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Gorbatchov recordado pelo jornal do Vaticano: «Um político de rosto humano»

Hoje Mikhail Gorbatchov assinala 90 anos. Passaram quase 36 desde que o jovem membro do Politburo foi eleito secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, a 11 de março de 1985. Gorbatchov foi o primeiro líder soviético nascido após a revolução de outubro de 1917 que atravessou as portas do Vaticano, no histórico encontro de 1 de dezembro de 1989 com S. João Paulo II, culminar de uma obra-prima diplomática iniciado pelo papa polaco, logo após a sua eleição, em 1978. De um lado o papa que repetia «o homem é chamado à liberdade», e, do outro, o secretário de um partido que tinha feito do ateísmo e da repressão da liberdade de culto uma das marcas dos regimes do Leste que se estavam a desfazer como o Muro de Berlim, abatido pouco menos de um mês antes.

A primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, recebe Gorbatchov a 16 de dezembro de 1984, antes da sua subida ao poder. Foi um cara a cara muito positivo e estranhamente “caloroso”. Gorbatchov, na sua primeira viagem a um país ocidental, apresentou-se de maneira totalmente inédita: favorável ao debate e ao diálogo, hábil a compreender as razões da sua interlocutora e, sobretudo, com um trato humano totalmente diferente em relação aos seus predecessores. Thatcher, hábil a colher a novidade, foi de tal maneira favoravelmente tocada, que, no termo do encontro, proferiu uma clamorosa declaração à imprensa: «Espero que se torne o novo líder da URSS». E assim aconteceu.

Gorbatchov herdou um país em crise sufocado pela burocracia do sistema político, pela corrupção e por uma profunda crise económica. Um estado que controlava toda a Europa Oriental e que, com a invasão do Afeganistão, em 1979, prosseguia a sua política imperialista e disputava com os EUA o primado do arsenal nuclear mundial, ao preço de uma despesa militar astronómica.

Depois de eleito, Gorbatchov depressa mostrou ser um líder diferente, vai à rua para escutar os cidadãos, confronta-se com eles. Teve uma dura luta contra o alcoolismo, causador de baixa produtividade laboral. Compreende que a URSS precisava de uma profunda reforma interna e de uma mudança radical nas relações internacionais, iniciadas e consolidadas desde o tempo de Brejnev.



Resta a recordação de um político decisivo na história das relações internacionais do século XX, que, apesar dos seus limites e erros, mostrou sempre grande dignidade, mesmo nos momentos mais duros da sua vida privada



Em 19 de novembro de 1985, em Genebra, encontrou-se com o presidente dos EUA, Ronald Reagan. Entre os dois houve logo grande empatia, e também entre as mulheres. Gorbatchov, com efeito, levou com ele Raissa, e também este foi um sinal da mudança dos tempos. Uma revolução na revolução. Gorbatchov emerge como um inovador, comunica de maneira diferente, transmite grande energia positiva. Reagan e os serviços de inteligência americanos, após uma desconfiança inicial, compreendem que podem confiar nele. Foi por isso que os dois líderes mundiais ratificaram, em poucos anos, acordos históricos para a redução das despesas militares.

Entretanto, dois episódios mostraram todos os limites internos da URSS, impelindo Gorbatchov a acelerar o seu processo de reformas: o desastre nuclear da central de Chernobyl, a 26 de abril de 1986, e a aterragem de um avião particular, a 28 de maio de 1987, pilotado pelo aviador alemão de 19 anos Mathias Rust, na praça Vermelha.

As palavras de ordem tornaram-se duas: “perestroika” e “glasnost”, «reestruturação» e «transparência». Um processo de mudança possível também grças às poupanças nas despesas militares. Foi iniciada uma primeira autonomia quanto aos planos de produção das fábricas e começou o processo de liberalização dos preços e das pequenas empresas. Ao mesmo tempo, a mordaça da censura começou a afrouxar.

Após 70 anos de duro regime, inaugurou-se um processo de mudança que se tornou imparável, mas que foi também a causa do declínio político de Gorbatchov. O abrandamento da ditadura fez emergir os impulsos nacionalistas e independentistas, primeiro das repúblicas bálticas, e, aos poucos, dos estados-satélite. Começaram os primeiros problemas étnicos no Cáucaso e aflorou uma forte corrupção da oligarquia local nas províncias mais distantes de Moscovo. O império soviético estava a estalar, e Gorbatchov não pôde opôr-se à queda do Muro de Berlim, a 9 de novembro de 1989, nem à reunificação da Alemanha, um ano mais tarde, a 3 de outubro de 1990.

Gorbatchov, a quem foi conferido o Nobel para a paz a 15 de outubro de 1990, torna-se vítima da sua própria “revolução”: A “perestroika” e a “glasnost” não tinham produzido os resultados esperados na União Soviética. Foi assim que se chegou ao clamoroso golpe de 19 de agosto de 1991, pouco mais de um ano após a sua eleição para presidente da URSS, que se tornara numa espécie de república presidencial. Gorbatchov, traído por boa parte dos seus colaboradores, foi preso, mas, graças à intervenção de Yeltsin, três dias depois, voltou a Moscovo. A sua parábola política, todavia, tinha acabado. A 25 de dezembro desse ano Gorbatchov deixou a chefia do seu país. Um processo imparável.

Resta a recordação de um político decisivo na história das relações internacionais do século XX, que, apesar dos seus limites e erros, mostrou sempre grande dignidade, mesmo nos momentos mais duros da sua vida privada, quando, em setembro de 1999, uma grave forma de leucemia lhe levou Raissa, o seu grande amor. As lágrimas de dor no dia do funeral e o disco a ela dedicado com as suas canções preferidas por ele cantadas permanecem a expressão de um imenso amor que fez deste líder soviético um político de rosto humano.


 

Tommaso Liguori
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Gorbatchov, S. João Paulo II | D.R.
Publicado em 02.03.2021

 

 
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