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Da periferia geográfica e pessoal para o centro, cem anos antes de a palavra se ter tornado essencial na Igreja católica através da insistência do papa Francisco: assim se pode ler a mensagem da Virgem Maria aos três pastorinhos, que começou a ser revelada a 13 de maio de 1917, na Cova da Iria.
Esta é uma das chaves de leitura das aparições proposta pelo bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, autor do livro "Fátima - Mensagem de misericórdia e de esperança para o mundo", publicado pela Universidade Católica Editora.
As três crianças, Lúcia e os beatos Francisco e Jacinta, são chamadas, «desde a periferia, a intervir na história a favor da paz, com outra força, outro poder, outros meios, aparentemente inúteis e ineficazes aos olhos humanos: o poder da oração do justo dita com fervor, a perseverança na oração para obter o dom da paz através da adoração, da devoção reparadora, da conversão e do próprio sacrifício segundo os costumes piedosos da época», afirmou o prelado em fevereiro, durante a sessão comemorativa do Dia Nacional da Universidade Católica Portuguesa.
Diante de uma periferia multiplamente considerada - um baldio longe das cidades, três crianças pobres e com fraca instrução académica -, o prelado questiona na obra: «O que há de particular na mensagem de Fátima que justifique a atenção que suscita, a atração que exerce, o amplo eco mundial que alcançou?».
«O que impressiona e causa espanto é que o contexto e o conteúdo da mensagem não se restringem a um caminho de fé pessoal dos pequenos videntes, a uma circunstância particular do seu país ou a uma determinada verdade da fé em questão”, sublinhou o prelado, acrescentando que «o seu horizonte é de alcance histórico e mundial», ao situar-se «no centro das preocupações mundiais e dos acontecimentos históricos mais trágicos do século XX».
A mensagem de Maria é um apelo para a abertura «a outra dimensão da história, alimentada por outra Presença, sustentada por outra Força, conduzida por outra Luz, orientada para outra Meta, já agora misteriosa e silenciosamente presentes e operantes», afirmou D. António Marto na oração de sapiência que manteve o mesmo nome do livro.
«Só quem tem o sentido forte da dignidade do homem perante Deus, do seu destino eterno, pode compreender quão grande é a tragédia do pecado e como a perda do sentido do pecado é, no mais profundo, a perda do sentido de tudo aquilo que é verdadeiramente humano», vincou.
Ao mesmo tempo que «é uma advertência muito séria», a mensagem de Fátima centra-se na «consolação da esperança», na convicção de que «o mal é vencido pelo amor trinitário revelado na cruz e ressurreição de Jesus, pelo amor de Maria» e pela necessária «conversão» pessoal.
«Salvar o mundo, sim. Não escrevi à toa. É que talvez não se possa nem deva olhar para Fátima ou pensar nela do mesmo modo após a leitura de um livro absolutamente admirável. Porventura o mais luminoso e desafiante sobre esta história centenária, fenómeno de mistério, revelação e advertência, luz e consolação, que continua a ser Fátima e o seu enredo», escreveu a jornalista Maria João Avillez em crónica no Observador.
"Fátima - Mensagem de misericórdia e de esperança para o mundo" foi apresentado este mês, pelo autor, em Roma.