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É preciso que a alegria volte ao coração da Igreja

O maior desafio para a religião cristã, hoje, é reiterar que a alegria que o encontro com o Senhor Jesus promete e permite não é uma “coisa de católicos”, mas é destinada a todos. Há demasiado tempo a linguagem comum da pregação e da catequese, adotada pela comunidade cristã, padece da perda de incidência, do esvaziamento da provocação, da falta de capacidade de apelo, de convocação, sem sequer pensar na atenção normalmente prestada ao discurso público e político dos católicos.

Em suma, há demasiado tempo que o Deus dos católicos é um problema só dos católicos. Já não é católico! Ou melhor, é só católico. E um Deus só “católico”, paradoxalmente, já não é o Deus de Jesus Cristo. Por isso, a promessa da alegria do Evangelho surge, ao cidadão contemporâneo, como uma espécie de uma linda história, que é bom que ao menos uma vez na vida seja escutada, mas que já não chega quando se cresce, quando se chega à idade adulta, quando se deixa de se ser criança.

Portanto, é tempo de voltar a falar “catolicamente” – que à letra significa universalmente – da alegria do Evangelho.

Segundo o paradigma de leitura da “revolução espiritual”, apontado pela sociologia da religião, o cidadão contemporâneo já não se reconheceria dentro das religiões institucionalizadas, e andaria à procura de experiências de “transcendência” de modo mais livre e, sobretudo, mais desvinculado de toda a preocupação dogmática ou de fidelidade a determinado código ético prefixado. O objetivo mais importante de um tal nomadismo espiritual seria, sobretudo, o de beneficiar de uma maior reconciliação dentro da dimensão interior, e um ascendente sobre as imprevisíveis trajetórias que qualquer existência pode esperar.



A interrogação que os católicos não podem deixar de colocar-se é a relativa ao tipo de “experiência do crer” com a qual estas pessoas se encontraram no tempo em que frequentaram as suas comunidades, e que as conduz hoje a desejar uma experiência “espiritual” outra, quando não contra o próprio cristianismo



«A palavra “espiritualidade” refere-se a experiências pessoais que cada um vive em si próprio, já não tendo a preocupação de que sejam reconhecidas pelas mesmas Igrejas que, no passado, delas eram depositárias. O âmbito da espiritualidade vai, por isso, para além das Igrejas históricas, estendendo-se inclusive aos contextos laicos. É a condição secular a conferir à experiência religiosa e à espiritualidade novos perfis e conteúdos, que já não descendem de uma doutrina institucional, de um único sistema ritual, de um único estilo de vida, e que já não oferecem ao indivíduo, como no passado, a utilidade social de o tornar bem integrado no seu ambiente. Esta extensão de significado foi proposta por quantos empregam o conceito de espiritualidade para definir formas espirituais autónomas das tradições» (Luigi Berzano).

Sem querer agora entrar no específico de como e quanto tudo isto se traduz na vida concreta das pessoas, o que impressiona nos inquéritos sobre o panorama religioso contemporâneo é a insistência com que um número incrível de pessoas se reconhece nesta disposição interior, manifestando uma forte propensão para uma qualquer forma de espiritualidade. Normalmente trata-se de pessoas cristãmente batizadas e que, por um período não breve da sua existência, mantiveram relações significativas com a comunidade católica, quando não as continuam a manter, ainda que de forma intermitente.

Diante de tudo isto, a interrogação que os católicos não podem deixar de colocar-se é a relativa ao tipo de “experiência do crer” com a qual estas pessoas se encontraram no tempo em que frequentaram as suas comunidades, e que as conduz hoje a desejar uma experiência “espiritual” outra, quando não contra o próprio cristianismo. A pergunta, portanto, é: o que é que se lhes comunicou daquela alegria que nasce do encontro com o Senhor Jesus? Ou mais simplesmente: Foi-lhes comunicada? Com que espécie de cristianismo, em suma, os fizemos encontrar?



