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Igreja passa por «momentos difíceis»: Papa faz balanço de um ano de «tempestades»

O papa delineou hoje um balanço dos principais problemas vividos pela Igreja durante 2018, a par dos seus recursos espirituais inesgotáveis, durante a audiência à Cúria Romana, por ocasião da apresentação dos votos natalícios.

Na primeira parte do discurso, que traduzimos seguidamente, Francisco, dirigindo-se às pessoas consagradas, criticou aqueles que agem como «guardas-fiscais de Deus e não como servidores do rebanho a eles confiado».

Francisco referiu que perante as «tempestades» que assolam a Igreja, há muitos que mantêm a fé, mas não falta quem esteja contente com a situação periclitante da barca e até tenha contribuído para que ela se afundasse.

 

Papa Francisco
Audiência à Cúria Romana
Vaticano, 21.12.2018

Envolvidos pela alegria e pela esperança que se irradiam do rosto do Menino divino, encontramo-nos também este ano para a troca dos votos natalícios, trazendo no coração todos os cansaços e alegrias do mundo e da Igreja. (…)

O Natal é a festa que nos enche de alegria e nos dá a certeza de que nenhum pecado será maior do que a misericórdia de Deus, e nenhum ato humano poderá alguma vez impedir à aurora da luz divina de nascer e renascer nos corações dos homens. É a festa que nos convida a renovar o compromisso evangélico de anunciar Cristo, Salvador do mundo e luz do universo.



A cada ano o Natal recorda-nos, porém, que a salvação de Deus, dada gratuitamente a toda a humanidade, à Igreja e em particular a nós, pessoas consagradas, não age sem a nossa vontade, sem a nossa cooperação, sem a nossa liberdade, sem o nosso esforço quotidiano



Se, com efeito, «Cristo, “santo, inocente, imaculado”, não conhece o pecado e vem apenas com o propósito de expiar os pecados do povo, a Igreja, que compreende no seu seio pecadores e é por isso santa e imaculada ao mesmo tempo que sempre necessitada de purificação, avança continuamente pelo caminho da penitência e da renovação.

A Igreja «prossegue a sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus - o espírito mundano é uma perseguição -, anunciando a paixão e a morte do Senhor até que Ele venha. Da virtude do Senhor ressuscitado extrai a força para vencer com paciência e amor as aflições e as dificuldades, que lhe vêm quer de dentro quer de fora, e para desvelar no meio do mundo, com fidelidade, mesmo que não perfeitamente, o mistério dele, até que no fim dos tempos ele se manifestará na plenitude das luzes».


Muitas vezes até os próprios eleitos, ao caminhar pela estrada, começam a pensar, a acreditar e a comportar-se como donos da salvação e não como beneficiários, como controladores dos mistérios de Deus e não como humildes distribuidores



Por isso, na base da firme convicção de que a luz é sempre mais forte do que as trevas, gostaria de refletir convosco sobre a luz que liga o Natal – a primeira vinda [de Jesus] na humildade – à Parusia – a segunda vinda no esplendor -, e nos confirma na esperança que nunca desilude. Essa esperança da qual depende a vida de cada um de nós e toda a história da Igreja e do mundo.

Seria má uma Igreja sem esperança. Jesus, na realidade, nasce numa situação sociopolítica e religiosa repleta de tensão, agitações e obscuridade. O seu nascimento, por um lado esperado e por outro refutado, resume a lógica divina que não se detém diante do mal, antes o transforma radicalmente e gradualmente em bem, e também a lógica maligna que transforma até o bem em mal, para conduzir a humanidade a permanecer no desespero e nas trevas: «a luz esplandece nas trevas, mas as trevas não a acolheram».


O ser-se cristão, em geral, e para nós em particular o ser-se ungido, consagrado ao Senhor, não significa comportar-nos como um círculo de privilegiados que acreditam que têm Deus no bolso



A cada ano o Natal recorda-nos, porém, que a salvação de Deus, dada gratuitamente a toda a humanidade, à Igreja e em particular a nós, pessoas consagradas, não age sem a nossa vontade, sem a nossa cooperação, sem a nossa liberdade, sem o nosso esforço quotidiano. A salvação é um dom que deve ser acolhido, protegido e feito frutificar. O ser-se cristão, em geral, e para nós em particular o ser-se ungido, consagrado ao Senhor, não significa comportar-nos como um círculo de privilegiados que acreditam que têm Deus no bolso, mas ser-se pessoas que sabem que são amadas pelo Senhor não obstante o sermos pecadores e indignos. Os consagrados, efetivamente, não são outra coisa a não ser servos na vinha do Senhor que devem dar, no devido tempo, o que recolheram e receberam ao Dono da vinha.

A Bíblia e a história da Igreja dão-nos a demonstração de que muitas vezes até os próprios eleitos, ao caminhar pela estrada, começam a pensar, a acreditar e a comportar-se como donos da salvação e não como beneficiários, como controladores dos mistérios de Deus e não como humildes distribuidores, como guardas-fiscais de Deus e não como servidores do rebanho a eles confiado.


A Esposa de Cristo prossegue a sua peregrinação entre alegrias e aflições, entre sucessos e dificuldades, externas e internas. Certamente as dificuldades internas permanecem sempre as mais dolorosas e destrutivas



Muitas vezes – por zelo excessivo e mal direcionado -, em vez de se seguir Deus há quem se meta à sua frente, como Pedro que criticou o Mestre e mereceu a reprimenda mais dura que Cristo alguma vez dirigiu a uma pessoa: «Retira-te, Satanás! Porque tu não pensas segundo Deus, mas segundo os homens».

Caros irmãos e irmãs, no mundo turbulento, a barca da Igreja viveu e vive este ano momentos difíceis, e foi acometida de tempestades e furacões. Muitos deram por si a perguntar ao Mestre, que aparentemente dormia: «Mestre, não te importas que nos percamos?». Outros, atónitos pelas notícias, começaram a perder a confiança nela [na barca] e a abandoná-la; outros, por medo, por interesse, por segundas intenções, procuraram percutir o seu corpo aumentando-lhe as feridas; outros não escondem a sua satisfação por a ver sacudida; muitíssimos, contudo, continuam a agarrar-se a ela com a certeza de que «as portas do inferno não prevalecerão contra ela». Entretanto a Esposa de Cristo prossegue a sua peregrinação entre alegrias e aflições, entre sucessos e dificuldades, externas e internas. Certamente as dificuldades internas permanecem sempre as mais dolorosas e destrutivas.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: D.R.
Publicado em 21.12.2018

 

 
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