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Evocar o Evangelho e rejeitar imigrantes?

Debater o problema da imigração «com as lentes da segurança» é «parcial». E o medo dos migrantes arrisca o regresso ao tempo das fortalezas, castelos e pontes levadiças, considera o cardeal italiano Francesco Montenegro, arcebispo de Agrigento, cuja arquidiocese compreende a ilha de Lampedusa, no Mediterrâneo, para onde têm rumado milhares de migrantes em busca de vida melhor, mas que muitas vezes não chegam a porto seguro, perecendo no mar.

Ao prelado parece-lhe «impossível» que alguém possa pensar e dizer, «com o Evangelho na mão, “eu decido a sorte dos homens” deixando-os no mar»; é a referência a gestos e declarações do primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, que em fevereiro de 2018, na praça da catedral de Milão, afirmou, com a Constituição numa mão e os Evangelhos na outra, que se comprometia a ser «fiel» ao seu povo, «respeitando os ensinamentos» de ambos os textos.

 

Quais são as suas considerações gerais sobre o tema da segurança?

É um problema que é preciso ter em conta, obviamente, mas é preciso estarmos atentos para não pormos demasiadamente o pé no acelerador fazendo que se torne uma motivação de escolhas nem sempre partilháveis. Porque enfrentar o problema da imigração com as lentes da segurança torna-se parcial. É verdade que a imigração pressupõe riscos, mas oferece também possibilidades. O problema da segurança não nos deve fazer tornar uma fortaleza; não é sequer atual num mundo que olha para o futuro globalizando-se.

 

Como são interpretados os apelos evangélicos do papa Francisco ao acolhimento?

O Evangelho deve ser assumido com o peso que tem, porque se faço descontos segundo as necessidades, deixa de ser Evangelho. A Palavra de Deus é o navegador por satélite [GPS] para poder ir para a frente, viver a sua fé. Um cristão não pode não ter em conta o Evangelho. Há confirmação disto inclusive na história da Igreja: os mártires, por coerência ao Evangelho, desobedeceram aos imperadores, sacrificando a sua vida. É por isso que deve haver um espaço também para a objeção de consciência: diante de uma lei injusta, que devo fazer? Fechar os olhos e aceitar?

 

Um cristão pode deixar que pessoas sejam deixadas nas estradas ou no mar? Como é compatível a linha da Liga Norte [partido italiano] que aponta para repelir os desesperados nas barcaças com a exposição do Rosário e o juramento sobre o Evangelho de Salvini?

Salvini deve ver o assunto com a sua consciência, não posso julgá-lo. Não o entendo, mas não me sinto na disposição de fazer um juízo. Não compreendo como consegue colocar as duas coisas juntas, porque me parece impossível, com o Evangelho na mão dizer “eu decido a sorte dos homens”, deixando-os no mar.

Eu estou a receber muitos insultos porque confrontei a opção de deixar no mar pessoas com a de abandonar os animais na rua. Num e-mail duríssimo escreveram-me que os animais não fazem os danos que poderá fazer um homem que chega de outra terra. Vi um poster publicitário com o focinho de um cão que “pede”: “Não me abandones”; pergunto-me: porque é que o cão tem direito àquele “pedido” e não o têm homens, mulheres e crianças desesperadas. Eu respeito os animais e não quero que o cão seja abandonado, mas também não aceito que seres humanos sejam abandonados ao risco de morrer na água à espera que outras pessoas acabem de discutir, sentadas à volta de uma mesa.

Quem está naquelas embarcações pode não ser perseguido, mas ter problemas políticos, não ser refugiado; mas então, e os nossos emigrantes que partem daqui? Haverá talvez uma perseguição em Itália? Têm motivos religiosos? Um dia também eles poderão ser rejeitados; e nós, como reagiremos? Partem muitos do sul porque aqui não há trabalho – eu tenho 153 mil emigrantes da minha diocese – e não se foram embora para viagens de turismo. Porquê, então, pretender que sejam respeitados os direitos dos “nossos migrantes” e não comportar-se do mesmo modo para quem chega até nós? Cada homem tem direito a uma vida digna e respeitada.

 

Concretamente, como é que é preciso agir face aos migrantes?

Se eu penso que cada pessoa que vem ao meu encontro é um potencial delinquente, terei de fechar-me em casa e não voltar a sair. Jesus dá um conselho: sede simples mas também astutos. Isto é, caminhai com os olhos abertos. Quando uma pessoa é perigosa, então a polícia é chamada a dar segurança. Mas não está dito que cada homem que chega, só porque tem a cor da pele diferente, é um sujeito que faz o mal.

Quando vi as crianças mortas no naufrágio de Lampedusa, os seus caixões brancos, e o rosto de tantos imigrantes, não notei potenciais terroristas. Se em viagem me acolhessem dizendo-me «vem da Sicília, então é um mafioso”, sentir-me-ia desconfortável.

 

O que é que o preocupa mais sobre a questão da segurança-acolhimento-integração?

A síndrome do medo. E a reação de fechar portas e janelas, criar muros. Tudo isso torna-se arriscado, um obstáculo, não permite olhar para o futuro; porque se eu fecho a casa a sete chaves, fico às escuras, não sei aquilo que acontece do lado de fora. Há quem tenha vontade de mudar, de construir um futuro aberto, acolhedor e solidário. Mas há também quem pretende um futuro baseado nos muros semelhantes aos do passado. Mas se abatemos esses muros que no passado construímos, que sentido faz construir outros?

O meu apelo é ao acolhimento, e vale para todos. Atenção, porém: não é só «tiro-te do mar», mas também «permito-te que vivas dignamente». E a integração não é «tu agora tens de pensar como eu»; ao contrário, é preciso colocar um ao lado do outro e ver o que há em comum, e caminhar em conjunto. Por agora somos capazes de viver a tolerância ao máximo – «porta-te bem, senão…» -, mas isto não é integração.

Fala-se do mundo moderno, aldeia global, globalização, mas depois encontramo-nos em situações de um contra o outro: é este o futuro que nos espera? Regressaremos aos castelos, às pontes levadiças com água à volta de modo que ninguém entre? Pensar no futuro com o homem na Lua e nós aqui a construir couraças e fortes é realmente absurdo.


 

Domenico Agasso Jr
In Vatican Insider
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Diana-Andreea Bahrin/Bigstock.com
Publicado em 17.01.2019

 

 
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