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Estamos a sair «de uma certa fobia em que as mulheres deviam ficar à margem do institucional» na Igreja

Proclamar uma leitura durante a missa, servir ao altar ou dar a Eucaristia: para todos estes serviços as mulheres podem agora receber uma missão específica e estável da Igreja. É o que instaura a carta apostólica sob a forma de “motu proprio" intitulada “Spiritus Domini” (O Espírito do Senhor), tornada pública no início desta semana, 11 de janeiro, ao abrir a todos o ministério instituído de leitor e de acólito, até agora reservado aos homens. Uma evolução que oficializa práticas já correntes em numerosas igrejas pelo mundo.

Esta evolução inscreve-se num «desenvolvimento doutrinal», escreve o papa no texto, a qual «evidenciou como determinados ministérios instituídos pela Igreja têm como fundamento a condição comum de batizado e o sacerdócio real recebido no sacramento do Batismo».

«No horizonte de renovação traçado pelo Concílio Vaticano II, existe hoje um crescente sentido de urgência em redescobrir a corresponsabilidade de todos os batizados na Igreja, e especialmente a missão dos leigos», assinala Francisco na carta ao responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé.

Francisco acrescenta: «Oferecer aos leigos de ambos os sexos a possibilidade de acesso aos ministérios do Acólito e do Leitor, em virtude da sua participação no sacerdócio batismal, aumentará o reconhecimento, também através de um ato litúrgico (instituição), da preciosa contribuição que durante muito tempo muitos leigos, incluindo mulheres, oferecem à vida e missão da Igreja».

Esta mudança chega num contexto particular: a questão dos ministérios das mulheres na Igreja é objeto de um estudo particular no Vaticano nos últimos anos, nomeadamente com a instituição de uma comissão sobre a história do diaconado. Um dos seus membros, a biblista francesa Anne-Marie Pelettier, distinguida em 2014 com o prémio Ratzinger de teologia, considerado o mais importante na especialidade, analisa as implicações do documento.

 

O papa modifica o Direito Canónico ao abrir a possibilidade de ser confiado às mulheres um ministério de leitorado e de acolitado. De que estamos a falar?

O ministério de leitorado diz respeito à proclamação da Palavra de Deus, durante a celebração da Eucaristia, à exceção do Evangelho, que cabe ao padre ou ao diácono. Quanto ao ministério de acólito, está em relação com o serviço do altar, portanto atos necessários para assistir quem preside, em particular distribuir a Comunhão, mas também levar solenemente o Evangeliário [livro dos Evangelhos] ou o círio.

 

O que muda, na prática?

Desde 1972 e do “motu proprio" “Ministeria quaedam”, de Paulo VI, estes gestos deixaram de pertencer às ordens menores, que eram etapas rumo à ordenação presbiteral. Tornaram-se acessíveis aos leigos, desde que fossem homens, especificava o Direito Canónico. Uma disposição que se insere bem numa longa tradição desfavorável às mulheres, mas que, felizmente, nos parece hoje indefensável, para não dizer escandalosa.

Não só as mulheres, como se sabe, foram cuidadosamente mantidas afastadas do sacerdócio, como se acrescentou uma discriminação homens/mulheres dentro do próprio laicado. O bom senso antropológico e teológico fez com que um grande número de comunidades tenha adotado práticas em que as jovens e as mulheres exercessem depois de muito tempo estas tarefas com seriedade e naturalidade. Longe de uma lógica de reivindicação ou de rivalidade. Uma realidade que o papa Francisco legitima.

 

Será que isto se vai traduzir por uma modificação de práticas nas igrejas?

Em todos os lugares, numerosos, onde se vive esta paridade batismal, a sua justeza será confirmada. Noutros lugares, deve haver matéria para aprofundar a reflexão. Continuamos aqui e ali a sermos embaraçados por preconceitos muito antigos relativos a uma pretensa impureza das mulheres que as tornaria inaptas para o serviço do altar. Esta é uma ocasião para acabar com estes fantasmas. De facto, ao nível das práticas, este texto devolve-nos a uma relação simplesmente normal entre os sexos, que a Igreja precisa urgentemente de reencontrar.

Há, no entanto, um valor simbólico incontestável, na medida em que se permite que as mulheres acedam a ministérios instituídos, aos quais apenas os homens podiam aspirar. É aqui que está a novidade. Já não se trata apenas de perspetivar e permitir uma participação extraordinária das mulheres na ação litúrgica, como isso se torna prática ampla. É a realidade de um ministério instituído que é legitimada. Canonicamente, ultrapassamos uma fronteira. E isso é muito feliz. Saímos de uma certa fobia em que as mulheres deviam ficar à margem do institucional, com medo que fosse colocada em questão a ordem clerical.

 

Como é que esta mudança se inscreve nas reflexões da comissão histórica que o Vaticano instituiu para refletir sobre o diaconado?

A pandemia complicou os trabalhos desta comissão, que ainda não se pôde reunir. Mas este documento do papa relança, de facto, questões próximas dos debates sobre o diaconado feminino. Também aí a dissimetria discriminatória entre homens e mulheres já não é defensável. O mundo católico desqualifica-se ao agarrar-se a semelhante exclusão. No entanto, neste caso, o debate vai ser mais difícil na medida em que o diaconado dos homens é objeto de uma ordenação. As mulheres diáconas poderão ser ordenadas nesta diaconia? Em todo o caso, é preciso vigiar para não cair na armadilha de fazer do diaconado das mulheres uma versão subdimensionada do dos homens.


 

Sophie Lebrun
In La Vie
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 15.01.2021

 

 

 
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