Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Fraternidade em crise? A causa está na dúvida sobre Deus

«É tempo de relançar uma nova visão para um humanismo fraterno e solidário das pessoas e dos povos.» E ainda: «A força da fraternidade (…) é a nova fronteira do cristianismo». Assim se exprimiu o papa Francisco na carta do passado 6 de janeiro à Academia Pontifícia para a Vida. Alguns dias antes, no discurso por ocasião da bênção “urbi et orbi”, o papa descrevia a fraternidade como aquilo que «está na base da visão cristã da humanidade».

O tom das afirmações assinala simultaneamente o diagnóstico e a cura. O diagnóstico: a insuficiência de fraternidade, o esboroamento do ligame que envolve num laço familiar todos os filhos e filhas de Adão. A cura: a própria fraternidade, centelha que fará inflamar-se o fogo de relações justas nas casas, cidades e entre os povos.

Falando de fraternidade, é necessário evitar qualquer forma de retórica pomposa e apressado moralismo. A Bíblia evita estes riscos descrevendo o ligame fraterno como o mais exigente e complicado. Atravessar com paciência o aspeto intrinsecamente dramático da fraternidade permite colher o que está verdadeiramente em jogo. Muito mais do que se pensa.

A fraternidade está em crise não por um capricho e muito menos por genérico egoísmo; também não por inveja ou por motivo de injustiça. Todas estas coisas são efeitos, não a causa. A narrativa de Génesis 4 é de tal maneira apurada, que penetra até ao ponto de divisão das juntas e da medula do ligame fraterno.



Aproximando-se do texto com os mesmos olhos de Caim, gerações e gerações de leitores não se aperceberam que a página bíblica revela uma dupla predileção divina: uma por Abel, o único capaz de oferecer um sacrifício agradável a Deus, e outra reservada a Caim



Porque é que Caim mata Abel? Por medo. Essa é a emoção em que se encontram Adão e Eva após o pecado. «Ouvi os teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e escondi-me». O medo impele o casal a esconder-se e Adão a Agredir Deus e Eva; depressa percebe que a melhor defesa é o ataque.

Ainda que em ordem inversa, Caim experimenta os mesmos sintomas: primeiro a agressividade até à violência, depois a necessidade de esconder-se; sinais reveladores do seu medo radical. De que é que Caim tem medo? Ele está de tal forma seduzido pela predileção divina por Abel (só deste Deus aceita o sacrifício), que não vê que só a ele Deus fala.

Aproximando-se do texto com os mesmos olhos de Caim, gerações e gerações de leitores não se aperceberam que a página bíblica revela uma dupla predileção divina: uma por Abel, o único capaz de oferecer um sacrifício agradável a Deus, e outra reservada a Caim, o único a quem Deus concede uma incompreensível consideração, feita de palavras de chamamento, encorajamento, conselhos, perguntas, acusações, ameaças de castigos e, por fim, de solícita proteção da sua vida, não obstante tudo.

Deus dedica tempo a Caim, enquanto que a Abel não dirige sequer uma palavra. Se “inveja” (in-ver) significa “não ver”, “não querer ver”, “ver mal”, pode dizer-se que em Caim ela se volta contra si próprio primeiro do que para Abel, dado que perceciona muito bem a predileção pelo irmão, mas não se dá conta da própria.



A rivalidade entre irmãos, entre colegas, entre povos, culturas, nações e economias segue a negação do poder da Origem (a mãe, o pai, a Terra, o próprio Deus) no garantir um lugar vital a cada um



Daqui o sentimento de ser excluído, privado de quanto é vital. O terror que o atormenta brita do facto de não haver lugar para dois: «Se Abel é o predileto, significa que eu sou excluído». Ele não vê o lugar único reservado a ambos, considerando que só há um único lugar. Isto expõe a raiz profunda do medo de Caim: considerar Deus insuficiente, incapaz de colocar em segurança toda a vida de que é origem. No máximo, pode garantir um só barco salva-vidas e, ainda por cima, monolugar: todos os outros náufragos – que estão no mesmo navio – tornam-se rivais.

