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Igreja precisa de experimentar novo Pentecostes

Cinquenta dias após a Páscoa, naquele cenáculo que passou a ser a sua casa e onde a presença de Maria, mãe do Senhor, é o elemento de coesão, os apóstolos vivem um acontecimento que supera as suas expetativas.

Reunidos em oração – a oração é o “pulmão” que dá respiração aos discípulos de todos os tempos –, são surpreendidos pela irrupção de Deus. Trata-se de uma irrupção que não tolera o fechamento: escancara as portas através da força de um vento que recorda o “ruah”, o sopro primordial, e cumpre a promessa da “força” feita pelo Ressuscitado antes da sua despedida. Chega de imprevisto, do alto, «um fragor, quase como um vento que se abate impetuoso, e enche toda a casa onde estavam».

Ao vento, depois, acrescenta-se o fogo que evoca a sarça ardente e o deserto do Sinai com o dom das dez palavras [mandamentos]. Na tradição bíblica, o fogo exprime simbolicamente a sua obra de aquecer, iluminar e examinar os corações, o seu cuidado em provar a resistência das obras humanas, purificá-las e revitalizá-las.

Enquanto que no Sinai se ouve a voz de Deus, em Jerusalém, na festa de Pentecostes, quem fala é Pedro, a rocha sobre a qual Cristo escolheu edificar a sua Igreja. A sua palavra, frágil e capaz até de renegar o Senhor, atravessada pelo fogo do Espírito, adquire força, torna-se capaz de trespassar os corações e de mover à conversão. Deus, com efeito, escolhe aquilo que no mundo é frágil para confundir os fortes.



O Espírito opera a atração divina: Deus seduz-nos com o seu amor, e assim nos envolve, para mover a história e desencadear processos através dos quais filtra a vida nova. Só o Espírito de Deus, com efeito, tem o poder de humanizar e fraternizar cada contexto, a partir daqueles que o acolhem



A Igreja nasce, portanto, do fogo do amor, de um “incêndio” que alastra no Pentecostes e que manifesta a força da Palavra do Ressuscitado impregnada de Espírito Santo. A Aliança nova e definitiva [entre Deus e a humanidade] já não se funda numa lei escrita sobre pedra, mas na ação do Espírito de Deus que faz novas todas as coisas e se grava em corações de carne.

A palavra dos apóstolos impregna-se do Espírito do Ressuscitado e torna-se uma palavra nova, diferente, que no entanto se pode compreender, quase como se fosse traduzida simultaneamente em todas as línguas: efetivamente, «cada um ouvia-os falar na sua língua». Trata-se da linguagem da verdade e do amor, que é a língua universal: também os analfabetos podem percebê-la. A linguagem da verdade e do amor, todos a percebem. Se tu avanças com a verdade do teu coração, com a sinceridade, e com amor, todos te percebem. Mesmo que não possas falar, mas com uma carícia, que seja verdadeira e amorosa.

O Espírito Santo não só se manifesta mediante uma sinfonia de sons que une e compõe harmoniosamente as diversidades, mas apresenta-se como o maestro da orquestra que faz tocar as partituras dos louvores pelas grandes obras de Deus. O Espírito Santo é o artífice da comunhão, é o artista da reconciliação que sabe remover as barreiras entre judeus e gregos, entre escravos e livres, para deles fazer um só corpo. Ele edifica a comunidade dos crentes harmonizando a unidade do corpo e a multiplicidade dos membros. Faz crescer a Igreja, ajudando-a a ir além dos limites humanos, dos pecados e de qualquer escândalo.

O maravilhamento é muito, e alguém se pergunta se aqueles homens estão bêbados. Então Pedro intervém, em nome de todos os apóstolos, e relê aquele acontecimento à luz de Joel 3, onde se anuncia uma nova efusão do Espírito Santo. Os seguidores de Jesus não estão bêbados, mas vivem aquela que Santo Ambrósio define «a sóbria ebriedade do Espírito», que acende no meio do povo de Deus a profecia através de sonhos e visões. Este dom profético não é reservado só a alguns, mas a todos aqueles que invocam o nome do Senhor.



Peçamos ao Senhor que nos faça experimentar um novo Pentecostes, que dilate os nossos corações e sintonize os nossos sentimentos com os de Cristo, para que anunciemos sem vergonha a sua Palavra transformadora, e testemunhemos o poder do amor que volta a chamar à vida tudo aquilo que encontra



De agora em diante, o Espírito de Deus move os corações para acolher a salvação que passa através de uma Pessoa, Jesus Cristo, aquele que os homens pregaram no madeiro da cruz, e que Deus ressuscitou dos mortos, «libertando-o das dores da morte». Foi Ele que infundiu esse Espírito que orquestra a polifonia de louvores que todos podemos escutar. De facto, como disse Bento XVI, «o Pentecostes é isto: Jesus, e mediante Ele o próprio Deus, vem a nós e atrai-nos para dentro de si».

O Espírito opera a atração divina: Deus seduz-nos com o seu amor, e assim nos envolve, para mover a história e desencadear processos através dos quais filtra a vida nova. Só o Espírito de Deus, com efeito, tem o poder de humanizar e fraternizar cada contexto, a partir daqueles que o acolhem.

Peçamos ao Senhor que nos faça experimentar um novo Pentecostes, que dilate os nossos corações e sintonize os nossos sentimentos com os de Cristo, para que anunciemos sem vergonha a sua Palavra transformadora, e testemunhemos o poder do amor que volta a chamar à vida tudo aquilo que encontra.


 

Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 19.6.2019
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 19.06.2019

 

 
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