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É a voz de Deus ou a minha? Sete sugestões sobre o que escutar na oração

Há não muito tempo, uma mulher veio ao meu encontro para a direção espiritual. Como muitos diretores espirituais, comecei por definir algumas orientações: a periodicidade dos nossos encontros, horário, direção a tomar.

Depois perguntei-lhe o que esperava da direção espiritual. A primeira coisa que disse foi: «Preciso de ajuda para compreender o que vem de Deus e o que vem» - apontou para a sua cabeça - «só daqui». Como esta pessoa compreendeu, nem tudo o que vem à cabeça provém diretamente de Deus. Claro que toda a oração é mediada através das nossas consciências, mas quando pergunto «o que vem de Deus e o que vem de mim?», a maior parte das pessoas sabe do que é que estou a falar. Há diferença entre a voz de Deus e a nossa voz.

Imaginemos que está a orar sobre a multiplicação dos pães e dos peixes, a narrativa do Evangelho em que Jesus alimenta uma imensa multidão com escassos pães e peixes. Chega à frase «pães e peixes» e embate na palavra «peixe». Recorda-se da indigestão depois de uma má refeição num restaurante. Ainda não tem a certeza de que a comida estava estragada, mas de certeza que foi do salmão. A sua mente vagueia, e promete que nunca mais vai voltar ao restaurante.

Passado algum tempo, pergunta: o que é que Deus me está aqui a dizer? Não é suposto eu seguir Jesus? Será que seguir Jesus vai, de alguma maneira, adoecer-me? Em resposta, eu diria que isto é provavelmente alguma coisa que surgiu na sua mente, e pode não haver aqui qualquer mensagem profunda. É muito provavelmente uma distração.

Imagine agora que está a rezar com o mesmo excerto, e algo diferente emerge. Surge-lhe o desejo de sentar-se e comer com Jesus. Não simplesmente porque está com fome, mas porque deseja estar com Ele. Imagina como seria bom passar tempo com Ele, como companheiro. Nunca antes pensou sobre o que significaria comer uma refeição com Jesus, e então tem uma memória de comer, quando era mais novo, com o seu amado avô. Ele foi sempre tão afetuoso e ouvia-o tão atentamente, como se não houvesse mais ninguém no mundo, mesmo quando era uma criança. O seu avô fazia-o sentir-se especial e amado. Vê-o como um verdadeiro sábio.

Estranhamente, começa a pensar em Jesus da mesma maneira como pensa o seu avô – alguém com quem gostaria de passar tempo, alguém que o ama. Esta segunda memória é diferente da primeira, não é? O que é uma distração e o que não é? Ou, talvez, uma maneira melhor de perguntar: a que é que devo prestar atenção?

Deixe-me ser claro: não há uma maneira única de discernir estas coisas, e o que aqui proponho são apenas algumas questões a interrogar nestas situações, que eu considero úteis para a minha própria vida e na ajuda a outras pessoas na sua oração.

 

Primeiro, o espírito do mal está envolvido?

Regressemos à distração provocada pelo pensamento sobre o peixe estragado. Se lhe provoca ansiedade, inquieta o seu espírito ou o afasta da sua oração, pode, de facto, não ser simplesmente uma distração, mas o que Santo Inácio de Loyola chamava o espírito do mal; um impulso que o desloca de Deus e impede o seu progresso espiritual.

Nesse caso, esse espírito está a tentar afastá-lo de Deus ou, mais precisamente, está a usar a distração para o fazer. A última coisa que esse espírito quer para si é que se aproxime de Deus. Até recorrer a um peixe estragado serve para os seus propósitos. Da mesma maneira, poderá pensar em seguir Jesus, e então começar a pensar «se eu o seguir, provavelmente terei de trabalhar com os pobres, e então ficarei doente!. Tal como quando comi aquele peixe». Isto, claramente, também não vem de Deus.

Em geral, o mau espírito tenta deslocá-lo em direção quer a maus propósitos ou, inicialmente, para um sentimento de desespero e desesperança. Santo Inácio escreve nos “Exercícios Espirituais” que numa boa pessoa o mau espírito procura causar ansiedade torturante, entristecer e colocar obstáculos. Desta maneira, perturba-a com razões falsas que visam evitar o seu progresso.

