desrespeitada. Por isso, de nossa parte, além de exigir o direito fundamental de que sejam respeitados os nossos sentimentos religiosos, devemos oferecer sempre o perdão, que é o auge do amor que nasce do coração de Cristo, o perdão é sempre uma graça. Em circunstâncias como as aludidas, nunca devemos esquecer que já na cruz o Ofendido nos ensinou como responder àqueles que nos ofendem nele e por Ele.



Toda a procissão é sempre um sinal da condição da Igreja, Povo de Deus a caminho, que, com Cristo e no seguimento de Cristo, marcha pelas ruas do mundo, no meio da vida da sociedade civil, sempre em atitude de saída para anunciar o Evangelho da salvação



A devoção às imagens e a fé

É necessário, portanto, que as atitudes interiores diante de uma imagem sejam a consequência de uma confissão de fé. A relação de um cristão com elas move-se num clima de fé. Na realidade, o mais importante é sempre a relação entre as imagens e a fé dos crentes. Estar diante de uma imagem de Jesus, da Santíssima Virgem ou dos santos precisa de um clima humano, cultural e, sobretudo, espiritual, que torne possível um verdadeiro encontro de fé que transforme e dê um novo horizonte à vida. É por isso que a relação com uma imagem precisa da grande riqueza da piedade popular. E já sabemos que quando nos referimos à piedade popular, pensarmos na maneira particular que tem uma porção do Povo cristão de traduzir na sua vida o Evangelho de acordo com o seu génio próprio, dar testemunho da fé recebida e enriquecer-se interiormente.

 

O sentido evangelizador das imagens

Por isso, pode dizer-se que na piedade popular «o povo evangeliza-se continuamente a si mesmo». A história mostra-nos o uso evangelizador das imagens. A piedade popular é a verdadeira expressão da ação missionária espontânea do Povo de Deus. Trata-se de uma realidade em permanente desenvolvimento, na qual o Espírito Santo é o principal agente. Na piedade popular pode perceber-se o modo como fé recebida foi encarnada numa cultura.

Embora em alguns momentos isso tenha sido visto com alguma desconfiança, ultimamente tem sido objeto de revalorização nas décadas posteriores ao concílio Vaticano II. Paulo VI, na sua exortação apostólica “Evangelii nuntiandi” deu-lhe um impulso decisivo. Nela explica de um modo belíssimo e certeiro que a piedade popular «reflete uma sede de Deus que somente os pobres e os simples podem conhecer», e que «torna capaz de generosidade e sacrifício até ao heroísmo, quando se trata de manifestar a fé». Também o papa emérito Bento XVI, já mais próximo do nosso tempo, assinalou que se trata de um «precioso tesouro da Igreja católica», e que na piedade popular «aparece a alma dos povos», referindo-se neste caso aos latino-americanos.



Magoa-o muito que se possam converter as procissões num mero espetáculo, por vezes sem ligação alguma com o mistério que se celebra, o da morte e ressurreição de Cristo, coração da fé



No clima de fé da piedade popular

O papa Francisco insiste novamente em recordar o valor da piedade popular na “Evangelii gaudium”, e diz dela que se trata de uma verdadeira espiritualidade encarnada na cultura dos simples, e uma maneira legítima de viver a fé, um modo de sentir-se parte da Igreja, e uma forma de ser missionário. Recorda, além disso, as suas possibilidades diante do projeto pastoral da Igreja em saída que nos propõe. Diz da piedade popular que implica «a graça da missionariedade, do sair de si e do peregrinar».

Por isso o papa dá orientações pastorais para a acompanhar devidamente: «Perante esta realidade, é preciso aproximar-se dela com os olhos do Bom Pastor, que não procura julgar, mas amar. Somente a partir da conaturalidade afetiva que dá o amor podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos cristãos, especialmente nos seus pobres. Quem ama o santo Povo fiel de Deus não pode ver estas ações apenas como uma busca natural da divindade. São manifestação de uma vida teologal animada pela ação do Espírito Santo que foi derramado nos nossos corações».

Nesta referência excecional da “Evangelii gaudium”, Francisco afirma rotundamente que a piedade popular é fruto do Evangelho inculturado, no qual subjaz uma força ativamente evangelizadora que não podemos menosprezar; fazê-lo seria desconhecer a obra do Espírito Santo. Por isso, insiste em que somos chamados a encorajá-la e a fortalecê-la, para aprofundar o processo de inculturação, que é uma realidade nunca acabada; pelo contrário, neste contexto de secularização em que nos movemos, somos chamados a fazê-la de novo. Para isso, devemos primeiro aceitar que as expressões de piedade popular têm muito a ensinar-nos, e que, para quem sabe lê-las, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção, particularmente quando se trata de pensar a nova evangelização.

As imagens são, portanto, pregação evangélica. Não podemos esquecer que nelas se mostra a «religião do povo», naturalmente do Povo de Deus, do povo cristão, do povo que encarna os valores a que se referiu a “Evangelii nuntiandi”. Esta última qualificação da piedade popular como lugar teológico é tão importante e exige tanta responsabilidade (…), que de modo algum pode passar desapercebida para quantos se movem neste âmbito de manifestação da vida cristã.



As imagens hão de levar às nossas ruas os valores mais genuínos do Evangelho, aqueles que identificam Jesus e o mistério da sua vida, paixão, morte e ressurreição: a pobreza, simplicidade, a austeridade, a solidariedade, o serviço, a entrega, a cura, o consolo, a misericórdia, a esperança, a salvação, o amor e a alegria



As imagens nos desfiles processionais

Não quero terminar esta reflexão sobre as nossas imagens sem as situar onde se fazem presentes (…). O que foi dito sobre elas deve ser situado, sobretudo, no contexto das nossas irmandades e confrarias, que são as responsáveis por levar à rua as nossas veneradíssimas imagens, na variedade, riqueza e beleza que representam os passos dos nossos desfiles processionais. É necessário recordar que, do mesmo modo que as imagens, também as procissões têm de se inspirar na Bíblia e, claro, na liturgia, a Palavra que se celebra. Quando manifestamos as nossas imagens, temos de estar muito conscientes do acontecimento salvífico a que se referem e, obviamente, da sua atualização na liturgia da Igreja. Na rua vão com as imagens aqueles que na intimidade e em comunidade vivem a sua fé em torno delas e as celebram nas suas paróquias. Não pode haver alguns cristãos para a rua e outros para os templos. Por isso, os confrades devem preparar-se interiormente nos cultos litúrgicos e celebrar os acontecimentos pascais que hão de levar, em nome das suas comunidades paroquiais, pelas ruas da povoação ou da cidade.

Toda a procissão é sempre um sinal da condição da Igreja, Povo de Deus a caminho, que, com Cristo e no seguimento de Cristo, marcha pelas ruas do mundo, no meio da vida da sociedade civil, sempre em atitude de saída para anunciar o Evangelho da salvação. Por esta razão, as pessoas que acompanham as imagens hão de manifestar que são Igreja, que servem na Igreja e que nela alimentam a sua fé através da escuta da Palavra de Deus; pela graça que recebem na vida litúrgica e, em especial, nos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação; pelo amor e comunhão de vida e compromisso que manifestam nas relações corresponsáveis ​​com todos os membros da comunidade em que habitualmente compartilham fé e vida; pelo exercício da caridade que todos realizam em favor dos pobres, nos quais veem Jesus Cristo, e naqueles que encontram e servem durante o ano nas necessidades, e, naturalmente, pelo testemunho da sua fé no meio do mundo. As irmandades e confrarias são compostas fundamentalmente por leigos cristãos no meio do mundo.



Prestai, sobretudo, atenção ao «caminho da beleza» (“via pulchritudinis”) na catequese que apresentamos nas nossas ruas; esse é um bom caminho para expressar o mistério de Deus e do homem, e, portanto, para chegar ao coração do povo



Reconhecendo Cristo na Igreja

Só reconhecendo Cristo na Igreja e, com ela, nos pobres e marginalizados, há legitimidade para o mostrar como Aquele que deve ser reconhecido, amado e servido. Nunca nos esqueçamos de que uma procissão deve manifestar sempre um modo de vida alternativo, aquele que Cristo veio trazer ao mundo, o do Reino de Deus. Nas procissões caminha um povo unido que há de constituir na sociedade um clima novo, o do Evangelho, que é de fraternidade, de solidariedade, em suma, de caridade. Essa era a intenção de Deus ao enviar o seu Filho: fazer do mundo o seu reino, semeado de valores que deem ao ser humano paz, felicidade, em síntese, salvação. As procissões não só provocam sentimentos, fazem também uma proposta moral que convida a crescer em fidelidade ao estilo de vida do Evangelho.

Nem sempre, no entanto, é assim. Por isso, a Igreja, pastoralmente incentiva as manifestações de piedade popular, também chama a atenção para os perigos que por vezes encerra um mau uso do sagrado: sobretudo quando o fazemos ao estilo que se afasta do mistério que lhes dá sentido. Por isso, adverte sobre o perigo de promover devoções, esquecendo que o verdadeiro canal querido por Deus para nos comunicar a sua graça e encontrar-se connosco são os sacramentos. E entristece-o que se coloque mais força e interesse nas manifestações externas, em formas e atitudes, do que nas disposições interiores que devem aproximar-se àquelas que são manifestações de fé do povo cristão. Magoa-o muito que se possam converter as procissões num mero espetáculo, por vezes sem ligação alguma com o mistério que se celebra, o da morte e ressurreição de Cristo, coração da fé.

As imagens hão de levar às nossas ruas os valores mais genuínos do Evangelho, aqueles que identificam Jesus e o mistério da sua vida, paixão, morte e ressurreição: a pobreza, simplicidade, a austeridade, a solidariedade, o serviço, a entrega, a cura, o consolo, a misericórdia, a esperança, a salvação, o amor e a alegria. As imagens têm de pôr o Evangelho nas nossas vidas: «Convém manifestar sempre o bem desejável, a proposta de vida, de maturidade, de realização, de fecundidade, sob cuja luz pode compreender-se a nossa denúncia dos males que podem obscurecê-la» (EG 168). Por fim, quando uma imagem inspirada pela fé se oferece ao público, no âmbito de uma função religiosa, revela-se como um caminho de evangelização e de diálogo.

 

Ao serviço de uma bela catequese

A terminar esta reflexão, queria dizer alguma coisa sobre a contribuição das imagens para uma bela catequese sobre os mistérios da fé. Faço eco da história da apresentação catequética da fé, que sempre soube usar justamente utilizar esse meio como uma forma de catequese. Cuidai muito do que se faz com as nossas imagens e ponde todo o esmero na maneira como o façais. (…) Prestai, sobretudo, atenção ao «caminho da beleza» (“via pulchritudinis”) na catequese que apresentamos nas nossas ruas; esse é um bom caminho para expressar o mistério de Deus e do homem, e, portanto, para chegar ao coração do povo.

Anunciar a Cristo significa mostrar que acreditar nele e segui-lo não é apenas algo verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de preencher a vida de um novo resplendor e de um gozo profundo, mesmo no meio das provações e dificuldades da vida. (…)



 

D. Amadeo Rodríguez
Bispo de Jaén, Espanha
Fonte: SIC
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: jkraft5/Bigstock.com
Publicado em 19.03.2019

 

 
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