A rivalidade homicida que emerge com clareza na relação fraterna, antes de representar um défice de caridade ou de justiça, assinala antes de tudo uma falta de fé: Caim acredita que Deus exista, mas o medo, distorcendo a realidade, impede-o de confiar-se à sua competência. Em resumo: Deus existe, mas não pode. A impotência e a incompetência de Deus impelem o primogénito de Adão ao urgente “dever” de se arranjar sozinho, ocupando o único lugar vital à disposição, mesmo que às custas da morte do irmão.

Falar de fraternidade, sem tocar o fundo do medo acerca da incompetência e insuficiência de Deus (e o terrível sentimento de solidão que dele deriva) significa permanecer à superfície do ligame. Ao contrário, isto escancara a profundidade da alma, fazendo dela emergir as dinâmicas mais ocultas.

A rivalidade entre irmãos, entre colegas, entre povos, culturas, nações e economias segue a negação do poder da Origem (a mãe, o pai, a Terra, o próprio Deus) no garantir um lugar vital a cada um. A injustiça violenta é efeito da incredulidade; não tanto na existência de Deus (quantas pessoas injustas creem nele), mas no seu poder cuidador e nutridor.

Na verdade, não há pecado que não seja resultado da incredulidade no poder de Deus; avaro se torna quem nega o poder divino de assegurar o pão quotidiano; vingativo é aquele que não acredita que Deus possa assumir a sua defesa; luxurioso ou guloso é aquém procura por si as consolações e as confirmações, dado que Deus não estaria em condições de as garantir.



Para readquirir “a força da fraternidade”, é por isso necessário reabilitar a nossa sensibilidade ao mundo, à casa comum. Não é um estreito local com um só lugar, mas a profecia da «casa do Pai», onde há amplo espaço para todos



Jesus «não se envergonhou de chamar-nos irmãos», tornando-se o Primogénito de toda a criatura, não por causa de uma qualquer genérica bondade, mas pela confiança colocada no Pai, a quem «tudo é possível», inclusive assegurar um lugar único a Caim, um lugar único a Abel, um lugar único a cada homem e a cada povo.

A tal confiança, Cristo não chega abstratamente, mas por quotidiana, normal, afetuosa sensibilidade ao mundo. Olhando-o e tocando-o tal como é, não como o medo o deforma. Mostram-no bem as palavras dirigidas a quem está preocupado (isto é, amedrontado) pela eventual insuficiência do alimento, da água e do vestir.

A estratégia para vencer o medo é a de «olhar os pássaros do céu» e «olhar os lírios do campo». O Pai é tão rico, poderoso e competente, que se permite o luxo de se interessar por andorinhas e margaridas. O sentido da confiável competência de Deus desarma a rivalidade, tornando-a vã.

Para readquirir “a força da fraternidade”, é por isso necessário reabilitar a nossa sensibilidade ao mundo, à casa comum. Não é um estreito local com um só lugar, mas a profecia da «casa do Pai», onde há amplo espaço para todos.

Porque é que Cristo quis o ligame fraterno para os seus discípulos? Certamente para que anunciem e recordem a todos os homens, a todos os povos, a todas as criaturas, o vínculo derivante da única generosa origem e do único aliciante destino. Mas a par dessa motivação “ad extra”, na opção de Jesus vibra também uma razão “ad intra”, a favor da própria Igreja e de cada crente.

Com efeito, apoiando-nos na fraternidade, neste ligame indissolúvel e difícil, pleno de afeto e fomentador de rivalidade, estamos em condições de verificar com franqueza a qualidade real da nossa fé na competência de Deus em favor da vida, agora e no momento da nossa morte.

Efetivamente, a fraternidade realizada transforma em carne e sangue a confiança plena naquele que é tão longânimo (tem a alma ampla), que pode privilegiar Abel e privilegiar Caim.

Um Deus assim é de tal modo poderoso, que tem uma reserva inimaginável de soluções… inclusive diante da nossa morte.


 

Giovanni Cesare Pagazzi
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: sonnydaez/Bigstock.com
Publicado em 22.01.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos