Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Educar não é domesticar

O ano passado, com os cansaços e as restrições que conhecemos, destacou de maneira particular um fenómeno inquietante: o progressivo enclausuramento dos nossos adolescentes no espaço cada vez mais restrito dos seus quartos. É uma reclusão voluntária, acompanhada por um número estranhamente exíguo de protestos; os jovens parecem ter aceitado esta situação de uma maneira que nos surpreende, mas que ao mesmo tempo nos inquieta. Há algo que falta nesta silenciosa adaptação, tanto que muito de nós teríamos preferido ouvi-los protestar ruidosamente, mais do que vê-los fechados horas e horas, agarrados ao ecrã de um computador ou de um telemóvel, mergulhados em atividades e relações virtuais que nos deixam de fora mais do que qualquer porta fechada à chave.

Como é possível tudo isto? Como é possível que não prevaleça a fisiológica necessidade de se deslocarem, de explorar concretamente o mundo, de viver plenamente o seu corpo, que tem na adolescência um valor tão central? As explicações mais comuns não me parecem suficientes: com efeito, penso que na base deste retiro social há algo mais, que começa de longe e muito antes da pandemia: talvez, em vez de educar os nossos filhos, nos tenhamos resignado a domesticá-los.

Educar e domesticar são processos que formalmente se assemelham: em ambos os casos trata-se de um induzir comportamentos que sabemos adequarem-se ao contexto social. A exuberância natural da criança e a sua incapacidade de exercer um controlo sobre as pulsões e as emoções deslocam para o adulto a responsabilidade de o regular e conter; graças à nossa intervenção, feita sobretudo de indicações e proibições, aos poucos a criança aprende aquilo que esperamos dela e procura conformar-se às nossas expetativas. Mas o que esperamos hoje dos nossos filhos? Para que vida os queremos acompanhar? Que valores estão por trás dos comportamentos que pretendemos fazê-los aprender?

A diferença entre educar e domesticar depende da colocação desta pergunta. Domesticar alguém não requer perguntas de sentido, mas apenas objetivos de comportamento. Se nos basta que um filho “se comporte bem”, é suficiente encontrar instrumentos que se mostrem adequados à necessidade; entre estes, telemóveis e computadores com infinitas variedades de jogos e programas à disposição tornaram-se hoje o recurso mais fácil, eficaz e sempre ao alcance da mão: em casa como no restaurante, no automóvel como na casa dos amigos. A partir do primeiro ano de vida, graças a estes instrumentos é possível obter o seu silêncio, neutralizá-los, estar um pouco em paz. É possível, mais à frente, fazer-se obedecer com chantagens ou promessas («tiro-te o telemóvel/o jogo; ofereço-te o telemóvel/o jogo novo»); é possível até, com os adolescentes, alcançar um controlo social pelo menos aparente, de maneira a que durante meses, sem protestar, renunciem a sair e a encontrarem-se uns com os outros, pregados às conversas virtuais, às redes sociais, às séries de televisão.

Mas será que, realmente, nos basta domesticá-los? Domesticá-los mantém os filhos próximos e reduz o medo pelos perigos que podem encontrar ao viver, mas abre também para o risco de fazer implodir a vida; sobretudo os jovens mais frágeis estão a mostrá-lo, com a dificuldade de retomar o curso normal das coisas, de voltar à escola, de reatar os contactos reais com o mundo. Educar prevê a dificuldade (mas também a preciosa oportunidade) de implicar-se numa relação: é conduzir para o mundo; é encorajar a fazer experiência, a pôr-se à prova, a pensar e a agir por si próprio. É indicar uma direção que possa apaixonar. Por isso educar exige ter valores em que acreditar, para inserir indicações e proibições num contexto de sentido. Caso contrário, talvez os nossos filhos não nos respondam: procurarão adaptar-se quando é necessário, mas no fim ignorarão tudo aquilo que provém de nós, considerando-o como algo de substancialmente irrelevante.


 

Mariolina Ceriotti Migliarese
Neuropsiquiatra infantil, psicoterapeuta
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Margarita Shchipkova/Bigstock.com
Publicado em 18.05.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos