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“Enteléquia” e “Terra Convida”: Invitatórios para equilíbrios na resiliência

«Louvado seja Deus na Natureza,
Mãe gloriosa e bela da Beleza,
E com todas as suas criaturas.»

(S. Francisco de Assis)

 

Junto do túmulo de S. Francisco de Assis, acaba de ser assinada a encíclica «Fratelli Tutti», sobre a fraternidade e a amizade social. O ‘cântico’ epistolar do Papa Francisco dá sequência, como a estrofes de pensamento, ao grande apelo que escreveu, há cinco anos, na encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum e o serviço da Igreja para a ecologia integral. Para revivescer a fraternidade, ele entoa um dos valores aclamados, na verdade re-aclamados (o autor da trilogia será o humanista cristão Étienne de La Boétie, em Discours de la servitude volontaire), pela revolução francesa (Liberté, Egalité, Fraternité). Que, talvez por ‘ironia dos últimos’, parece enfraquecido, pois nem por ‘solidariedade’ pode ser traduzido em equivalência. É, de facto, a uma revolutio, mudança profunda da mente e do operar, que o Papa nos convoca.



Imagem "Quercus robur L.", Calvos, Póvoa de Lanhoso.© Luís Rosa Lopes


O sangue da mudança percorre, desde a ‘raiz universal’ (tão entrelaçada ela é!), todos os caudais e capilares da vida em comum. E onde se move a corrente da vida, aí se dessedenta a sede existencial na genealogia da fraternidade. O irmão de Assis, S. Francisco, fez e faz-nos doxologia no Cântico das Criaturas, amores de Deus, a quem louva na Natureza e pela irmã madre Terra; amores seus que são amparo, puras ofertas. Entre as primeiras, estão as árvores. E, com elas, no verso do humilde fratello, os frutos, as ervas, o pão e as flores. Senciente seria ele, ainda, no silêncio poético, às suas sombras, aromas e melodias de ventos e pássaros nas ramagens.

As árvores são duma primazia que espanta os contemplativos. Eis porque debaixo delas se levantam altares, crescem nos claustros monásticos, ornam templos e deles se fazem colunas, representam a santa genealogia (v.g. árvore de Jessé), etc. De facto, elas são, como reza o teólogo italiano Pierangelo Sequeri, na oração que manuscreveu no livro de honra da capela Árvore da Vida, «a primeira forma ereta da vida».  Mas que elevada é a sua eucologia, que aqui se transcreve: «L’albero è la prima forma eretta della vita. Ho visto il racconto del tempo di cui l’albero è testimone e del mistero al quale ha partecipato. Adesso si fa architettura che ospita la nostra adorazione del Creatore e la nostra speranza del mondo nuovo. Grazie. Amen».

Porque havemos de cuidar das árvores? Como promover nelas, sem excluir outras, relações de fraternidade e arquiteturas de hospitalidade? Onde, por exemplo, até Deus se pode refastelar, como lhe sugeriu Abraão à porta da sua tenda? (cf. Gén 18,4). Que gestos apagam incêndios? Como viver o luto da sua morte, que nos atinge no rasto de cinza e fumo que turva os céus? As feridas de pragas e podas violentas, e os golpes de abates? De que modos cuidar o jardim terrestre, agras, várzeas e hortos, bouças e baldios? Estarão as árvores a olhar-nos e, como entes fraternais, a demandar a atenção fundada na ‘aliança’ por nós rompida? De diferentes modos, “Enteléquia” e “Terra Convida” são invitatórios para almejados equilíbrios na resiliência.



Imagem "Quercus robur L.", Calvos, Póvoa de Lanhoso.© Luís Rosa Lopes


Enteléquia

Luís Rosa Lopes tem patente ao público, no Museu dos Biscainhos, em Braga, de 3 a 31 de outubro deste ano, uma exposição de fotografia e uma instalação vídeo, as quais intitulou “Enteléquia”. Na sinopse, pode ler-se: «É o Presente. Entes arbóreos falam-nos do acordo feito há tempos imemoriais entre Árvores e Humanos: o Equilíbrio. São estes os “resiliEntes” que resistem e nos relembram insistentemente da nossa parte desse acordo: que há um trabalho constante a ser realizado por nós pois somos seres em potência. Seres em potência para atingir o estado de Enteléquia, a Energia que Age».


Imagem Cartaz à porta do Museu dos Biscainhos, Braga | © Joaquim Félix


O desafio é enorme. Maior será se o acordo já não fizer parte da nossa anamnesis. Se perdermos a sensibilidade à sua alteridade e linguagem. Serão as árvores ainda capazes de nos despertar da amnésia ou da indiferença? A perda de memória tem, nesta como noutras relações, consequências nefastas, desde logo para o equilíbrio, a convivência. As árvores, algumas com mais de quinhentos anos, podem inspirar-nos resiliência, o trabalho que nos cabe. E acordar o telos, que nos faz ser, desde o interior. Para sermos seres em ato. Seres de respeito e jogo na relação, que se deseja em equilíbrio. E nos faz ser aquilo que somos, seres no Ser, de nome «Eu sou Aquele que sou» (Ex 3,14).

O conceito é assim apresentado: «Usando a malha urbana da cidade de Braga e suas árvores como ponto de partida, Enteléquia pretende ser um manifesto naturalista materializado numa exposição multimédia. Assim, Enteléquia pretende proporcionar aos espectadores um espaço de memória e homenagem ao ancestral Equilíbrio através de uma investigação visual e histórica das árvores mais antigas e importantes da cidade e distrito de Braga.»


Imagem Com a investigadora Eng. Mariana Carvalho no microscópio confocal, INL, Braga | © INL


Em declarações ao jornal Diário do Minho, Luís Rosa Lopes fornece o enquadramento desta exposição: «é uma primeira apresentação de uma residência artística» (…) «este é um projeto de uma longa-metragem e esta exposição serve para contextualizar um bocadinho o projeto e uma primeira apresentação ao público daquilo que trata o projeto». O filme, na forma de videoarte, estará pronto em janeiro de 2021. Será exibido primeiro em festivais internacionais e, depois, em Braga.


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Imagem "Ginkgo Biloba" e "Liriodendron tulipifera" da Casa do Passadiço, Braga | © Luís Rosa Lopes


Luís Rosa Lopes é licenciado em Som e Imagem pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto, onde concluiu, de seguida, a especialização em Som. Em termos de produção, recordemos que o seu primeiro filme, “Meta-Semioptika”, foi premiado no 25º festival dokumentART em 2016, na Alemanha; depois selecionado para outros festivais de cinema internacionais: 37º Fantasporto (Portugal), Backup Festival (Alemanha), VAFT (Finlândia). Mais, participou também em várias exposições, sob a forma de videoarte, no LACDA (Los Angeles, EUA), Espaço Santa Catarina (Lisboa) e Fonlad (Coimbra). Em março deste ano, estreou no Festival Videoformes 2020, em Clermont-Ferrand, França, a sua segunda curta, “Kalliope e o caminho sintrópico da Musa”. «Enteléquia” será, portanto, o seu terceiro filme.

Pode parecer estranho, ou talvez não, que o Seminário Conciliar de Braga apareça no leque de instituições que apoiam este projeto, juntamente com o Município de Braga, a Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, o INL - Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, a DCRN - Mosteiro de Tibães e Museu dos Biscainhos, a ASPA (Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural), CTB-Companhia de Teatro de Braga e o Museu Nogueira da Silva. É um apoio que se manifesta em diferentes contributos: antes de mais, e em sintonia conta os valores lavrados na sinopse, para a valorização das árvores em contexto urbano, sobretudo para combater uma espécie de «cegueira vegetal», expressão de Luís Rosa Lopes. Depois, pelo fornecimento de imagens para o filme. Além disso, porque também eu, na qualidade de investigador do CITER, da Faculdade de Teologia da UCP, interpretei a importância da colaboração em sintonia com projetos em curso no Centro de Investigação.

Fica aqui o convite para, durante o mês de outubro, prestar tributo, que interpela e exige maior atenção «aos entes vegetais mais antigos que vivem entre nós», as árvores. No claustro do Museu dos Biscainhos, pode-se apreciar exemplares extraordinários implantados no distrito e cidade de Braga: desde logo o monumental carvalho-alvarinho, em Calvos, Póvoa de Lanhoso, com mais de 500 anos de idade; o tulipeiro do jardim da Casa dos Biscainhos, com 280 anos de idade, que, inclusivamente, pode ser apreciado in loco; o pinheiro bravo centenário e o par de cedros (cedrus deodara), da mata do Mosteiro de Tibães; o tulipeiro e a ginko biloba, no jardim da Casa do Passadiço; entre outros exemplares. Além de fotografias das árvores, é possível admirar os estomas de algumas folhas, através de imagens capturadas, com scanning electron microscope (técnica duotone), obtidas no INL (Laboratório Ibérico de Nanotecnologia). Antes ainda de entrar na sala para a instalação vídeo, será possível fazer, por momentos, o luto por algumas árvores mortas, cujas fotografias se encontram na “parede da morte”: do eucalipto de Moure, Vila Verde; de um cedro, no Parque da Ponte, Braga; etc.

Depois, sim, há que experienciar o vídeo, com calma e aquela noção do tempo que só as árvores incorporam, para ver como elas podem ser invisíveis, na pressa dos automóveis e no ritmo acelerado dos passantes; mas também, a sua graciosidade, que se eleva no azul dos céus, na chuva que as banha e hidrata, no silêncio que instituem, ou em suas folhas dançantes.

 

Terra Convida

Outra iniciativa inaugurada ontem, dia 4 de outubro, na Quinta do Seminário Conciliar, situada no coração da cidade, que deveremos saudar e encorajar, foi a criação da Cooperativa “Terra Convida”. É um gesto concreto e indicial que procura, a seu modo, instituir-se no combate à degradação ambiental e às alterações climáticas, a partir de um maior cuidado das propriedades agrícolas e florestais que a Arquidiocese de Braga possui e administra.

Em dia tão emblemático, D. Jorge Ortiga disse que a criação da cooperativa corresponde à vontade arquidiocesana de «comprometer-se com a cultura ecológica que é feita de pequenos gestos». Que este gesto seja seminal, em sintonia com os apelos do Papa Francisco, presentes na encíclica Laudato Si’. As palavras que o sr. Arcebispo proferiu manifestam o compromisso em trabalhar por uma «mudança radical na relação da humanidade com o meio ambiente, defendendo uma cidadania ecológica através da mudança de hábitos nocivos de consumo para acabar com comportamentos suicidas da humanidade e, positivamente, propor uma ecologia integral que ao lado do património natural englobe o património artístico, histórico e cultural» [in: Diário do Minho (5.10.20) 15]. Imbuído desta responsabilidade, também o presidente da cooperativa, cónego Roberto Rosmaninho, salientou a urgência em «potenciar o cuidado com a natureza, nomeadamente a preservação e proteção das matas, das florestas». Recorde-se que este trabalho se tem feito, conforme ele o salienta, numa «abertura muito social, nomeadamente à reinserção social com quem já existe um trabalho muito próximo, para além da dimensão da formação».

Aproveitemos ambas as iniciativas que, em expressões diversas, podem despertar-nos para as problemáticas do relacionamento dos humanos entre si e com a natureza, a fim de lutarmos por equilíbrios cujo rompimento põe em causa a qualidade da vida, senão a vida, na casa comum. Sejamos resilientes como as árvores, algumas das quais a verem há séculos as pessoas a esquecer o acordo das origens numa “cegueira vegetal”. E, como recorda D. Jorge, façamos da fraternidade um princípio político, que nos comprometerá mais, quer com a ecologia integral, quer com todos os humanos, seguindo o exemplo de S. Francisco de Assis que, como lembrou, «viu a terra como irmã assim como todos os outros seres humanos».


Imagem Alunos do Seminário Conciliar saudando a "Liriodendron tulipifera" nos jardins da Casa dos Biscainhos, Braga | © Joaquim Félix

 

Joaquim Félix
Imagem de topo: "Quercus robur L.", Calvos, Póvoa de Lanhoso.© Luís Rosa Lopes
Publicado em 05.10.2020 | Atualizado em 06.10.2020

 

 

 
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