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No aniversário da morte de George Floyd: Católicos têm de dizer e fazer mais

Quando o bispo norte-americano D. Roy Campbell Jr. considera o papel da Igreja na questão do racismo em 2021, olha para as manifestações pelos direitos civis da década de 60, quando muitos católicos marcharam com Martin Luther King Jr., entre outros. «Chegou a esse ponto? Julgo que sim», afirmou o prelado, um dos bispos auxiliares de Washington.

Não é o único. Hoje, no primeiro aniversário do assassinato de George Floyd – homem negro morto pelo agente da polícia Derek Chauvun –, vários líderes católicos refletem sobre a atenção renovada prestada à justiça racial nestes meses, e reconhecem o papel essencial da Igreja no longo caminho pela frente.

D. Campbell liga a importância da desigualdade racial ao aborto, o tema mais importante para os bispos dos EUA. Ele deseja que o episcopado defenda a justiça para todos com o mesmo fervor com que defendem os bebés não nascidos.

«Uma vez nascidos, se não somos tratados com a mesma dignidade que queremos para aqueles que não nasceram, então não estamos a fazer o que precisamos de fazer, e a Igreja tem de ser uma líder nisso», assinalou o bispo, que preside à Conferência Nacional Negra Católica. «É a nossa responsabilidade moral. A vida humana tem valor ilimitado aos olhos de Deus, da conceção à morte natural.»



«Dizer que algo é um incidente isolado, não tenho nada a ver com isso, sou uma boa pessoa, é muito diferente de haver racismo sistémico. E se eu não me tornar uma pessoa antirracista para trabalhar contra esse racismo sistémico, então estou a perpetuar o sistema»



O responsável teme que, sem esse compromisso, o tema caia no esquecimento. Além da liderança dos bispos dos EUA, D. Campbell sublinha a importância de todas as pessoas avançarem com o diálogo e ações tão simples como «tratar os outros com a dignidade com que queremos ser tratados».

D. Frank Dewane, bispo de Venice, membro da comissão ad hoc contra o racismo da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, defende que a mudança duradoura na mentalidade de segregação tem de começar no interior de cada pessoa: «Quantos amigos temos, ou pessoas que ouvimos dizer, “não tenho osso racista no meu corpo”? Já todos ouvimos essa frase».

«O exterior é talvez o mais fácil, é por isso que nos agarramos a isso, e é muito fácil virar as costas e olhar para a polícia. Muito bem, que se faça isso, não estou a defender que não há mudanças a ser feitas. Mas penso que, a longo prazo, para resolver o problema temos de olhar para dentro», apontou.

No rescaldo da morte de George Floyd, um grupo de membros de uma paróquia da arquidiocese de Chicago juntou-se para partilhar experiências pessoais e saber mais sobre a história do racismo e como, sem intenção, podiam estar a contribuir para o problema.



«Aqueles de nós que dizem que amam e acreditam [em Deus] têm de o seguir neste campo de confusão e ódio existente no nosso país e levar-lhe luz, e ao mesmo tempo estarem dispostos a levar pancada ao tentar fazê-lo»



«Nem todos são iguais e há enorme injustiça no mundo e pessoas que têm que lutar apenas para serem notadas, apenas para serem tratadas com igualdade, e não deviam ter de ficar sozinhas», observou Kim McMillian, uma das participantes.

Hoje o grupo organiza uma oração ecuménica para marcar o aniversário e renovar o compromisso no trabalho iniciado o ano passado. A celebração serve também para perceber que a comunidade católica não chegou tão longe quanto seria preciso na sua ação.

Para o Diác. Mel Tardy, outro ponto de diálogo é o desempenho das forças de segurança, nomeadamente o uso do financiamento, a melhoria da relação entre a polícia e as forças de segurança e a necessidade de avaliar até que ponto o racismo é estruturante na sociedade.

«Dizer que algo é um incidente isolado, não tenho nada a ver com isso, sou uma boa pessoa, é muito diferente de haver racismo sistémico. E se eu não me tornar uma pessoa antirracista para trabalhar contra esse racismo sistémico, então estou a perpetuar o sistema», acentuou.

Mel Tardy espera que a Igreja saia da «tendência para ficar em silêncio»: «Somos a religião mais diversa que existe, mas ainda assim tendemos a ser aqueles que constroem paredes em vez de tentar usar os dons do Espírito Santo para nos unirmos a todos. «A igreja tem a oportunidade. Tem também o mandato, o chamamento para sair e pregar o Evangelho. Um Evangelho de unidade».

Gloria Purvis, ativista católica e comunicadora, considera que a Igreja «precisa de trabalhar» a questão do racismo, posição que surge da retórica «chocante» de alguns leigos e do silêncio de alguns líderes católicos: «Precisamos do mesmo tipo de pronunciamentos ásperos que o nosso clero profere em relação ao direito de defender a vida no útero».

Mas a ação da Igreja não se esgota nos diáconos, padres e bispos, tem de envolver os leigos: «Aqueles de nós que dizem que amam e acreditam [em Deus] têm de o seguir neste campo de confusão e ódio existente no nosso país e levar-lhe luz, e ao mesmo tempo estarem dispostos a levar pancada ao tentar fazê-lo», acrescentou.


 

John Lavenburg
In Crux
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 25.05.2021

 

 
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