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A encíclica "Fratelli tutti” contém «uma dimensão política que vai muito para lá do mundo da Igreja»

A “Fratelli tutti” contém «uma dimensão política que vai muito para lá do mundo da Igreja», vincou hoje a reitora do ISCTE-IUL, Maria de Lurdes Rodrigues, em conversa com o cardeal Tolentino Mendonça, no âmbito de um ciclo de debates sobre a mais recente encíclica do papa Francisco, promovido pela Universidade Católica.

Para a ex-ministra da Educação, o documento forma um discurso «que não é exclusivamente dirigido aos católicos», mas que «interpela os cidadãos em geral, os crentes, ateus, agnósticos», e, «de uma forma muito particular, os governos, os organismos internacionais e transnacionais, os empresários».

Com uma «denúncia corajosa», Francisco «é a voz de liderança política que falta nas Nações Unidas, na União Europeia, nos principais países do mundo ocidental», onde os principais responsáveis políticos são incapazes de se manifestar «acima dos interesses» dos seus estados, assinalou a professora universitária.

«Eu ouvi [no papa] uma clareza moral absolutamente invulgar. Não há vestígios de tibieza, nem de tergiversações, não há qualquer hesitação» ao vincar que os «males, desconcertos e descontentamentos» existentes em muitos países têm origem no facto de «não se respeitar o princípio fundador da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que é a de todos os seres humanos nascerem livres e iguais em dignidade e direitos», afirmou.



A dimensão política do documento, acrescentou, «é deliberada», por se tratar de «uma tentativa de despertar o diálogo sobre a sociedade», que «não cede à facilidade de encontrar uma visão falsamente consensual»



A encíclica não hesita em chamar «pelos seus nomes», sem rodeios, os problemas que põem em causa a dignidade humana: «Desigualdades – não são meras diferenças», «pobreza», «concentração de riqueza», «racismo», «xenofobia», «défices de integração dos migrantes», entre outros.

«Apesar de ser apenas uma voz, sem meios de ação – não é suposto que o papa os tenha –, ela ergue-se na proposta de uma ação programática para a construção da solidariedade; vai muito além da identificação dos problemas e das suas causas, mas apela a uma mudança, à proatividade», através de múltiplos exemplos: «É um programa que não existe em muitos dos programas dos governos na maior parte dos países da Europa».

No seguimento da conversa, o Card. José Tolentino Mendonça saudou a intervenção de Maria de Lurdes Rodrigues: «Ouvi-la, é perceber o impacto que este texto é chamado a ter na atualidade, um texto que se pretende aberto, disponível para ser apropriado não apenas pelos crentes, pelos católicos, mas por todas as pessoas de boa vontade».

«É por isso que alguém que se situa fora do âmbito religioso é o interlocutor desejável desta encíclica», observou o bibliotecário e arquivista da Santa Sé, ao constatar, nas palavras da reitora, «o potencial» do texto para «colocar as mulheres e os homens a conversar de uma forma muito livre sobre tópicos fundamentais para a casa comum e para a vida em comunidade».

A dimensão política do documento, acrescentou, «é deliberada», por se tratar de «uma tentativa de despertar o diálogo sobre a sociedade», que «não cede à facilidade de encontrar uma visão falsamente consensual».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Universidade Católica Portuguesa
Imagem: uatp1/Bigstock.com
Publicado em 09.12.2020

 

 

 
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