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Herman Melville: Mergulhador da alma humana

Rigor e desobediência, disciplina e rebelião: dois núcleos e quatro alicerces sobre os quais se apoia a narrativa de Herman Melville, de quem, a 1 de agosto, se assinalam os 200 anos de nascimento.

Os dois polos são incarnados pelo capitão Ahab, protagonista de “Moby Dick”, e Bartleby, o escrivão da narrativa homónima. Não há contradição na focalização, da parte do escritor norte-americano, no inflexível Ahab e no escorregadio Bartleby, mestre em subtrair-se ao dever, brandindo como se fosse uma espada o seu moto pessoal, «I would prefer not to» (preferia não), quando lhe é pedido pelos superiores para realizar funções do seu ofício. Em Melville é poderosa a vontade de sondar em todos os seus aspetos a alma humana, até aos cantos mais recônditos.

A sua análise aspirava a ser exaustiva, porque a tarefa da literatura é investir, na dimensão dialética, todas as facetas da realidade. Eis então que os mil rostos de uma única identidade se espelham, de tempos a tempos, em Ahab e Bartleby.

A figura do escrivão, menos conhecida do imaginário coletivo em comparação com a do celebérrimo capitão do navio “Pequod”, representa, na realidade, um ícone de grande relevo no panorama da literatura mundial. Nele se reconhece o modelo do empregado intolerante do cinzentismo de um quotidiano anódino, lodoso e sem agudeza. Ao mesmo tempo, Bartleby – que evoca algumas criações imortais de Balzac – configura-se como o símbolo de um dissenso, não vociferado, mas nem por isso menos perentório. Solicitado pelo seu dador de trabalho a realizar trabalhos que estão para além do seu âmbito de competência, Bartleby opõe uma recusa inoxidável: uma recusa que não vacila e permanece sólida, mesmo através de complexas dinâmicas que o conduzirão à prisão, onde se deixará morrer de fome. Há muito de autobiográfico nas vicissitudes de Bartleby, considerando que Melville acusava uma intolerância cada vez mais corrosiva para com as malhas impostas por uma sociedade consumista, culpada de virar as costas à dimensão ética do viver civil.



No ato de sulcar as insidiosas águas do oceano Pacífico, entretecem-se as meditações sobre os valores da verdade e da justiça. É o narrador Ismael que dá alma e substância ao denso debate, ele que é “alter ego” de Melville, e que se configura, com o seu tom ao mesmo tempo distante e participante, como uma das vozes mais poderosas e penetrantes da literatura mundial



Toda a obra de Melville nasce de uma inquietação crónica que encontra a exemplificação perfeita no capitão Ahab, inquieto dia e noite, sem soluções de continuidade, na desesperada e obsessiva caça à baleia branca. Assim escrevia Melville numa carta a Evert Duyckinck, consultor da editora de Nova Iorque para a qual tinha publicado: «Há em cada homem que se eleva acima da mediocridade alguma coisa que se percebe principalmente por instinto. Gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso uma grande baleia para descer a oito mil metros ou mais, e se esta não consegue tocar no fundo, então todo o chumbo de Galena não é suficiente para forjar a sonda capaz de o fazer». Com estas asserções que se elevam ao estatuto de manifesto literário, Melville faz referência a todo o corpo dos «mergulhadores do pensamento» que tiveram a coragem de imergir até ao fundo, para depois voltar à superfície «com os olhos raiados de sangue desde que começou o mundo».

São os mesmos olhos do capitão Ahab, cujo microcosmo – habitado pela sede de vingança, pelo medo do ignoto, como também pela genuína maravilha pelos inefáveis espetáculos da natureza – se alarga até se tornar macrocosmo, ou condição do sentir universal. Por isso, o atormentado caminho de procura da baleia é cadenciado por iluminadoras reflexões, de caráter filosófico e científico, sobre grandes temas da existência.

No ato de sulcar as insidiosas águas do oceano Pacífico, entretecem-se as meditações sobre os valores da verdade e da justiça. É o narrador Ismael que dá alma e substância ao denso debate, ele que é “alter ego” de Melville, e que se configura, com o seu tom ao mesmo tempo distante e participante, como uma das vozes mais poderosas e penetrantes da literatura mundial. Nessa voz parece ecoar a missão de Horácio, chamado a transmitir aos vindouros a triste vicissitude de Hamlet, e a edificante mensagem a ela ligada. E o “silêncio” de Hamlet é o mesmo silêncio que acompanha o afundamento do “Pequod” e a morte do seu capitão e de toda a tripulação. Só Ismael conseguirá salvar-se.


 

Gabriele Nicolò
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 30.07.2019

 

 
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