

Frank Martin nasceu em Genebra, em 1890, e morreu em Naarden (Holanda), em 1974. Seu pai, Charles Martin, era Pastor calvinista e transmitiu ao filho uma educação cristã profunda, embora rigorista. Pelos 12 anos, Frank Martin ouviu a Paixão de S. Mateus de Bach. Ficou profundamente marcado por Bach, para a vida inteira. A partir dessa ocasião, o Mestre de Leipzig ficou a ser o seu mentor, para sempre. Os pais quiseram que ele estudasse Matemática e Física. Fez-lhes a vontade, durante dois ou três anos. A sua paixão visceral era a música e, concretamente, a música religiosa. Entretanto afasta-se, com toda a lealdade, do rigor religioso com que tinha sido educado pelos pais. Foi aluno do compositor suíço Joseph Lauber (1864-1952) em piano, harmonia e composição. Mais tarde, foi aluno, ainda, de Émile Jacques-Dalcroze (1869-1950) que lhe ensinou Técnica do Ritmo.
Frank Martin impôs-se a si mesmo a criação de um estilo muito pessoal. Por volta de 1930, tinha-o conseguido. Foi seu propósito estabelecer uma síntese entre o dodecafonismo de Arnold Schönberg e a música tonal clássica, à qual juntou o cromatismo que o fascinava nas obras corais-sinfónicas religiosas de Bach. A sua linguagem musical era, agora, algo estranha, mas inconfundível e referencial. Tal realidade fez com que muitos analistas musicais considerem Frank Martin um compositor controverso e tenham dificuldade em situá-lo em qualquer corrente estética. A ele se ficam a dever muitas obras profanas e religiosas, para agrupamentos de câmara e para grandes conjuntos. Destacam-se, entre as obras religiosas, a Missa “a capella” para duplo coro, “Et in terra pax” e "Gólgotha", a sua obra prima.
"Golgotha" emergiu de uma intensíssima necessidade interior, que ele tinha, de compor uma Paixão de Jesus Cristo, a quem amava, visceralmente. O seu mentor, Bach, tinha composto a Paixão de S. Mateus que ele ouviu, em criança, e que marcou o seu íntimo, para sempre, e o levou a exprimir-se, já adulto, assim: «Bach acompanha-me, todos os dias da minha vida; aquilo (a audição da Paixão de S. Mateus) foi viver o Céu na Terra». Dirá, ainda: «Seria petulante da minha parte compor uma Paixão, como Bach». O íntimo de Frank continuava, entretanto, possuído pelo propósito de compor uma obra sobre o sacrifício redentor de Cristo.
Um dia, providencialmente, viu a famosa gravura (38,15 cm por 45cm) de Rembrandt (1606-1669), “As três Cruzes” (1653?). Esta gravura representa Jesus pendente da cruz, com outros dois crucificados, um à direita e outro à esquerda e no terreno do monte uma multidão de pessoas desoladas, confundidas e atónitas; e, ao centro, cai em vertical, de um céu misterioso uma branca e potente luz sobre a cruz na qual Jesus tinha sido crucificado. Este contacto com a obra célebre de Rembrandt constituiu o impulso fatal para Frank Martin avançar com a resposta a esse apelo que, insistentemente, o assediava, a partir do âmago de si mesmo: compor uma obra musical, tendo como tema "Jesus Cristo, Redentor do Homem e da Criação".
Uma obra de meditação, dramatização e vivência cristã
O "Golgotha" foi composto entre 1945 e 1948. A decisão de compor tal obra foi envolvida e amassada em grandes reflexões e opções. Em primeiro lugar, Frank Martin quis fazer, ele próprio, o Libreto. Um Libreto extremamente concentrado, despojado e direto. Para isso leu e meditou, profundamente, as páginas dos Evangelhos referentes ao relato da Paixão de Jesus. Procedeu do mesmo modo relativamente às meditações de Santo Agostinho sobre a Paixão do Senhor e à liturgia da Vigília Pascal (a festa da Ressurreição do Senhor).
A profundidade destas meditações levou Frank Martin a perceber, na fé, que o martírio de muitos milhões de pessoas, vítimas da segunda grande guerra, era, afinal, a reedição do sacrifício de Jesus Cristo no Calvário. Por isso, o texto do libreto que Frank Martin compôs com fé, inteligência e coração é, extraordinariamente, impressionante e tocante, comovedor e positivo, ao mesmo tempo. A música do "Golgotha" não é outra coisa senão a tentativa bem sucedida da dramatização musical do texto. O carinho e a devoção pelo Gólgota de Frank Martin manifestam-se, ainda, no facto de ele escrever, à mão, com o maior cuidado, a partitura completa, as partes do coro e, até, a redução da partitura para piano. A obra não existe impressa, estamos a usá-la, hoje, alugada, no original. O "Golgotha" foi composto para cinco solistas, coro e orquestra sinfónica (com piano).
Em segundo lugar, devemos fazer uma referência às perspetivas estéticas de Frank Martin, relativamente à composição da música religiosa e, mais concretamente, à do "Golgotha". Admirável! Recorramos às suas próprias palavras. «O meu pai, muito religioso, inculcou em mim certas formas religiosas as quais me vi obrigado a destruir, para poder exprimir, musicalmente, o meu vivo e perturbador sentimento religioso, mesmo que, intelectualmente, eu não acreditasse ou pensasse que não acreditava». «Il n’y a pás d’autre preuve de la réussite en art que le jugement de sa propre sensibilité, l’adhésion du sens intime» («Sens intime?» O que será? Os intérpretes inclinam-se para que o “sentido íntimo” seja uma espécie de um segundo eu escondido na consciência sensível que é capaz de se comover para além dos simples sentimentos e raciocínios normais. Ou será o Espírito Santo, pergunto eu?).
«Por uma espécie de pudor, eu nada fiz para que as minhas obras religiosas fossem executadas. Para mim era suficiente tê-las composto, embora o meu sentimento habitual seja o de que uma obra só está acabada, depois de ser executada; embora pense, também, que as minhas obras musicais religiosas, a serem executadas o fossem numa igreja, no enquadramento do culto, sem o nome do autor». «Eu tinha escrito uma missa, "a capella", para duplo coro que esteve guardada no meu armário, cerca de 20 anos, porque eu receava que ela pudesse ser apreciada, só, do ponto de vista estético. É que eu olhava para ela como um assunto entre Deus e a minha pessoa.»
«Eu penso que na obra de arte religiosa, toda a espécie de artifício, a estética como supremo objetivo, o prazer do artista no manuseamento das vozes, dos sons e das formas, devem ceder o passo à obrigação totalmente interior de exprimir a fé do seu autor e de convencer. Duvido que haja muitas obras de música sacra contemporânea que despertem no ouvinte um verdadeiro sentimento religioso, revigore uma fé ou conduza um ouvinte a uma dessas meditações que nos possam conduzir ao limiar de uma revelação, ou para além dela. A maior parte dessas obras conduzem-nos ao seu autor. Uma verdadeira obra de arte deve fazer esquecer o seu autor.»
Um modo de profissão de fé
«O "Golgotha" não foi uma obra encomendada por ninguém. Nem sequer pensei que ela viesse a ser executada. Este pensamento ajudou-me imenso no meu trabalho, libertando-me de toda a espécie de preocupações estéticas, desobrigando-me daquele sentimento condicionante que, muitas vezes, acaba por paralisar o artista: que pensarão os outros disto ou daquilo? Que efeito poderá causar isto? Desta vez, eu estava inteiramente só, perante um texto e um assunto que me ultrapassavam, absolutamente. A minha única atitude possível era a da mais completa humildade.»
A esposa de Frank Martin, Maria Martin escreve. «A fé de Frank Martin é a de um verdadeiro cristão. Ele não podia exprimir a sua fé a não ser através da música. Várias pessoas disseram ou escreveram que Frank Martin era calvinista. Nada mais errado. Isso só se pode dever ao facto do seu pai ter sido pastor calvinista. Nada lhe agradou mais do que ter ouvido de dois sacerdotes católicos que estiveram presentes na primeira apresentação do "Gólgota", a seguinte conversa: ele será católico ou protestante? O facto de Frank não ser capaz de exprimir a sua fé que era real, a não ser através da música, implica que todas as suas obras religiosas tenham sido compostas a partir de um forte impulso interior, de uma profunda necessidade de orar e de louvar. Elas são inteiramente sinceras, elas constituem um modo de profissão de fé».
O amigo “de peito” de Frank Martin, Ernst Ansermet, faz a seguinte afirmação: «O que se pode afirmar de mais certo na música de Frank Martin, parece-me, é que ela é a expressão de uma fé«.
Um crítico musical, a propósito da estreia mundial do "Gólgota", que ocorreu em 1949, Tappolet, escreveu: «A sua linguagem é nesta obra, múltipla, ao extremo: os elementos mais diversos e opostos encontram-se reunidos. É assim que a salmodia gregoriana dá-se bem com o arioso e o baixo contínuo, o contraponto com a homofonia palestriniana, o uso dos doze sons de Schönberg com os acordes perfeitos e os ritmos e melodias populares: não arcaismo e modernismo, mas uma linguagem intemporal…».
Uma dimensão peculiar merece ser destacada no "Golgotha" de Frank Martin: a força criativa dos contrastes: dia-noite, luz-sombras, culpa-inocência, céu-terra, humano-divino, sepulcro-vitória. Como na gravura de Rembrandt, a pessoa de Cristo está no centro dos acontecimentos: o sacrifício de Cristo e a sua Ressurreição constituem as condições da salvação da Humanidade sedenta de reconciliação. Esta é a libertadora e alegre mensagem do Libreto e, ao mesmo tempo, a vivência cristocêntrica do compositor do "Golgotha".
Uma recordação eloquente do próprio Frank Martin: «O "Golgotha" constituiu um acontecimento único na minha vida; para mim e para a minha esposa, o longo período consagrado à composição deste oratório fica na nossa memória como um tempo abençoado, como uma Semana Santa que durou perto de três anos».
Fica claro que o compositor Frank Martin nos deixou, na sua obra, o testemunho de um convicto habitante da Igreja de Jesus Cristo que é a casa do tempo e da eternidade, do contingente e do absoluto, do pecado e da graça, da acção e da contemplação, da morte e da vida, da diversidade e da unidade, do visível e do invisível, da ciência e do mistério.
Frank Martin deverá, a meu ver, ser considerada referência obrigatória para os compositores e outros agentes da Música Sacra do nosso tempo.
A obra para cinco solistas, coro e orquestra sinfónica com piano vai ser interpretada esta terça-feira, 31 de março, na sé de Braga, e na Sexta-feira Santa no Porto, na igreja de Nossa Senhora da Lapa. Ambos os concertos, com início marcado para as 21h30, são interpretados pelo Coro da Sé Catedral do Porto e a Orquestra das Beiras.
Cón. António Ferreira dos Santos