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Editora do Vaticano publica “O hipopótamo de Deus”, de José Tolentino Mendonça

Imagem Capa da edição da Libreria Editrice Vaticana (det.) | D.R.

Editora do Vaticano publica “O hipopótamo de Deus”, de José Tolentino Mendonça

“L’ippopotamo di Dio – Farsi domande vale piu’ che darsi rapide risposte” é o título da tradução em italiano do livro “O hipopótamo de Deus”, do padre José Tolentino Mendonça, que a Libreria Editrice Vaticana lançou neste mês de dezembro.

O volume «trata muitos temas que acompanham a vida quotidiana dos homens. Cada página é acompanhada de referências às Sagradas Escrituras e com citações de poetas de todas as partes do mundo. Um livro ágil a ler de seguida», lê-se na página da editora da Santa Sé.

«O título faz referência ao passo da Bíblia, o livro de Job, em que Deus desafia Job, oprimido por mil dificuldades, a ver as coisas com outro olhar, porque se o mal é um enigma que nos deixa sem palavras, o bem é um mistério ainda maior», acrescenta.

Publicado originalmente pela Assírio & Alvim, “O hipopótamo de Deus” foi relançado em outubro de 2013 pela Paulinas Editora, com novos textos, nova capa, novo subtítulo – “Quando as perguntas que trazemos valem mais do que as respostas provisórias que encontramos” – e dimensões mais amplas.

A atividade editorial da Santa Sé está ligada à fundação da Tipografia do Vaticano, que remonta a 1587, sob o pontificado de Sisto V. A Libreria Editrice Vaticana, criada no século XX, é a editora oficial da Santa Sé.

 

O hipopótamo de Deus
José Tolentino Mendonça

«O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve e, que por isso, temos de vivê-lo com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos, procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como sociedade, precisamos de fazer.»

«Muitas vezes parecemos estar à espera de um qual quer sinal espetacular para tomar uma decisão de vida sempre adiada. E queixamo-nos de falta de meios para, então sim, levar a cabo aquela transformação necessária ou aquela viragem desejada ou, mais adiante ainda, aquela concretização que indefinidamente protelamos. Contudo, as verdadeiras transformações inventam os meios próprios para se expressarem, e estes, regra geral, começam por ser espantosamente modestos. Fernando Pessoa, com a caricatura dos que «conquistam o mundo sem levantar-se da cama», refere, no fundo, uma doença interior infelizmente muito comum: idealizamos de tal maneira o que pode ser a vida que ela perde, depois, o jogo por falta de comparência, sequestrada num plano cada vez mais mental e abstrato. Se a vida não decorre como imaginamos, baixamos as persianas e preferimos não vivê-la. Ora, se não estamos dispostos a aprender com a sabedoria dos pequenos passos e com a dinâmica do provisório dificilmente alcançaremos o segredo da alegria.»

«Acho que não podemos desistir de cultivar as nossas esperanças. Pelo contrário. Devemo-nos aplicar aí com a paciente entrega que um jardineiro experimentado reserva ao seu jardim. Ou então com a teimosia dos navegadores perante as paredes que o mar levanta. As nossas esperanças merecem o afinco quotidiano; merecem o nosso andar apressado; valem a paixão que nos empurra para o interior do tempo; justificam a fadiga, a tensão, o desgaste. «O sonho define a personagem», escreveu Shakespeare, e não há homem algum que não saiba que ele tem razão. A nossa esperança reflete-nos. Quem nos quiser conhecer profundamente, aceite-nos ouvir falar daquilo que esperamos.»

«Tudo e todos somos apenas caminho, experiência do inacabado, indagação no incompleto. As obras-primas não irrompem de geração espontânea. São o fruto desta gestação paciente e lentíssima onde estamos, cheia de alterações e esforço, com mais noites pesadas que suaves vislumbres. Mas, sem a esperança, nenhuma obra-prima existe. Cada uma das peças de Miguel Ângelo, por exemplo, exigia certamente mármore, mas também muita esperança.»

«A dada altura passamos a aceitar o invisível em nós e nos outros. Isto é, damos por nós a aceitar serenamente que a vida tem camadas geológicas como a terra, que a vida se expande por tempos de formação ocultos à superfície, e que em todas as existências há uma crosta terrestre e metros e metros de filamentos, mergulhados em silêncio. Ao contrário dos juízos apressadamente rasos, nos quais todos caímos, é preciso dizer que somos inacessíveis. E que os instrumentos que temos para chegar ao coração uns dos outros são inquietantemente limitados. Basta reconhecer como o nosso olhar, este olhar que tão amiúde absolutizamos, está prisioneiro do presente: aquilo que o olhar anota é sempre e só o presente histórico nas suas configurações. Enquanto que no interior de cada um, o passado e o futuro têm uma força insuspeitável, um impacto a perder de vista.»

«Se olharmos para o enredo natalício, mesmo no modo sóbrio como os Evangelhos o relatam, percebemos que nada é cor-de-rosa. O que os seus atores vão viver é uma história de instabilidade, perturbação e desconcerto. «O que é que nos aconteceu?» – ter-se-ão perguntado repetidas vezes Maria e José, mas também os pastores acordados em sobressalto ou os magos vindos de longe. «O que é que nos aconteceu?» E não tinham à mão (como nós não temos) tranquilizantes respostas, mas sim um caminho que lhes era proposto na surpresa, na maturação paciente e na confiança. O próprio local onde a cena se desenvolve, um modestíssimo piso térreo que servia de refúgio aos animais, mostra bem a implacável dureza das circunstâncias. Mas doutra maneira como é que esta divina história poderia servir de modelo para todas as histórias humanas?!»

«Às vezes, perguntam-me onde é que no mundo está a poesia. Acho que todos sabemos como o mundo pode ser um lugar prosaico e violento, sem fulgor nenhum, uma máquina de tortura para as questões do espírito, uma parede implacável que nos derruba. Mas não será apenas isso o mundo. E mesmo quando ele se parece reduzir dolorosamente a isso, não podemos esquecer que todos os dias ele é salvo.»

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 18.12.2014

 

 

 
Imagem Capa da edição da Libreria Editrice Vaticana | D.R. | D.R.
Acho que não podemos desistir de cultivar as nossas esperanças. Pelo contrário. Devemo-nos aplicar aí com a paciente entrega que um jardineiro experimentado reserva ao seu jardim. Ou então com a teimosia dos navegadores perante as paredes que o mar levanta. As nossas esperanças merecem o afinco quotidiano
Basta reconhecer como o nosso olhar, este olhar que tão amiúde absolutizamos, está prisioneiro do presente: aquilo que o olhar anota é sempre e só o presente histórico nas suas configurações. Enquanto que no interior de cada um, o passado e o futuro têm uma força insuspeitável, um impacto a perder de vista
Acho que todos sabemos como o mundo pode ser um lugar prosaico e violento, sem fulgor nenhum, uma máquina de tortura para as questões do espírito, uma parede implacável que nos derruba. Mas não será apenas isso o mundo
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