Uma forma simples de o compreender é se está a sentir desespero, desesperança ou inutilidade, isso não vem de Deus, porque, como Inácio compreendeu, esses sentimentos conduzem a impedir o progresso na vida.

Esteja também atento à linguagem “universal” que é habitualmente característica do desespero, especialmente quando unida a declarações negativas sobre si. Sempre que se der conta de que está a dizer coisas como «nada vai melhorar», «toda a gente me odeia», «ninguém me ama», «estou sempre a falhar» ou «nunca serei capaz de mudar», é muitas vezes um sinal da presença desse mau espírito. Perceba quando usa essas frases universais e tente não ouvir esses impulsos.

Pelo contrário, escreve Inácio, o espírito bom, o espírito que conduz a Deus, é aquele que age desta maneira: fomenta a coragem e a fortaleza, consolações, lágrimas, inspirações e tranquilidade. Torna as coisas mais fáceis e elimina todos os obstáculos, de maneira que a pessoa pode progredir fazendo o bem.

O mau espírito pode ser reconhecido quando sente desespero; o bom espírito quando sente esperança. Por isso, quanto tentar discernir o que vem e o que não vem de Deus, este é um bom lugar para começar.

Deixe-me dar-lhe um exemplo da minha vida. Durante algum tempo, quando era jovem, lutei com um caso moderado de hipocondria. Não era debilitante, mas fez-me sobrevalorizar problemas físicos e tornar-me excessivamente receoso de adoecer; nesse processo conduziu-me a focar-me no meu próprio bem-estar de uma maneira egoísta.

Há vinte anos, foi-me programada uma cirurgia, o que trouxe uma confusão de emoções e desencadeou alguma hipocondria - e algum "pensamento universal": «Isto é o pior de tudo», «estou sempre a ficar doente», «nunca vou conseguir atravessar isto». Mas também senti um impulso na outra direção: rumo a uma liberdade maior, a deixar ir o ego presunçoso que sempre me tinha feito centrar-me em mim, em direção à esperança.

No meio disto, encontrei-me com o meu diretor espiritual. Disse-lhe o que se estava a passar, em forma de pergunta: «É uma experiência nova de sentir liberdade e esperança no que diz respeito à doença. Todavia, sinto-me puxado para um sentimento de desespero. E parece o espírito do mal. Mas o sentimento mais amável, positivo, esperançoso, apesar de ser novo, parece que pode vir de Deus. É um novo lugar para eu viver, mas pergunto-me: será o espírito bom?». Ele praticamente pulou da cadeira e gritou: «Sim!».

Quando sentir desespero, não o escute; quando sentir esperança, siga-a.

 

Segundo, faz sentido?

Se eu estou a orar durante um tempo difícil na minha vida, e espontaneamente recordo outro tempo quando Deus estava comigo durante os meus combates, talvez eu possa ver nessa memória o desejo de Deus para que eu confie. Ou talvez eu tenha a memória de um lugar que me traz uma grande dose de calma, e então relaxo. Esta é uma maneira que Deus tem de nos acalmar.

Em contraste, se eu estou a orar durante um tempo difícil e me recordo de um “e-mail” a que me esqueci de responder, o pensamento pode não vir de Deus. No contexto do que estou a rezar não encaixa. Lembre-se, quer saber se faz sentido. Faz sentido que Deus me convide a confiar? Sim, parece que faz sentido, ou pelo menos enquadra-se naquilo que está acontecer na minha vida. Faz sentido que durante um tempo de oração sobre algo sério Deus me lembre que tenho de responder aos meus “e-mails”? Provavelmente não.

 

Terceiro, conduz a um crescimento em amor e caridade?

Este critério provém do Evangelho de Mateus, no qual Jesus diz: «Haveis de os conhecer pelos seus frutos». A voz de Deus pode ser conhecida pelos seus efeitos. Se seguir este impulso conduzir a um crescimento em caridade e amor, então é muito provável que venha de Deus.

Digamos que está a rezar sobre alguém de quem não gosta. Talvez peça a Deus para o ajudar a lidar com essa pessoa. De repente, enraivece-se por algo que ela lhe fez. Oh, pensa, adoraria dar-lhe um murro na cara.

