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Grande Jubileu de 2000: 20 anos depois, o rasto da Igreja em saída

Os batentes das portas santas das quatro basílicas maiores, a começar por S. Pedro, foram fechadas a partir do dia da Epifania de 2001. O Grande Jubileu do ano 2000 introduzia-se assim, como a marcar os primeiros passos, no terceiro milénio que lhe era dado como horizonte. Mas as escassas folhas do calendário a seguir ao ano dois mil não mudaram o sentido e a substância de um acontecimento que diz tanto respeito à Igreja como – se não mais – ao mundo e à história contemporânea. Tem vinte anos o Jubileu que acompanhou a humanidade no novo século e no novo milénio, mediante um evento que fez sentir-se privilegiada a geração à qual coube a emoção de o poder viver.

A essa peregrinação de séculos a Igreja tinha chegado como diante de uma condição que, descrevendo a própria existência como um caminho, repropunha toda a sua história como o «diário vivo de uma peregrinação nunca terminada». Era esta a visão oferecida não só pela sequela dos Anos Santos ao longo dos séculos, desde aquele que foi celebrado no terceiro, anunciado por Bonifácio VIII («um meteoro no céu tempestuoso da Europa cristã»), mas ainda mais pelo papa providencialmente chamado a realizar a grande passagem do milénio. Com João Paulo II, a história, se assim se pode dizer, foi associada ao magistério pontifício. «A este ano santo 2000, tinha eu pensado como uma data importante, desde o princípio do meu pontificado. Tinha entrevisto esta celebração como um momento providencial em que, trinta e cinco anos depois do Concílio Ecuménico Vaticano II, a Igreja seria convidada a interrogar-se sobre a sua renovação para assumir com novo impulso a sua missão evangelizadora», escreveu na carta “Novo millennio ineunte”.



Também as armas, em muitas partes do mundo, retomaram a sua terrível palavra. E a marca registada deste vinténio, a globalização, continua a distribuir os seus ganhos na mesma direção, aquela que os pobres desconhecem



Na era da comunicação instantânea e da internet, 20 anos equivalem a uma mudança de época, e por isso é lícito questionar qual é hoje a herança daquele que, pelo menos em termos mediáticos, representou, logo depois do Concílio, o maior acontecimento da Igreja contemporânea. Há os números, e bastaria a ininterrupta sequela de “Dias” com celebrações dedicadas, quase todos os domingos, a categorias específicas – a começar pelas crianças, mas como esquecer o majestoso encontro dos jovens em Tor Vergata, Roma –, ou aos grandes temas, como o próprio Concílio, a purificação da memória e o perdão, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, as testemunhas da fé, a caridade e a justiça, para dar conta de uma dimensão que por si só a atualidade noticiosa não consegue sequer considerar.

Havia, temido por muitos, o risco de um gigantismo organizativo, de uma quermesse da fé, mas o que em vez disso ocorreu – também devido à orientação eminente e atenta dos responsáveis máximos operativos, o desaparecido cardeal Roger Etchegary e o então arcebispo Crescenzio Sepe – foi a ternura de uma Igreja que toma pela mão o mundo para o acompanhar ao umbral de um novo milénio. Os números, depois, dizem ainda menos perante a um ambiente que, desde todo aquele ano 2000, se tornou sentida nostalgia: porque realmente pareceu – melhor, aconteceu – que aqueles dias, até ao cumprimento do ano, foram os dias – e o ano – do repouso, da quietude restituída tanto aos seres humanos quanto à Terra, precisamente como um inesperado e repentino respiro bíblico de liberdade e de libertação.



Que se tratava precisamente – e apenas – de uma trégua foi muito claro assim que se ultrapassou o limiar do milénio, quando não o “jobel” mas a “última hora” das televisões generalistas e as poderosas redes sociais anunciaram e puseram diante dos olhos do mundo o limite extremo do terrorismo e da violência



O maravilhamento, cada vez mais vivo com o passar do tempo, tem ainda mais força hoje, perante um mundo que, daqueles dias e daquele ano em diante, tomou outro rumo, lançando diante do caminho do homem todos os detritos de uma deriva que torna demasiado semelhante, mesmo na diversidade dos problemas e dos desafios, este primeiro vinténio do milénio, àquele do século passado, vigília de catástrofes colossais pela tirania de sistemas políticos anti-humanos (e de que resistem escórias ainda não assimiladas).

