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Fé e futebol: Kuba, o céu para além dos golos

Há um jogador polaco que nunca para de surpreender. Trata-se de Jakub Blaszczykowski, também conhecido pelo diminutivo de Kuba, que na sua pátria é considerado da mesma maneira que um herói nacional, amado pelos seus dotes futebolísticos, mas também pelas suas qualidades de homem generoso e intrépido. Inspirado extremo de ataque, capitão da Polónia no Mundial de 2018, conta-se entre os jogadores mais talentosos do país nos últimos anos, tendo obtido reconhecimento sobretudo ao serviço dos alemães do Borussia Dortmund.

Na semana passada, regressou a casa: aos 33 anos quis rescindir o contrato que o ligava aos também alemães do Wolfsburgo para voltar “de borla” ao clube que o lançou, o Wisla Cracóvia. Contratualmente receberá o ordenado simbólico de cerca de 116 euros por mês, que destinará à aquisição de bilhetes para o estádio para crianças de orfanatos. Não só. No momento em que a equipa polaca está em graves dificuldades económicas, ao ponto de não conseguir pagar os ordenados, e arrisca desaparecer do futebol profissional, Blaszczykowski oferecerá do seu bolso cerca de um milhão de euros (além de uma doação de 300 mil euros já entregue o ano passado).

São gestos que, no entanto, só surpreendem quem não conhece a sua história. Porque o seu apelido impronunciável esconde uma infância dramática que Jakub revelou apenas recentemente. Em 1996, ainda não tinha 10 anos, vê o pai, Zygmunt, matar a mãe, Anna. O pequeno, debaixo de choque, fecha-se no seu quarto durante cinco dias, na cama, sem quer ouvir e ver ninguém. «Nunca esquecerei esse dia, faz parte de mim. Virou a minha vida do avesso, mas também me deu a força para seguir por diante e tornar-me aquilo que sou. Agora nada me mete medo, sei que o quer que possa acontecer, já vivi pior», escreverá depois na autobiografia.



Não é um mistério onde encontrou a força para superar o trauma: a fé transmitida pela avó Felicya. «É ela a pessoa que me fez crescer, que fez tudo por mim, dando-me muitos ensinamentos, com humildade, bom senso e, sobretudo, alegria»



Serão então a avó materna Felicja e o tio Jersy Brzeczek, ex-jogador e capitão da seleção nacional polaca, a tomar conta dele e do seu irmão Dawid. E é precisamente o tio a inspirar a paixão pela bola. O jovem põe nela muita determinação e tenacidade, submetendo-se a treinamentos duríssimos. Mas o físico não o ajuda: aos 16 anos ainda é demasiado pequeno, com apenas 1,55 metros de altura (e só com o tempo conseguirá chegar aos 175 cm). Contudo, a sua constância e talento permitir-lhe-ão chegar, aos 20 anos, à primeira liga polaca, com o seu Wisla, com que vence o campeonato. Daí até à principal seleção nacional o caminho foi curto: Kuba tornou-se mais alto e pode levantar voo. Contratado pelo Borussia Dortmund em 2007, vencerá dois campeonatos, uma taça e duas supertaças da Alemanha, chegando até a jogar a final da Liga dos Campeões, em 2013 (perdida contra o Bayern de Munique). Melhor jogador polaco em 2008, 2010 e no Europeu de 2016, guiou a sua seleção o ano passado no Mundial, tornando-se recordista a nível de presenças (103).

Uma carreira pontuada por sucessos dentro e fora de campo (conseguiu também concluir um curso universitário), sem nunca esquecer a mãe, desaparecida cedo demais. Demonstram-no as suas tocantes exultações: depois de cada golo, mãos e olhos levantados para o céu. São todos para ela os mais de 70 golos marcados até agora, entre clubes e seleção. Mas não é um mistério onde encontrou a força para superar o trauma: a fé transmitida pela avó Felicya. «É ela a pessoa que me fez crescer, que fez tudo por mim, dando-me muitos ensinamentos, com humildade, bom senso e, sobretudo, alegria». Uma educação coriácea capaz de ações inacreditáveis. Na véspera do Europeu de 2012, Kuba ausentou-se por razões pessoais. Tinha descoberto que o pai – que não via desde o dia do homicídio – estava para morrer, e quis estar com ele, para o perdoar.



Na segunda-feira passaram quase 12 anos que Kuba voltou a envergar o emblema do Wisla Cracóvia com o orgulho de um velho capitão. O caminho é íngreme para a equipa que não pode permitir-se passos em falso. Mas Blaszczykowski mostrou-se confiante. «Digo sempre aos rapazes: é importante não se render e não se deprimir. Se tens talento, paixão, sonhos, cultiva-os até ao fim»



Mas Blaszczykowski tornou-se também uma referência para as obras caritativas da Igreja católica, sobretudo para recolher fundos para os pobres e na evangelização. Em 2011 foi uma das testemunhas da campanha “Não me envergonho de Jesus”: «Cristo ajuda a nossa vida diária, desejo encorajar as pessoas a não esquecer aquilo que é mais importante para nós, a fé e a oração». Um compromisso que partilha com a sua mulher, Agata, conhecida em Czestochowa, onde ele próprio cresceu, o lugar mariano tão caro a João Paulo II. Um matrimónio sólido e operativo, que o leva a bater-se em primeiro lugar pelos mais pequenos. Porque Kuba, pai feliz de duas meninas (Oliwia e Lena) não pode esquecer: «Infelizmente são as crianças que sofrem mais nas tragédias familiares, e não são culpadas de nada. Sei bem quais são as crianças feridas pelo destino, e sempre que posso procuro ajudá-las». Para os pequenos necessitados de ajuda criou, com a mulher, uma fundação que fornece também um serviço de assistência telefónica.

Na segunda-feira passaram quase 12 anos que Kuba voltou a envergar o emblema do Wisla Cracóvia com o orgulho de um velho capitão. Um novo começo que, infelizmente, coincidiu com uma derrota. O caminho é íngreme para a equipa que não pode permitir-se passos em falso, para não escorregar para o fundo da tabela. Mas Blaszczykowski, no termo da partida, mostrou-se confiante. Confortou e estimulou os seus companheiros, e declarou à imprensa que acredita na salvação dos seus. Ele que ultrapassou outros maus momentos, pode testemunhá-lo. «Digo sempre aos rapazes: é importante não se render e não se deprimir. Se tens talento, paixão, sonhos, cultiva-os até ao fim. Era uma coisa que a minha mãe me repetia. Às minhas filhas contarei sempre o quanto a minha mãe fez pela nossa família. É verdade que não éramos ricos. Ela, todavia, acreditou sempre em mim e estava convencida de que eu conseguiria. E estou certo de que lá de cima, no Paraíso, continua a olhar para mim e a guiar-me também nos momentos mais difíceis».


 

Antonio Giuliano
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 20.02.2019

 

 
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