Vinita Hampton Wright, autora de “Days of deepening friendship”, oferece uma maneira de compreender estes sentimentos. Provavelmente compreenderá que mesmo que tenha aquele sentimento durante a sua oração, Deus não está a impeli-lo para esmurrar essa pessoa. Então desloca-se deste desejo inicial para pensar sobre como pode confrontá-lo acerca de uma falta cometida por ela que o enlouquece. Pode até rezar sobre o que gostaria de lhe dizer sobre essa falta – para tirar o peso das costas. Isso parece fazer sentido, por isso pode ser tentado a pensar que Deus estava por trás disso.

Com maior reflexão, compreenderá que o confronto poderia ser muito satisfatório para si, mas provavelmente não aumentaria o seu amor por essa pessoa, nem a ajudaria a mudar para melhor – por isso, não há aumento no amor ou caridade.

Se uma ação não conduz a um aumento em amor e caridade, esse ímpeto não virá, provavelmente, de Deus.

 

Quarto, será que encaixa no que sei de Deus?

Encaixa com o Deus que conhece da Escritura, tradição e da sua própria experiência? Se for cristão, encaixa naquilo que sabe sobre Jesus?

Deus não o vai fazer odiar-se a si próprio ou acreditar que nada pode novamente dar certo, porque esse não é o Deus do Antigo ou do Novo Testamento, não é o Deus da tradição da Igreja, não é o Deus revelado em Jesus, e não é o Deus que conhece. Deus dá esperança, não desespero.

Para muitas pessoas, Deus manifesta-se frequentemente num sentimento de calma. Se isso lhe acontecer, pode começar a reconhecer como é que se “sente” Deus na oração. Em certa medida, vai conhecendo a voz de Deus, de maneira que quando a volta a escutar, reconhece-a.

 

Quinto, é uma distração?

Por vezes, é óbvio que um pensamento errante que vem à sua cabeça pode não ser de Deus. Se quando estiver a orar o seu estômago começar a dar horas, o que traz de imediato o pensamento de comer um bom hambúrguer com todos os acompanhamentos, essa noção não vem, provavelmente, de Deus. Quanto mais orar, mais capaz será de peneirar as distrações.

Pense nisto como numa conversa com um amigo. Se estiver a falar com alguém sobre um assunto importante, e repentinamente notar uma nódoa na sua roupa, desviando-se da conversa e começando a queixar-se que a lavandaria deu cabo das suas roupas, dar-se-á conta de que está distraído.

É o mesmo na oração. Normalmente consegue discernir o que faz parte da conversa e o que não faz. Da mesma maneira, com a prática poderá dizer quando uma distração é um convite para outra nova conversa.

 

Sexto, é a realização de um desejo?

Esta é, talvez, a questão mais difícil, que não é frequente estar em livros sobre a oração. Como pode saber se é o que gostaria que Deus lhe dissesse?

Aqui é especialmente importante testar as coisas. Por vezes, o que queremos ouvir é de facto o que Deus nos diz. Se estiver ansioso, rezar a Deus por alívio e se sentir mais calmo, é provavelmente Deus. Não há nada de errado em, na oração, obter o que se quer. Isto não é necessariamente a realização de um desejo; é Deus a dar-lhe o que precisa.

Mas é preciso que seja cuidadoso para não conjurar na oração a resposta que deseja. O melhor antídoto para isto é paciência, esperar pelo tempo em que Deus fala claramente.

Muitas vezes nestas situações demora tempo, e a maneira como Deus responde não é a maneira como inicialmente imaginámos que Deus responderia. Thomas Green, S.J., autor de “Opening to God”, escreve: «Se a oração é autêntica, Deus vem quando eu não o espero, e por vezes quando eu preferiria que não viesse, de tal maneira que me encontro numa situação que não domino».

 

Sétimo, é importante?

Na minha experiência, Deus entra na nossa oração nestas maneiras diretas com mais frequência quando há um assunto importante em mãos. Isto não significa que Deus não pode entrar na nossa consciência quando quiser ou sobre uma questão qualquer que seja. Mas, habitualmente (repito, na minha vida e na minha experiência como diretor espiritual), se essa entrada acontecer durante um tempo de urgência, pode ser considerada como sinal da presença de Deus.

 

Discernir o que vem de Deus e o que pode vir de si é mais uma arte do que uma ciência. Mas é uma arte especialmente importante para a vida espiritual.


 

James Martin, S.J.
In AmericaMagazine
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Tinnakorn/Bigstock.com
Publicado em 10.03.2021

 

 
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