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Cardeal Ravasi: A tarefa das religiões e da cultura é desenterrar a esperança debaixo dos escombros

O poeta Mario Luzi falava dos «“bolbos de esperança” ocultados debaixo do cúmulo dos escombros do tempo sombrio que estamos a atravessar. E já o dizia há anos. A tarefa da poesia, das religiões e da cultura é precisamente a de descobrir os bolbos escondidos por baixo. Continua a haver ainda muitos escombros, temos de estar conscientes disso. Pense-se na atmosfera tão inquinada inclusive do ponto de vista físico, e sobretudo do ponto de vista social, espiritual e cultural». Trata-se da «destruição dos mitos, a destruição da boa educação, a destruição das elites – ou seja, da nobreza espiritual e do pensamento –, a destruição das relações tornadas artificiais, é uma tentação quase compreensível. A nossa tarefa, ao contrário, é a mais árdua: começar a escavar, como bombeiros, para reencontrar os germes vitais».

O cardeal italiano Gianfranco Ravasi, que na próxima semana regressará a Portugal, está desde 2007 à frente do “ministério da Cultura” do Vaticano, o Conselho Pontifício da Cultura. Aos 76 anos, na grande entrevista publicada a 25 de abril no jornal “Corriere della Sera”, fala do papa Francisco, de Trump, dos profetas do nosso tempo, das minorias – como a dos católicos, que ao tornarem-se «pedras no sapato» da sociedade podem surpreender e ser mais relevantes –, na linguagem que se exige à Igreja, da política, de populismos, das notícias falsas e do escândalo da pedofilia, numa conversa que começa pela generalização da estupidez.

 

Como vê os escombros do nosso tempo?

Não são aqueles no meio dos quais eu nasci, em 1942, com uma guerra mundial com rios de sangue e dois loucos lúcidos que dominavam a Europa, Hitler e Estaline, havia o Holocausto, havia as destruições dos bombardeamentos. Agora não. Há sempre guerras, mas não com aquela epifania do mal. Há como que uma poeira espalhada: é a superficialidade, a banalidade, a vulgaridade, a estupidez. Há muitos anos, em Milão, conheci o escritor Riccardo Bacchelli. Uma vez que fui ao seu encontro, depois de ter falado longamente das crises de então, acompanhando-me ao elevador surpreendeu-me, dizendo: «Reverendo, recorde-se de uma coisa: os estúpidos impressionam, nem que seja pelo número». É assim, não deviam, mas impressionam pelo número.

 

Como se combate essa estupidez?

Os problemas mais graves de cada tempo foram evidenciados, e ainda hoje o são, pelos profetas. Também na Bíblia havia inclusive profetas leigos, como Amós, um agricultor. Temos visto figuras proféticas igualmente na política, figuras extraordinárias, logo a seguir à guerra. Eles apontam ao cérebro e ao coração. Antes de tudo, fazem ver a realidade na sua autenticidade – portanto, o cérebro – para nos fazer descobrir os valores autênticos; depois vão ao coração, porque se concentram na paixão. Hoje, ao contrário, muitos falam para o estômago [instintos básicos]. Uma vez, o sociólogo canadiano Charles Taylor, autor de “A era secular”, disse-me: «Se Cristo chegasse hoje às praças e começasse a anunciar a sua Palavra – que era verdadeiro fogo –, o que aconteceria? No máximo pedir-lhe-iam os documentos». Há uma belíssima imagem do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein no “Tractatus Logico-Philosophicus”, quando, a propósito da pessoa humana, diz: «Aquilo que queria identificar eram os contornos de uma ilha, isto é, o homem, como criatura finita». E continuava: «O que descobri no fim foram as fronteiras do oceano». A superficialidade é olhar só para o contorno da ilha, isto é, para o estômago, para a pele, para a exterioridade, para o interesse imediato».

 

Para continuar com a metáfora dos bolbos de esperança… pensa que, a determinado ponto, haverá uma maioria silenciosa que reagirá, e começará a extraí-los?

Estou convicto de que a maioria da sociedade não se preocupa em extrair bolbos de valor dos escombros. Isso, então, deveria ser a tarefa das religiões autênticas e da cultura: ser minoria que estimula. Uma minoria “ofensiva”. E dado que uma minoria nunca pode sê-lo com as armas, porque seria sempre perdedora, deve tornar-se uma espécie de pedra no sapato.

 

O sentido de responsabilidade é uma tarefa de minoria.

Sim, é preciso criar consciência. Digo-o também em relação à Igreja, hoje (…). De onde venho, ao domingo de manhã muita gente confluía à igreja para a missa. Agora, quando volto ao lugar onde nasci, na igreja não encontro ninguém que não tenha um cabelo grisalho! Todavia, esta minoria pode tornar-se mais eficaz que a grande e imponente maioria.

 

Explique-me melhor o que quer dizer.

Tomemos a figura – também contestada – do papa Francisco. Ele diz coisas que são muitas vezes evidentemente de minoria. E veem-se as reações que provoca. Mas a pedra no sapato, quando é autêntica, não é necessariamente perdedora, como acontece na atenção que suscita.

 

Quais são as palavras chave do papa para combater os escombros?

Francisco tem sobretudo três elementos que destacarei. Antes de tudo, compreendeu que para a sociedade a linguagem é fundamental. Se falo uma linguagem obsoleta, a surdez é certa – de “surdo” deriva “absurdo”. Hoje é considerado absurdo aquilo que as pessoas não conseguem aceitar no interior da concha da sua orelha, isto é, adaptada ao seu interesse.

 

E a linguagem do papa, como é?

Compreendeu que agora é necessária a frase essencial, sem muitas subordinadas. Sabemos que hoje domina o slogan. Alguns políticos vencem porque têm-no sempre pronto e têm atrás de si equipas que trabalham para encontrar o mais adaptado. É indispensável adotar, inclusive nos valores, o recurso à essencialidade para uma maior incisão.

 

A simplificação muitas vezes desencadeia a contraposição, atiça o ódio. Penso nos tweets incendiários de Trump.

Isso é indubitável. Todavia, essa modalidade pode ser usada também para servir o bem. Também eu me rendi ao tweet. Não esqueçamos que Cristo falou tendencialmente em parábolas e usou o tweet.

 

Em que sentido?

«Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus»: em grego, com os espaços, são 52 caracteres, poucos em relação aos 280 hoje possíveis! E pensemos em quanto durante séculos se discutiu sobre a relação entre fé e política.

 

Falava de três chaves para compreender o papa entre os escombros de hoje.

O papa compreendeu depois que a cultura contemporânea está tendencialmente ligada às imagens. E usa-as: as “periferias”, o “cheiro das ovelhas”, a “Igreja hospital de campanha”, o “sudário não tem bolsos”… Há, por fim , o terceiro elemento: a maneira como usa o corpo, a corporeidade. Nas audiências gerais fala durante uma vintena de minutos, depois está uma hora com a gente. Que assim encontra uma pessoa concreta, não envolvida numa auréola de luz e de distância.

 

Voltando aos bolbos de esperança. Quais são as palavras que melhor os representam: diálogo, amor, solidariedade?

Partirei da primeira, o diálogo. No sentido etimológico, é o cruzamento de dois “logoi”, dois discursos. O discurso não deve ser entendido só como um raciocínio, mas como uma experiência fundada, uma visão que dá um sentido. O debate com o outro pode ajudar a descobrir melhor o sentido último do ser e do existir. Na palavra “diálogo”, “dià”, em grego, quer dizer também em profundidade, “diabasi” significa descer. E se se querem extrair os bolbos que estão sob o diálogo, é preciso ser sério, cansar-se. Todos fazem o elogio da lentidão. Eu quero fazer o do cansaço. A segunda palavra é o “amor” autêntico, não o epidérmico, mas o profundo, capaz de unir sexo, eros e amor. Se se está verdadeiramente enamorado, deve começar-se a compreender genuinamente o que significa dar-se ao outro. É isto que temos de ensinar aos jovens, que reduzem a experiência ao sexo, enquanto que é também ternura, beleza, paixão, sentimento. Como é que se expressa ternura com mensagens de texto?

 

Queria fazer o elogio do cansaço.

Os jovens estão convencidos de que ele é brutalidade, suor. E é verdade, não se aprende por osmose. Mas a verdade é que se tu multiplicas o exercício do empenho, no fim o cansaço torna-se uma realidade espontânea e criativa. Pensemos num atleta ou numa bailarina clássica e nas infinitas horas de exercício. Mas quando no “Lago dos cisnes” uma estrela gira sobre o dedo grande do pé desfiando as leis da física, já não pensa naquilo que tem de fazer, na sequência dos movimentos. Tudo vem espontaneamente. É criatividade pura, é liberdade pura.

 

Hoje a política, em todo o mundo, espalha a poeira do egoísmo, acende a raiva.

É o paradoxo. A política, como diz a raiz "polis", cidade, é o estar juntos, e a sociedade é ser parceria, companheiros de vida. Ao contrário, agora faz de tudo para criar formas de “autismo” espiritual, como o medo do outro. Quando estás enclausurado na tua fortaleza soberana, há a redução ao egoísmo, que não é decerto a beleza da vida, que em vez disso é arriscar. Neste aspeto, a função da arte é uma espécie de antídoto, como é a verdadeira religião.

 

Recorda, na política, protagonistas positivos?

De Gasperi, Adenauer, Schumann, Spinelli… e outros. Outra figura, que poucos conhecem, é Dag Hammarskjöld, o secretário-geral da ONU, que morreu em operações de paz em África, onde foi abatido com o seu avião. Dedicou-se a estabelecer pontes no interior dos conflitos. Mas penso também em presidentes de câmara de há tempos: conheciam todos os habitantes, partilhavam os seus problemas, no fim eram eleitos. Agora os políticos vivem quase exclusivamente para se fazerem reeleger, muitas vezes com o recurso à demagogia.

 

Os populismos, hoje uma das alavancas fundamentais da política não só em Itálica, não arriscam tornar-se um instrumento para aprendizes de feiticeiro? Há o perigo de escaparem das mãos de quem os maneja, como já aconteceu.

O populismo vem de “povo”, parte de um núcleo positivo. Reencontrar a identidade de um povo é uma coisa bela, pensemos na glória da Itália do ponto de vista artístico, cultural, filosófico. A identidade que se faz cristalização e rejeita o outro torna-se, em vez disso, uma fortaleza. Esta, no fim de contas, no interior, tem um povo escravo, incapaz de interrogar-se. Em italiano temos uma bela palavra: “incontro”. É constituída por dois elementos, “in”, que é ir para, e “contro”, porque o outro é, sim, idêntico a ti, mas é também diferente de ti. O populismo supõe só o “nós”, a “nossa identidade” salvífica. Nós podemos construir, em vez do “duelo” que o populismo cria, um “dueto”. O dueto pode ser entre um baixo e um soprano… O que é que há de mais diverso? E não se trata de o baixo fazer um falsete e o soprano descer uma oitava: a harmonia é criada por cada um com a sua voz. A diversidade na identidade.

 

Falemos das redes sociais. A mim parecem-me ainda um “far West”. O ano passado também o cardeal Ravasi se encontrou perante as reações das redes sociais depois de ter inserido uma frase do Evangelho no Twitter. Até [Matteo] Salvini [vice-presidente do Conselho de Ministros e ministro do Interior de Itália] interveio…

As redes sociais são estas, no entanto é preciso estar lá. Não se pode ser nem apocalíptico nem integrados, como dizia [Umberto] Eco. McLuhan sustentava que estes meios de comunicação são «a extensão do homem» e dos seus órgãos: tele-fone, tele-visão, tele-scopio… Mas a verdadeira revolução é que se criou um novo ambiente, a infosfera, um novo mundo a que não se pode fugir. Devemos fazer de maneira – sempre segundo o princípio da pedra no sapato – de não nos conformarmos às derivas e de não nos fazermos condicionar: pensemos naquilo que conseguem fazer os grandes gestores das redes informáticas em relação aos utentes.

 

O ódio é agora também alimentado pela manipulação das notícias falsas.

A “pós-verdade”, uma falsidade reiterada que se torna a seguir verdade, é um paradoxo incrível. Uma falsidade nunca pode tornar-se verdade! É por isso que é preciso “estar dentro” das redes sociais com paixão, porque são maravilhas, mas é também necessário introduzir sempre a semente da busca da autêntica verdade. Um outro “bolbo” poderia ser precisamente o da busca, em todos os sentidos, inclusive científico. Nunca se contentar com aquilo que nos é dado. Platão põe na boca de Sócrates, na “Apologia”, uma espécie e testamento final: «Uma vida sem procura não merece ser vivida». Esta procura é a inquietação interior, e os jovens têm-na. A inquietude tem também uma face negativa, mas pode tornar-se o impulso ao interrogar-se, é o “inquietum est cor nostrum” de que falava Agostinho. O escritor francês Julien Green dizia: «Enquanto se estiver inquieto, pode estar-se tranquilo».

 

Entre as muitas coisas negativas do nosso tempo há também o escândalo da pedofilia na Igreja. O papa tomou uma posição muito forte. Quanto tempo será preciso para que a Igreja acerte as contas plenamente?

Esse pode ser um exemplo da “pedra no sapato” que Francisco quis introduzir na Igreja, e antes dele Bento XVI. Também o crente deve ser autoconsciente e autocrítico, de outra forma é só espelho da sociedade. Martin Luther King sustentava que «o cristão no mundo não deve ser um termómetro, mas um termostato». Não deve registar a temperatura do ambiente, mas aquecer. É verdade que para o fenómeno da pedofilia apontou-se o dedo violentamente só contra a Igreja, mas sabemos que na verdade o nível mais alto está na família, e depois no desporto… Mas a atitude autodefensiva e apologética não seria a atitude acertada. Este problema coloca, então, uma série de corolários: a formação nos seminários, a reflexão sobre a educação para o celibato, ainda que se saiba que o problema existe de maneira idêntica noutras confissões religiosas que têm o casamento dos seus eclesiásticos. E depois a seleção dos sacerdotes. Toda uma série de exames de consciência e de verificações que devem ser feitas no interior da Igreja. Também acrescentando o facto de que o pecado faz parte de uma dimensão da Igreja, que é uma realidade incarnada, e não etérea. Pensemos na corrupção do papado em certos períodos da Idade Média. Santo Agostinho tem uma bela imagem: «A Igreja é como a arca de Noé no interior da qual estava a pomba e estavam os corvos». A religião judeo-cristã, em particular cristã, é uma religião histórica, e portanto carnal.

 

«O Verbo fez-se carne»…

O escândalo faz parte, de alguma forma, da estrutura da Igreja, divina mas também humana. Não é angélica, não descola da realidade em direção a céus míticos e místicos, está implantada no terreno da história. Se a pedofilia tem de ser eliminada, deve sê-lo também a dependência do poder e do dinheiro. Mas devemos recordar que existe, para o crente, também a presença do divino, da força do Espírito Santo, que é purificação e catarse. O apelo que o papa Francisco faz muitas vezes é, no entanto, dúplice: condenação e severidade, mas sem esquecer também a misericórdia.


 

Edoardo Vigna
In Corriere della Sera
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 03.05.2019 | Atualizado em 04.05.2019

 

 
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