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Nos 480 anos do nascimento de Frei Agostinho da Cruz: Um poema inédito

Os testemunhos mais antigos sobre Frei Agostinho da Cruz (1540 – 1619), redigidos ainda em sua vida, contam-nos que tinha especial ligação aos animais, sendo conhecido por conseguir domesticar até os mais arredios. Tal característica – verdadeira recuperação da simplicidade e da ligação à natureza manifestada por São Francisco de Assis – vem registada em todos os escritos que ao poeta foram dedicados. No Livro dos defuntos que estaõ sepultados nesta capella, e Igreja deste Convento de N. S. da Arrab[i]da refere-se mesmo que o frade nascido em Ponte da Barca a 3 de maio de 1540 «teve dom de lagrimas, e graça para domar brabos animais».

Na biografia que dele traçou no século XVIII, José Caetano de Mesquita regista a história de uma gineta e de uma cerva que lhe iam comer à mão, disputando a sua atenção. Sempre se pensou ser narrativa meramente lendária. Sabemos agora que não. O poema inédito que hoje publicamos em sua homenagem, qual fábula cristã, coloca os dois animais em diálogo aceso que bom exemplo dá aos seres humanos. Fazemo-lo com ortografia atualizada, mas respeitando algumas características do português do século XVI-XVII. Este texto, tal como outros que a seu tempo serão divulgados, consta de um manuscrito seiscentista quase desconhecido que pela primeira vez está a ser investigado. Pertenceu a pessoa ligada à família dos Duques de Aveiro e, embora não seja da mão de Agostinho, evidencia uma grande proximidade com ele. Agradecemos ao seu atual proprietário ter permitido o seu estudo, o que revela grande sensibilidade cultural.

 

Da gineta e da cerva

Gineta
Queixosa estou de ti, comadre cerva,
que nunca te agravei nem te fiz dano
nem menos comi folha nem erva.

Eu fui à boa fé, sem mau engano,
a visitar o velho à sua cela
de dia e mais de noute, de ano em ano.

E tu, despois das onze que está nela,
agora com teu filho acordaste
e, como dizem, mal sobre a mazela.

A rezão que me dava me encurtaste,
não deixando erva verde no terreiro
que com teu negro filho lhe rapaste.

Vieste-lhe suprir o companheiro
que também ser subia, amigo meu,
a quem tão bem com este o seu craveiro.

Mal lhe vieras dar do leite teu,
como com Santo Egídio outra fazia,
que lhe dava a mamar o leite seu.

Nem menos és o corvo que trazia
a São Paulo pão branco no seu bico,
pois sempre cheia vais e vens vazia.

E muito mais queixosa de ti fico
porque comes no campo a sementeira,
sem perdoar a pobre nem a rico.

Não suja ser desta maneira,
quando nos ermos vinham a morar
com nós os moradores da ribeira

com estranhos poderes de mandar
e nós de obedecer a seus mandados
como a servos de Deos em seu lugar

a cuja obediência tão atados
estavam tigres, ussos e leões
como se da rezão foram dotados.

Cerva
Em queixas vens fundar tuas rezões,
gineta, amiga não, comadre minha,
ambas de diferentes corações.

Culpas-me de gulosa e de daninha,
que tens onze anos pobre o velho feito
e que eu não chegue um só, à genelhia .

Notando-me também doutro defeito,
do terreiro da verde erva rapado
que as cabras do couteiro têm desfeito.

As cousas com que em rosto me tens dado
ou nacem da cobiça ou tua inveja
que também a nós cá nos tem tocado,

que nunca ouvi discórdia nem peleja
se não sobre mais mando ou senhorio
de quem quanto mais tem mais ter deseja.

Não saiba o velho nosso desvario,
pois entre nós se veio aqui meter
não receando fome, calma ou frio,

deixando muitas vezes de comer
per to dar, não cudando que podias
cobiçar, invejar e reprender.

Logra-te dele só, noutes e dias
que eu, posto que de ti vou afrontada,
ir-me-ei desafrontar as sombras frias

porque qualquer afronta perdoada
desobrigada deixa o paciente
de quanto lhe custara ser vingada.

Eu, se quero viver quietamente,
não devo de alterar minha baixeza
e com pele de cerva ser serpente.

Humilde e mansa sou da natureza.
Nos meus pés tenho posta a salvação
que sei mover com muita ligeireza.

Gineta
De quanto mal falei, peço perdão
e digo minha culpa, mas a pena
pagar quero de minha presunção

que quem se nas palavras desordena
o que dentro tem mostra de fora,
assi com sua língua se condena

como me sucedeu a minha agora
que quis da pecadora fazer justa
e justa quis fazer a pecadora

e de mi fraca quis fazer robusta
contendendo com quem não quer contenda,
ficando arrependida à minha custa.

Detremino calar e per emenda
sem reprender alguém nem arguir
nem alegar rezão que me defenda

de todo me acabarei de concluir
e concluída fico desejando
governado parti de te seguir

que como pera o Céu corres saltando
eu subirei trepando pela Cruz,
enfim que tu saltando e eu trepando
busquemos a Maria e a Jessus.


Imagem Frei Agostinho da Cruz | Desenho à pena de Agripino Maia, no jornal "O Setubalense" (1919) | D.R.

 

Ruy Ventura
Investigador, poeta
Imagem: Frei Agostinho da Cruz (det.) | Desenho à pena de Agripino Maia, no jornal "O Setubalense" (1919) | D.R.
Publicado em 11.05.2020

 

 
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