O primeiro processo a desencadear hoje, para restituir à palavra católica a sua autêntica força de provocação em relação a todos os homens e mulheres da pós-modernidade está em recolocar no centro da sua comunicação a alegria da fé



Na recente exortação sobre a santidade, “Gaudete et exsultate”, o papa Francisco reitera que a alegria que deriva da fé «é uma segurança interior, uma serenidade plena de esperança que oferece uma satisfação espiritual, incompreensível segundo os critérios mundanos» (n. 125),  e que, «normalmente a alegria cristã é acompanhada pelo sentido do humor» (n. 126). E especifica:

«Não estou a falar da alegria consumista e individualista muito presente nalgumas experiências culturais de hoje. Com efeito, o consumismo só atravanca o coração; pode proporcionar prazeres ocasionais e passageiros, mas não alegria. Refiro-me, antes, àquela alegria que se vive em comunhão, que se partilha e comunica, porque “a felicidade está mais em dar do que em receber” (At 20, 35) e “Deus ama quem dá com alegria” (2 Cor 9, 7). O amor fraterno multiplica a nossa capacidade de alegria, porque nos torna capazes de rejubilar com o bem dos outros: “alegrai-vos com os que se alegram” (Rm 12, 15). “Alegramo-nos quando somos fracos e vós sois fortes” (2 Cor 13,9)» (n. 128).

Afirmações que parecem intercetar muitas das motivações de fundo que os inquéritos revelam que estão na base do nomadismo espiritual.

Por isso, o primeiro processo a desencadear hoje, para restituir à palavra católica a sua autêntica força de provocação em relação a todos os homens e mulheres da pós-modernidade está em recolocar no centro da sua comunicação a alegria da fé, a alegria no crer, que certamente nada tira à aspereza da existência humana, mas que permite vivê-la sem se submeter a ela.

É tempo, portanto, de anunciar com uma clareza maior do que no passado – e talvez em relação às práticas atuais – que «no início do ser cristão não está uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, comuma Pessoa, que fá à vida um novo horizonte e com isso a direção decisiva» (Bento XVI, “Deus caritas est”, 1). Um encontro que é de alegria e que abre à alegria. Um encontro que é um dom e que se abre ao dom. Um encontro que é de amor e que impele ao amor. Um encontro que é vida e que transforma a vida.



E que coisa seria hoje mais bela, mais atraente e mais necessária anunciar à população urbana, tantas vezes inquieta, tantas vezes isolada, tantas vezes fechada em si mesma e no entanto aberta a algumas “espiritualidades”, que «a alegria do Evangelho que enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus»?



Neste cenário, emergem com toda a sua força de convicção as considerações que o papa Francisco consigna nos números 34 e 35 da “Evangelium gaudium”. No primeiro afirma:

«Se pretendemos colocar tudo em chave missionária, isso aplica-se também à maneira de comunicar a mensagem. No mundo actual, com a velocidade das comunicações e a selecção interessada dos conteúdos feita pelos mass-media, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários. Consequentemente, algumas questões que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora do contexto que lhes dá sentido. O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos parece então identificada com tais aspectos secundários, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos não manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, convém ser realistas e não dar por suposto que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fascínio».

Daqui deriva a conclusão operativa oferecida no número seguinte da exortação:

«Uma pastoral em chave missionária não está obsessionada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objectivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem excepções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa».

E que coisa seria hoje mais bela, mais atraente e mais necessária anunciar à população urbana, tantas vezes inquieta, tantas vezes isolada, tantas vezes fechada em si mesma e no entanto aberta a algumas “espiritualidades”, que «a alegria do Evangelho que enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus»?

A este primeiro processo de concentração sobre o essencial no anúncio do Evangelho, segue-se um segundo que diz respeito ao estilo concreto de ser comunidade. Uma comunidade que se encontra em torno da grande alegria de acreditar só pode ser uma comunidade de festa.


 

Armando Matteo
In Il postmoderno spiegato ai cattolici e ao loro parroci, Edizioni Messagero Padova
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Subbotina Anna/Bigstock.com
Publicado em 20.03.2019

 

 
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