

Na história da Europa as artes expressaram a sua identidade na dimensão espiritual. Também a Sétima Arte teve importantes realizadores que contribuíram neste âmbito, como os franceses Robert Bresson ou Éric Rohmer, o dinamarquês Carl Theodor Dreyer, o italiano Ermanno Olmi, os polacos Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Zanussi y Andrzej Wajda, o itinerário atormentado do sueco Ingmar Bergman ou o alemão Wim Wenders.
Temos ainda de acrescentar filmes marcantes de realizadores de base cristã mais cultural do que confessional: Pasolini, com o "Evangelho segundo Mateus" e "La ricotta", Roberto Rossellini com a sua "Roma, cidade aberta", "O santo dos pobrezinhos" [sobre S. Francisco de Assis] ou "O Messias", e Luis Buñuel com "Nazarín".
Também no cinema atual a presença de realizadores europeus que filmam a partir do seu substrato espiritual é significativa; recordem-se filmes de amplo reconhecimento: "Adeus, rapazes", "Thérèse", "Em nome do pai", "A festa de Babette", "Le Havre", "O grande silêncio", "Dos deuses e dos homens", "Feliz Natal" ou "Terra da abundância".
Todavia, no cinema europeu a questão espiritual está presente de forma implícita, enquanto que no norte-americano o espiritual-religioso, e concretamente cristão, está presente explicitamente em personagens, histórias e temáticas.
Por cinema religioso entendemos aquele que por causa das suas personagens, instituições ou tema trata de uma religião em concreto; por exemplo, "Noé", de Aronofsky, é uma película bíblica com base nas religiões judaica e cristã.
Por seu lado, por cinema espiritual entendemos os filmes que, ao colocarem as questões últimas do ser humano, como o sentido da liberdade e do amor, a dimensão social aberta à justiça e à solidariedade, a admiração pela beleza ou a pergunta pelo sentido da morte e da vida, colocam a abertura à transcendência e, definitivamente, a Deus. Normalmente, o cinema religioso com qualidade estética e temática está incluído no cinema espiritual.
Assistimos a um paradoxo: no momento em que mais filmes se realizam com sentido espiritual, verifica-se uma clara tendência do consumo para o cinema mais comercial. No entanto, a venda direta do cinema digital permite aceder a muitas películas mais simples e com pressupostos mais modestos, mas que têm grande significado do ponto de vista espiritual.
Esta é uma responsabilidade que temos com os espetadores, para que confrontem as suas escolhas com sentido crítico e optem por filmes que os ajudem a crescer na sua forma de ver a vida. A di-versão não é verter-se para fora mas aprofundar para dentro.
No início do cinema a Igreja esteve muito próxima do fenómeno; logo depois chegou a época, que é melhor esquecer, em que se centrou na censura. Desde há anos estamos num novo momento e são muitas as experiências que a Igreja oferece em chave evangelizadora. As Semanas e Mostras do cinema espiritual são um exemplo significativo.
Há filmes comerciais com amplo significado espiritual religioso: por exemplo, "O Hobbit. A batalha dos cinco exércitos", com base no texto do autor católico John Ronald Reuel Tolkien, "Exodus: deuses e reis", de Ridley Scottt, baseada no livro bíblico, ou a película irlandesa "Calvary", história de um sacerdote ameaçado de morte. Também há documentários de pressupostos simples que estão a ser um êxito de público, como "La última cima" ou "Tierra de María", de Juan Manuel Cotelo.
Isto pressupõe um bom equilíbrio entre as pretensões e o pressuposto, o argumento e o seu desenvolvimento técnico e artístico, a pretensão evangelizadora e a sobrecarga didática. Um bom equilíbrio destas questões pode garantir um êxito compatível com cada nível de investimento.
Peío Sanchez