Olhando das desorientações e das inquietações de hoje, o ano 2000 foi na verdade um ano de trégua, como o proclamado pelo soar do “jobel”, o corno de carneiro que, em Levítico 25,9 anunciava o ano jubilar. Em sentido moderno, esse “repouso” das armas em muitas partes do mundo, esse renovado e mais acolhido chamamento à justiça e à dignidade individual, sobretudo a tendência de acontecimento insolitamente avaros quanto a recorrentes tragédias ou devastações pela mão da natureza e do ser humano, transformou-se, de maneira até inconsciente, num planetário e comovente ato de homenagem à passagem de um milénio para outro. Foi como se o mundo tivesse parado, tomado pelo espanto e pela grandeza de um ato que lhe dizia respeito em primeira pessoa e ao vivo.

Que se tratava precisamente – e apenas – de uma trégua foi muito claro assim que se ultrapassou o limiar do milénio, quando não o “jobel” mas a “última hora” das televisões generalistas e as poderosas redes sociais anunciaram e puseram diante dos olhos do mundo o limite extremo do terrorismo e da violência. Era o 11/9, a página horrível que conseguiu obscurecer, amplamente, até a esperança. Todo o mal daquele dia conseguiu manchar, como de uma venenosa contaminação se tratasse, o prosseguir do tempo, cada vez mais marcado por uma violência de múltiplos rostos.

Fez-se tragédia as transmigrações dos povos, e quem se pôs a caminho para procurar liberdade e paz, ou simplesmente pão, encontrou demasiadas vezes, sob os seus passos, a morte. A queda do Muro de Berlim parecia como que uma primeira brecha jubilar rumo ao terceiro milénio, uma “porta laica” que cedia sob os golpes invisíveis, mas poderosos e fortes, de uma nova esperança. Mas eis que depois acontece o contra-ataque de outros muros e barreiras, eis as fronteiras como recinto de um soberanismo que tira espaço e respiração a povos e países. Também as armas, em muitas partes do mundo, retomaram a sua terrível palavra. E a marca registada deste vinténio, a globalização, continua a distribuir os seus ganhos na mesma direção, a mesma que os pobres desconhecem.



No limiar de cada porta santa, a Igreja fala com maior solenidade ao mundo, e está mais vivo que nunca aquele «duc in altum!», a exortação a “fazer-se ao largo”, que se tornou como o testemunho entregue à Igreja do terceiro milénio



Se no plano teológico, como várias vezes sublinhado por João Paulo II, o Grande Jubileu de 2000 evocava o Concílio, na vertente pastoral só se pode ligá-lo, hoje, ao Jubileu extraordinário da misericórdia, apontado pelo papa Francisco em 2015. Para grandes males – e na realidade assim o são aqueles que o novo milénio colocou aos nossos olhos –, grandes remédios: precisamente a misericórdia, indicada como uma urgência dos tempos, oferecida como amor sem critério, a não ser o de nunca se dar por vencido e evitar toda a forma de resignação.

No limiar de cada porta santa, a Igreja fala com maior solenidade ao mundo, e está mais vivo que nunca aquele «duc in altum!», a exortação a “fazer-se ao largo”, que se tornou como o testemunho entregue à Igreja do terceiro milénio. Logo depois fechar a Porta Santa da basílica de S. Pedro, João Paulo II, do altar da missa, assinou em direto, diante da assembleia dos fiéis – como uma modalidade totalmente inédita na história dos pontificados – a carta apostólica “Novo millennio ineunte”. Juntamente com a “Tertio millennio adveniente”, a magna carta da longa fase de preparação, e com a bula de proclamação “Incarnationis mysterium”, são ainda os mapas de viagem e de orientação que o Grande Jubileu deixou, não em herança, mas em permanente visão para a Igreja do pós-2000.

É difícil não pensar, mesmo em termos jubilares, que o “duc in altum” seja na realidade sinónimo daquela Igreja em saída indicada por Bergoglio, ainda antes de ser tornado papa, e expressamente citada num documento de preparação para o Jubileu de 2000 pela Igreja de Buenos Aires. Cada Ano Santo fez história por si próprio, Mas dirigir hoje o olhar para a primeira aurora do novo milénio não é só um caminhar para trás. O Grande Jubileu de 2000 não é um rasto a reencontrar, mas a pedra angular a partir da qual se iniciaram o novo século e o novo milénio. Ao longo do caminho, uma paragem fez-se repentinamente necessária. Durou mais de um ano. E teve a marca da misericórdia.


 

Angelo Scelzo
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 08.01.2020

 

 

 
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