Poesia
A noite abre os olhos de José Tolentino Mendonça
O livro "A noite abre meus olhos”, poesia reunida de José Tolentino Mendonça, foi apresentado esta 2.ª feira, 25 de outubro, em Lisboa.
Depois da leitura de seis poemas por Jorge Vaz de Carvalho, o religioso dominicano e professor universitário José Augusto Mourão leu o texto que transcrevemos na íntegra.
A noite abre meus olhos - Em volta da poesia reunida de Tolentino Mendonça
“Ce sont les dieux qui nous font parler. Le langage est divin en ce qu’il vient du dehors et retourne vers lui, vers ce dehors qu’il ouvre lui-même en nous, nous ouvrant la bouche, et dans le monde au milieu duquel il ouvre ce signe étrange, ‘l’homme’ “(Jean-Luc Nancy)
“a obscuridade brilha para lá
da própria enseada” (Tolentino Mendonça)
« L’oscurità, la notte, fa sì che i non visibili siano tali…La notte avvolge i non visibili, i non apparentia. » (Emanuele Severino)
Não estou aqui para falar de ou sobre, mas para responder a. Para escutar. De modo mais agónico que plácido - os livros (que nos tocam) abrem noites de combate de onde raramente se sai indemne. Estou aqui para entrar na noite – porque esse é o espaço da experiência mais vezes convocado – com a pouca luz dos pirilampos com que se ousa atravessar o escuro. Para trocar, diria M. G. Llansol: “No fundo, o que eu acho mais magnífico no humano, é que o humano é um trocador. O humano que não é um trocador é um pobre humano, porque ele está feito para ser um trocador”[1] . Um tradutor, digamos. Estou para perguntar em que direcção caminham estes versos. Também para contrariar aquilo a que a linguagem académica chama o “estado da questão” e que é, muito frequentemente, a constatação da morte clínica do apelo. “Há críticos que examinam as palavras mais frequentes num livro e as contam! Procurai antes as palavras que o autor evitou, de que estava muito perto, ou claramente afastado, estranho, ou de que tinha pudor, enquanto outras faltam.” [2] Não farei lexicometria: o sentido não está nas palavras, mas no seu curso (no discurso).
Li pois, este livro, como quem ouve e é instado a responder. Sabendo que o conteúdo da palavra é inseparável do apelo, qualquer que seja a forma de expressão em que nos chega: oração, invocação, dedicação, saudação. Escutar é o primeiro acto de fala, que implica o carácter recebível daquilo que escuto. Respondo a partir daquilo que escuto: “Quando escuto (…), o discurso fala-se em mim; interpela-me, envolve-me e a tal ponto me habita que deixo de saber o que é de mim, e o que é dele.” [3] . A vida da palavra, como lembrava Bakhtine, é a sua passagem de um locutor a outro, de um contexto a outro, de uma colectividade social, duma geração a uma outra. Se toda a linguagem é palindrómica, então toda a linguagem é endereço e apelo. O apelo a ouvir inscreve-se no livro: “Se me puderes ouvir” (TM: 115). Mais grave ainda, se confrontados com a heurística, os performativos e a semiótica das paixões para que, por exemplo este sintagma aponta: “Por vezes é tão criminoso/não percebermos/uma palavra, uma jura, uma alegria” (TM: 88). Este apelo traz-me de volta o salmista e aquela passagem: “se ouvires hoje a voz”. Os livros são como as belas adormecidas que esperam para acordar o charme (isto é o canto, carmen!) de uma nova voz.
A linguagem é um vivo a que se responde. Ora a vida enraíza-se essencialmente no tocar fundamental. Um poema ouve-se. Vê-se. Toca-se. O artista é antes de mais uma mão (Riegl). Greimas, no seu admirável De l’imperfection (1987: 30) diz-nos que “o tocar é mais do que a estética lhe quer reconhecer – a sua capacidade da exploração do espaço e a sua tomada a cargo dos volumes -, situa-se entre as ordens sensoriais mais profundas, exprime proxemicamente a intimidade optimal e manifesta, no plano cognitivo, o querer de conjunção total”. A poesia futurista, e depois concreta hoje, na forma do ciberpoema, vê-se e desaparece. Como um feito do fogo (da electricidade): esse único recitador: “Ah tenho saudades de Alexandria/ onde os poemas se escreviam/para o fogo/o único recitador perfeito/que não se repete” (TM: 54). Como os poemas de leitura única de Philippe Bootz. Que pode ligar a imagem e o fogo: engano, destruição, enjeite? A sua dimensão plástica, as suas propriedades infra-figurativas ou infra-icónicas? Porque pede então o poeta uma resposta: “diz se toda a imagem é engano/ou filha enjeitada/do fogo”? (TM: 18).
Não vou comparar estes versos com outros versos, este poeta com outros. Não reconheço Escola nem angústias de influência no poeta que assina estes versos. O comparatismo humilha e exalta – antiquíssima lógica essa que hieraquiza e desingulariza. A poesia é única, como o amor perfeito é único. Só importa o fórico que transporta. Compará-la é diminui-la. O acto de leitura dos textos literários supõe, antes de mais, o reconhecimento obrigatório, mas tantas vezes abandonado, que um texto é um texto, isto é uma construção de linguagem – lugar da emergência e da articulação do sentido. A significação ganha na linguagem uma consistência própria, irredutível à de um simulacro da realidade. Porque a ultrapassa, a excede. Não se aborda um texto para perguntar que ideias o autor desenvolve, mas para inquirir de que experiência particular ele fala, de que relação ao mundo, à phusis ele trata. Não há apenas o logos, anterior a nós, as coisas são os nossos interlocutores. Sem o corpo que regista ou transcreve, que ficaria a assinalar a nossa passagem? Sem um corpo “paciente” (que faz a experiência dos afectos) e um corpo “agente”, que indícios restariam da autobiografia camuflada que cada um escreve? [4] .
A melhor aproximação de um livro de poemas deveria ser como o gesto da mãe “que punha e dispunha flores” (TM: 15). Pôr e dispor, compor, esse é o ofício do poeta, que é um compositor. Ora, o que se procura nas flores é o cromatismo, o cheiro, o esplendor do dia, não essências, destilações metafísicas ou descrições do mundo. O fim do “verão” anuncia “uma espécie de abandono sem socorro” (TM: 91). Nenhuma metafísica preside ao cair das folhas. É para as coisas que nos temos de voltar, porque as coisas falam. Sem as coisas nada teríamos a dizer nem a pensar. Sem a matéria “viveríamos inertes, estagnantes, pueris, ignorantes de nós mesmos e de Deus” [5] .
O espaço da noite é nesta escrita a tópica do sensível. É no seu bojo que as “fantasias da intimidade material” de Gaston Bachelard se inscrevem como silêncio, medo, clareiras, estrada branca ou naufrágio. O poeta sabe que “Os fantasmas do sonho, do mito, as imagens favoritas de cada homem ou enfim a imagem poética não estão ligados ao sentido que têm por uma relação do signo com a significação, como aquele que existe entre um número de telefone e o nome do assinante; fecham o seu sentido a sete chaves, um sentido que não é nocional, mas uma direcção da nossa existência” [6] . Os lugares aqui nomeados não designam apenas o “génio do lugar”, “a “alma do lugar”, mas assinalam a fusão corpo/espaço em movimento, dilatado e expansivo (“atravessamos a noite com uma vontade irreprimível de cantar” TM: 241), de orientação e de perspectiva.
Há nesta escrita aquilo a que Y. Lotman chama metatextos: (a literatura) “No mais alto escalão da organização, segrega um grupo de textos” de nível mais abstracto do que o de toda a massa restante de textos, quer dizer, metatextos [7]”. Um exemplo: “O poema éum exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia...O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia” (TM: 202). O que importa não é definir o que é o poema, mas onde e quando. Como o corpo, que só existe onde opera. O poema é um vivo. É um tumulto que pode abalar (TM: 11). “Se a maioria dos poetas visse a poesia como drama e combate, não fazia poesia”…”Porque nós vemos que a noção de poético, a noção habitual de poético, é terrível, porque é sentimental…” [8] .
“O verdadeiro artista é uma extraordinária fonte luminosa”; “O verdadeiro artista ajuda o mundo ao revelar verdades místicas”, diz Bruce Nauman. O espaço do nosso poeta é, todavia, o espaço da noite, não o espaço do mistério, como realidade secreta. Não se procure nestes versos a claridade, a métrica, a visão clara – o seu lugar é obscuro (TM:21) porque também nós somos obscuros (TM: 24). Quem tem medo do obscuro? Deixai-me citar Paul Celan: “Mesdames et Messieurs, il est aujourd’hui passé dans les usages de reprocher à la poésie son «obscurité». — Permettez-moi, sans transition — mais quelque chose ne vient-il pas brusquement de s’ouvrir ici? —, permettez-moi de citer un mot de Pascal que j’ai lu il y a quelque temps chez Léon Chestov: «Ne nous reprochez pas le manque de clarté puisque nous en faisons profession!» - Sinon congénitale, au moins conjointe-adjointe à la poésie en faveur d’une rencontre à venir depuis un horizon lointain ou étranger — projeté par moi-même peut-être —, telle est cette obscurité.” [9]
É difícil entrar no espaço da noite, como sabia Merleau-Ponty: “Quando o mundo dos objectos claros e articulados é abolido, o nosso ser perceptivo amputado do seu mundo desenha uma espacialidade sem coisas. É o que acontece na noite. Ela não é um objecto diante de mim, envolve-me, penetra todos os meus sentidos, sufoca as minhas memórias, apaga quase a minha identidade pessoal....A noite não tem perfis, ela mesma me toca e a sua unidade é a unidade mística do mana.” [10] Os versos deste livro adentram-se na noite dentro (TM: 21), erguem-se da escuridão: “o restolhar de prata da folhagem/previne do passo do anjo, na escuridão” (TM: 186), não da luz. O anjo vem do escuro, um anjo toda a noite segue aquele que no texto diz “eu”, é a escura seta do anjo que desloca os sinais. Paradoxalmente, os poemas não procuram a luz. A dimensão fórica das metáforas remete-nos para espaços tensivos em que se inscrevem de maneira espectral ou agonística os valores dos nossos afectos e dos nossos perceptos. É a navalha da noite que rasga o caminho a quem a poeta pede: “Não avances tão depressa, minha noite” (TM: 166). A base aspectual da noite permite adivinhar fases de um processo: “anoitecer” define uma aspectualidade marcada por um movimento e uma velocidade incontidas: a rapidez da noite avança sem que o poeta possa domá-la. Como o silêncio de Deus: “O teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços” (TM: 176).
A poesia aparece hoje como uma nova religião, não a religião da arte, mas como prática duma ligação com o absoluto que advém ao instante e à finitude. Dizia um grande poeta, Yves Bonnefoy: “La poésie m'intéresse dans la mesure où elle se tient au plus près de la théologie”. Não se procure, porém, na poesia de Tolentino Mendonça um qualquer vislumbre teológico – nenhum nome serve para dizer Deus. Nem sequer é já possível encontrar Deus pelos baldios (TM: 213). E o saber dos anjos que povoam estes versos é um saber frágil. O anjo vem do escuro (TM: 70). Como pedir-lhes uma palavra luminosa? Fica-nos a traçabilidade do nome, os restos. “Deus não aparece no poema/apenas escutamos a sua voz de cinza/ e assistimos sem compreender/ a escuras perícias” (TM: 213). Para quê apegar-se “à reconstrução lenta e minuciosa/daquilo que sem deixar traço algum/se afasta”? (TM: 121) Fica-nos a decepção de quem procura índices da passagem do deus: “Abristes o caminho através do mar/uma rota no fundo das águas/ e ninguém descobriu os vossos vestígios” (Sl 76). Dizer “Deus” basta para nos fazer constatar a sua característica primeira, radical e definitiva – a inacessibilidade [11] . O verdadeiro artista recusa-se a dizer apenas o que pode ser dito (TM: 91). O poeta sabe que entre o dito e o dizer há um abismo: o mundo ainda não foi totalmente dito, o sentido é uma estrada branca. O dizer responde a um apelo, mas o dito responde sempre também a uma outro dito. Donde a necessidade por vezes de desdizer para reencontrar o apelo.
Talvez que a melhor chave de entrada neste livro de poesia reunida de Tolentino Mendonça seja o exergo que assina um dos príncipes da cultura dos anos 80, Michel de Certeau, que abre este livro: “Na sua miséria, a teologia olha para a porta”. Sim, a teologia parece um castelo com ameias altas, pontes levadiças, cárceres, guardas que vigiam o claro e o escuro dos seus enunciados. A teologia visa a claridade. O seu gesto é aquele conhecido de todas as modernidades: apagar a impureza, exorcizar o híbrido. O gesto de TM está para lá do fito que a teologia persegue: “Abraçar a impureza que o mundo repudia”. Melhor é não pedir ao dogma a luz para sair da noite. Razão tem Lucien Jerphagnon: “Inquieta-me muito quando vejo o como se esfalfaram para construir os dogmas… Quando colamos sobre o misterioso conceitos filosóficos, chegamos a pequenos monstros racionalmente concebidos, e tenho muita dificuldade em retirar daí o que quer se seja” [12] . Não é assim a mística. Há mesmo quem se considere agnóstico místico ou crente apofático, à maneira do Pseudo-Denis ou Eckhart pelo que de “monstruoso” contêm os dogmas. Nada que já não soubéssemos: “Os místicos cavam as abertas e atrás deles, os seus discípulos erguem os muros, uma cerca doutrinal, regulamentar e geográfica” [13] . O místico é um animal nocturno. A mística é a impressão súbita de uma imensa abertura. O pior é que os homens procuram Deus “pela” sua utilidade. Não faças de Deus “uma vaca de leite” diz-nos Eckhart, então ele te encherá de bem, mais do que de leite este bem é Ele mesmo. No Sermão 1, “Intravit Jesus in templum” explica-nos que o templo não é o de Jerusalém, mas o da alma. É preciso esvaziar o templo, enxutar os mercadores, ou continuamos no mercantilismo e na lógica do do ut des. A khôra grega era a pura receptividade. É daí que o poeta fala. No fundo da alma está-se no “sem porquê”. Vive-se sem justificação consolante, livre. Procurar sem porquê: Deus é a verdade do verdadeiro e a vida dos viventes. Afinal não é esse o trabalho do artista, que opera o escultor, Giacometti, v.g. ou trabalho de despojamento e de ultrapassagem da linguagem que opera o poeta com vista a atingir a presença?
A poesia apaga as figuras parciais, encontra o silêncio nas palavras e pressente a unidade das palavras e das coisas. A poesia (no criador e no leitor) é oferecida à iniciativa. A atitude última é, pois, o acolhimento – a passividade. A diferença entre poesia e fé é que o crente é abordado por um Outro e o momento decisivo não é seu. O místico atinge o “silêncio na palavra”; o artista pensa o ilimitado, mas sempre no interior da linguagem. O seu gesto maior é impedir que se reconstitua a luz de um cosmo metafísico que paira e anula a passagem, anulando-nos como passantes e que pretende atar-nos aos altares, aos templos e aos livros. A poesia vive na tensão e na distância entre o sentido e o som, como R. Jakobson genialmente a definiu “O poema, hesitação prolongada entre o som e o sentido”. O espaço do poema é feito de flexibilidade e de instabilidade. A espacialidade separa, une, agrega; incorpora todas as redes estésicas; os seus dispositivos suscitam a interpretação. A vida é um processo de actividades e de passividades: a oração, a escuta, o sofrimento, o prazer, a alegria que nasce em nós da alegria que o outro sente, assinalando em nós o grande silêncio da passividade que ara a terra que somos. Agamben vê o fim do poema como o catéchon da carta de Paulo aos Tessalonicences (2, 7-8): “algo que refreia e retarda a chegada do Messias, isto é, daquele que, realizando o tempo da poesia e unindo os dois eóns, destruiria a máquina poética precipitando-a no silêncio” [14]. Mas a poesia vive sobretudo do movimento das paixões, que têm uma estrutura ternária: supõe concatenadas a acção, a paixão, a acção. E este livro é uma excelente introdução a uma semiótica das paixões.
Coda
A perda faz falar ou escrever. Ao corpo ausente substitui-se então uma palavra a dizer e a ouvir. Que vejo, se a noite me abre os olhos? Figuras do desejo, sempre clandestinas. A noite instaura uma ruptura entre o visível e o figural. Por trás da noite, no seu manto, um jogo de sombras dissimula a passagem dos anjos e dos perdidos.
“Pela neve sem rasto
Caminhou
Aquele que busca um amor” (TM: 160)
Tolentino Mendonça é um passador da noite. O seu nomadismo passa pelos diversos títulos de cidades, de lugares e não-lugares que compõem esta escrita. A que é votada a palavra excessiva? Que tema é o seu? O sem-razão (Eckhart), o fortuito, o errático. Ora, o nómada, dizia Deleuze, subordina o “ponto” no espaço ao “trajecto”. Só o salmista diz a graça durante o dia e a confiança durante a noite. A ele a noite promete o dia, apesar do que parece contrariar a alternância do dia e da noite, do eros e do cosmos. A ele é prometido o raio que arranca à noite as formas e as presenças disponíveis que a luz esclarecerá. A nós falta-nos a terra, os baldios sem arame farpado, o ainda não dito, a passagem. As palavras serão sempre mais altas e mais fortes do que nós no combate para as domesticar. Caio sobre o verso que a meus olhos mais brilha “O amor é uma noite a que se chega só” e fecho os olhos, rendido a este verso (e a este livro).
RM/SNPC
[1] Maria Gabriela Llansol in O que é uma figura? (org.) João Barrento, Mariposa Azual, 2009, p. 116.
[2] H. Michaud, Poteaux d’angle, Paris, 1981, p. 82.
[3] M. Merleau-Ponty, La prose du monde, Paris, 1969, p. 28-29.
[4] Jean Claude Coquet, Phusis et Logos. Une phénomenologie du langage, Presses Univ. de Vincennes, 2007, p. 197.
[5] P. Teilhard de Chardin, Écrits du temps de guerre, Paris, 1976, p. 478.
[6] Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Gallimard, 1945, p. 329.
[7] Iuri M. Lotman, La Semioesfera I, Semiótica de la cultura y del texto, ed. Desiderio Navarro, Frónesis, Valencia, 1966, p. 168.
[8] M.G. Llansol, in O que é uma figura? (org.) João Barrento, Mariposa Azual, 2009, p. 60.
[9] Paul Celan, Le Méridien, Seuil, La librairie du 21e siècle, 2002, p. 72-73.
[10] Ibidem, p. 328.
[11] Jean-Luc Marion, Certitudes négatives, Paris, Grasset, 2010, p. 87.
[12] Lucien Jerphagnon, in Luc Ferry et Lucien Jerphagnon, la tentation du christianisme, Paris, Grasset, 2009, p. 118.
[13] Régis Debray, “Grand entretien”, Le Monde des Religions, mars-avril 2009, p. 79.
[14] G. Agamben, La Fin du poème, Circé, 2002, p. 137.
José Augusto Mourão
INL / ISTA
© SNPC |
27.10.10

Autor
José Tolentino Mendonça
Editora
Assírio & Alvim
Ano
2010
Páginas
256
Preço
13,50 €
ISBN
978-972-371-1332

















