Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Igreja católica, entre o sublime da arte e o escândalo da violência

A compaixão com que o ator Peter Falk imbuiu o seu personagem Columbo é uma das melhores características do icónico detetive de homicídios. Quando Columbo apanha o assassino do cantor evangélico Tommy Brown (Johnny Cash) em flagrante, por exemplo, este pergunta por que é que ele não tem medo de o prender sozinho. Columbo responde que o assassino não é puro mal. Ao pôr a tocar, no carro, uma das músicas de Brown, Columbo acrescenta: «Qualquer homem que canta assim, não pode ser totalmente mau».

Esta é uma atitude generosa, embora fictícia de um programa de televisão, que uso quando penso no que pode ser colhido para a Igreja católica a partir da sua riquíssima história cultural durante estes tempos extremamente difíceis. Trata-se de um assunto pessoal, mas não da maneira que se podia esperar.

Numa viagem de uma semana a Roma, no início de 2018, estive em nove missas, inclusive na basílica de São Pedro. Visitei tantas igrejas, que só me apercebi de que estava a repetir visitas quando olhava para as minhas fotografias. Andei numa silenciosa peregrinação católica noturna em Amsterdão; ajoelhei-me diante da edícula na igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém; estive na missa da meia-noite na catedral de Almudena, em Madrid; visitei a igreja católica Regina Mundi no bairro de Soweto, em Joanesburgo, para ver a sua "Virgem Negra"; e de vez em quando vou à missa em latim perto de minha casa, em Washington, D.C. E também escuto frequentemente cantos gregorianos enquanto escrevo ou caminho pelos museus.

Digo isto não para me gabar da minha devoção, especialmente porque não sou cristão. O meu nome hebraico bíblico, que também é o de um ex-primeiro-ministro israelita, pode trair o meu crescimento como judeu ortodoxo. O pensamento de pôr os pés numa igreja, qualquer que fosse o motivo, não me ocorreu até ao último ano do ensino secundário, quando tive que decidir sobre uma viagem de estudo de duas semanas a Paris, onde haveria de contrariar o que me tinha sido ensinado e viesse a visitar as igrejas de Sainte-Chapelle e Notre-Dame.



Os líderes religiosos contemporâneos que traíram a confiança dos seus rebanhos e arruinaram tantas vidas com os seus abusos repugnantes, podem ter parado por vezes para se maravilharem com os tetos altos das suas catedrais, ou para admirarem a maneira como uma janela banhava uma Pietá apenas sob a luz etérea. Ver essa beleza, e os traços divinos nela refletidos, não os impediu de cometerem os seus crimes



Desde então, tenho visto milhares das mais importantes obras de arte e arquitetura católicas, e fui atraído por muitas dessas obras de arte e artefactos, sabendo muito bem quão problemático era o seu contexto para os membros da minha religião. No início de 2018, gostei muito de uma exposição de retratos de Michel Sittow na National Gallery of Art, apesar de saber que o artista estoniano do século XVI era um pintor da corte de Isabel I de Castela. Isabel e o marido Fernando II de Aragão expulsaram os judeus espanhóis em 1492; o seu conselheiro e confessor desde a infância foi o inquisidor Tomás de Torquemada. É difícil imaginar ter uma companhia mais sanguinária do que essa.

Há aqui mais, penso eu, do que apenas a opção pela beleza, por parte de um crítico de arte judeu, em detrimento da fealdade que muitas vezes a concebeu. Assim como Columbo (ficticiamente) respeita os monstros que persegue e inevitavelmente prende, penso que a arte pode expor as crenças bárbaras das culturas e dos tempos que a criaram, e ao mesmo tempo acenar para um bem maior que transcende os criadores imperfeitos. Aqueles que lançaram Cruzadas, apoiaram a Inquisição, lideraram guerras santas e massacraram muitos judeus na Europa medieval, também financiaram alguma da arte mais importantes do cânone ocidental. E isto para não mencionar todos os vilões posteriores - incluindo os nazistas -, que também tinham aficionados da arte entre as suas fileiras. Se o diabo cita as Escrituras, não há razão para rejeitar a sua destreza artística.

Os líderes religiosos contemporâneos que traíram a confiança dos seus rebanhos e arruinaram tantas vidas com os seus abusos repugnantes, podem ter parado por vezes para se maravilharem com os tetos altos das suas catedrais, ou para admirarem a maneira como uma janela banhava uma Pietá apenas sob a luz etérea. Ver essa beleza, e os traços divinos nela refletidos, não os impediu de cometerem os seus crimes. Pedir à arte para fazer o que só Deus pode fazer - tornar as pessoas totalmente novas e dar-lhes um coração novo - é fútil. Mas mesmo a arte financiada por patronos abomináveis pode inspirar outros a fazer e a serem bons. Num tempo em que muitos estão a repensar se veem um lugar para si mesmos na Igreja, a minha intuição, como observador de fora, é que a arte pode sugerir um caminho a seguir.



Muitas pessoas dentro da comunidade em que cresci perguntam-se frequentemente se devem analisar certos cristãos a partir da missão que lhes é dada pela sua fé, ou se há algo de podre no coração do cristianismo que deu origem às Cruzadas, Inquisição, incontáveis ataques contra judeus e libelos de sangue, e o Holocausto



Um temor que tenho é que os objetos materiais transcendentes a que me refiro possam ficar em perigo para pagar as muitas ações judiciais contra a Igreja. Que as vítimas merecem justiça, é inegável. Ponto final. Mas também seria trágico se os amantes da arte em todos os pontos do globo perdessem o acesso, ou tivessem acesso diferente, a arte imensamente importante para pagar os crimes de alguns poucos demoníacos. Esta eventualidade pode ocorrer num tempo em que muitos, mas não todos, jovens são menos atraídos por espaços majestosos de estilo gótico ou renascentista, e em vez disso gravitam em torno de espaços, inclusive sagrados, que são mais digitalizados e minimalistas no design.

A arte sacra pode ser estudada e desfrutada em museus seculares, que geralmente estão mais bem equipados para cuidar da arte do que uma igreja. Mas há algo de mágico num retábulo ou numa pintura religiosa instalada no espaço sagrado para o qual foi projetada. Ver a “Crucificação” de Miguel Ângelo, que eu estudei na faculdade, no seu específico lugar na basílica do Espírito Santo, em Florença, foi uma experiência muito mais incrível do que seria vê-la do outro lado do rio Arno, na Galeria Uffizi.

A instalação num museu pode esterilizar um trabalho e separá-lo do seu contexto original, onde uma escultura de Jesus poderia intencionalmente apontar para uma peça dentro da igreja, ou a proximidade de uma obra a outra poderia ter sido projetada para sugerir uma perspetiva mais profunda. Em suma, os trabalhos religiosos nas igrejas mais excecionais envolvem-se em relações sagradas entre si, numa espécie de sinfonia visual. Embora se mantenham bem a solo quando se mudam para os museus, alguma coisa se perde quando as suas asas são cortadas.

A vida humana é muito mais importante do que os objetos de arte, e tudo deve ser feito para garantir que os jovens e outras pessoas vulneráveis sejam protegidos, e que os criminosos sejam punidos. Para as vítimas, posso entender que olhar para a arte sacra católica pode estar ligado a memórias muito dolorosas, ou simplesmente não ser uma
prioridade. Conheço muitos judeus que nunca vão conduzir carros alemães e não querem ouvir a música de Richard Wagner. Mas no lado oposto, é muito revelador sobre a natureza do mal que uma sociedade que assassinou sistematicamente judeus fosse também capaz de produzir uma música tão boa e carros tão superiores. A demarcação entre bem e mal parece ainda mais precária e aterrorizante se a grande arte puder ser encontrada nos dois lados da fronteira.



Costumo dizer, como piada, que gostaria de me converter ao catolicismo pela arte e, de certo modo, essa é para mim, de cada vez, uma espécie de conversão estética



Estou a escrever este artigo num tempo em que judeus por todo o mundo ainda se estão a recuperar do tiroteio numa sinagoga em Pittsburgh [27.10.2018], onde fiéis foram mortos simplesmente por serem judeus. Isto tem sido uma questão recorrente em toda a história judaica, e estou ciente de que os cristãos, muitas vezes em nome da sua fé, mataram tantos judeus, que é impossível contar quantos. Isto inclui Hitler, embora, obviamente, os seus pontos de vista sobre a religião não fossem, de todo transparentes. Muitas pessoas dentro da comunidade em que cresci perguntam-se frequentemente se devem analisar certos cristãos a partir da missão que lhes é dada pela sua fé, ou se há algo de podre no coração do cristianismo que deu origem às Cruzadas, Inquisição, incontáveis ataques contra judeus e libelos de sangue, e o Holocausto

A minha impressão, no seguimento das minhas leituras e estudos, é de que essas pessoas estavam a interpretar mal ou a agir contra a sua fé, em vez de o antissemitismo estar no centro dela. É também essa a minha impressão sobre os muitos assassinos que disfarçaram as suas intenções derivando-as da sua fé islâmica. Muitos criminosos religiosos (de todas as fés) provavelmente acreditam que estão a fazer o que lhes foi divinamente ordenado quando assassinam e cometem uma série de outros crimes hediondos. Mas sou capaz de continuar a admirar a grande arte católica - até mesmo a arte católica antissemita - porque não acredito que o antissemitismo seja intrínseco.

Poderia haver aqui uma disputa filosófica sobre esta última afirmação, mas a verdade é que quando me sento nos bancos e me perco numa grande catedral medieval, sinto, em vez de pensar, que esse é um espaço onde me sinto confortável. Para alguém que geralmente pensa primeiro e sente depois, essa foi uma revelação para eu compreender. Não sei se diria que me sinto na presença de Deus, “per se”, mas estou muito consciente de que estou em solo sagrado, o que me inspira a querer sossegadamente entrar em introspeção, confessar (de uma maneira que desnuda quem eu sou e quem eu quero ser), e melhorar. Costumo dizer, como piada, que gostaria de me converter ao catolicismo pela arte e, de certo modo, essa é para mim, de cada vez, uma espécie de conversão estética.



Estas pessoas encomendavam pinturas de si mesmas subservientes a um poder superior. Nem sempre viveram de acordo com esse padrão, como pessoas decaídas que viviam num mundo decaído, mas isso não significa que o padrão, dada a brilhante forma estética dos artistas, que muitas vezes eram monges, não fosse bom e não merecesse contemplação



Comecei a escrever sobre a interseção entre religião e arte porque estava firmemente convencido de que a arte apresenta um vocabulário visual menos divisivo, com o qual se podem iniciar conversas, inclusive sobre temas controversos e dolorosos. Quando a arte religiosa abre uma porta, a discussão pode tomar depois outros rumos importantes e interessantes. Mais de 15 anos depois, ainda estou convencido de que assim é, e penso que a arte católica pode ser um ponto de entrada útil para muitos judeus pensarem de maneiras novas e diferentes sobre a Igreja. Também considero que pode ajudar muitos católicos a pensar de outras formas sobre as suas próprias tradições e valores.

Quando os católicos de hoje estão a decidir sobre que lugar, se há algum, querem e desejam na Igreja, e como é que a Igreja será daqui para frente, penso que a sua rica história da arte pode ajudar a olhar para além dos ofensores individuais e ter uma visão mais alargada da fé. É fácil dar por certo o quanto os artistas católicos deram ao mundo. Eles ajudaram-nos a imaginar como é que os anjos se parecem; construíram algumas das arquiteturas mais importantes; e ajudaram-nos a associar encontros com o transcendente com um raio de sol a brilhar, como um holofote projetado sobre um santo ou qualquer pessoa. Eles não apenas sonharam com que é que o Céu se parece, com todo o seu esplendor e glória à volta de Cristo no trono, mas também conceberam um inferno, com todo o seu choro e ranger de dentes.

As boas pinturas medievais católicas são tão firmes no seu simbolismo, onde tantas decisões sobre cor e forma animam tanto significado, que são poéticas. Essa barreira de entrada pode ser muito alta para muitas pessoas, mas a minha experiência tem sido a de que o preço vale a pena. Ao longo do caminho, muitos patronos católicos - dos papas aos Medici - tinham em mente propaganda que os glorificava a eles próprios, e há motivo para grande ceticismo sobre o poder político, o narcisismo e o egoísmo que sustentaram muitos dos tesouros religiosos que estão hoje em museus e igrejas.

Mas os patronos e artistas também glorificaram Cristo. Uma das invenções mais maravilhosas dos artistas católicos, para mim, é a cena bíblica que se desdobra com os doadores [financiadores] ajoelhados em oração. Pode haver uma Virgem e um Menino entronizados na posição central, enquanto que representações menores dos doadores estão em adoração, nos cantos da pintura. Faziam parte do 1% que pagava bom dinheiro para ser retratado ao alcance de Jesus, o que é inegavelmente arrogante. Mas o movimento também é doce e humilde. Estas pessoas encomendavam pinturas de si mesmas subservientes a um poder superior. Nem sempre viveram de acordo com esse padrão, como pessoas decaídas que viviam num mundo decaído, mas isso não significa que o padrão, dada a brilhante forma estética dos artistas, que muitas vezes eram monges, não fosse bom e não merecesse contemplação. E ainda é.


 

Menachem Wecker
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: F.C.G./Bigstock.com
Publicado em 12.03.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos