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Duas cartas de Eusébio: «Deus ajuda sempre»

«A formação cristã que minha Mãe me deu e a que recebi também dos padres missionários que estavam lá perto da minha terra [Moçambique] hão-de ajudar-me muito na vida»: este é um excerto de uma carta que o jogador de futebol Eusébio escreveu em Lisboa, quando estava hospitalizado, em dezembro de 1960.

Noutra missiva, escrita a 5 de agosto de 1967 no Estádio da Luz, sede do Sport Lisboa e Benfica, clube do coração de Eusébio, pelo qual ganhou vários títulos nacionais e europeus, o futebolista sublinha: «Na vida há sempre dificuldades a vencer e problemas que temos de resolver. Mas resolvem-se quando a nossa vontade é forte. E Deus ajuda sempre».

As duas cartas de Eusébio da Silva Ferreira, que morreu este domingo, 5 de janeiro, em Lisboa, aos 71 anos, integram o livro O que as almas são por dentro - 99 Testemunhos, da autoria do cónego António de Azevedo Pires, publicado em 1967 pela Editorial Pórtico. São estas duas missivas que transcrevemos na íntegra.

 

Lisboa,
Hospital da C. U. F.
Dezembro de 1960.

Aqui estou neste Hospital depois da operação que há dias me fizeram. Espero que hei-de ficar bom depressa. Deus há-de-me ajudar.

Desde que vim de Moçambique lembro-me muito de minha Mãe. Escrevo-lhe muitas vezes a dar notícias minhas, porque sei que ela gosta muito de as receber. Eu gosto de lhe dar alegria. No futuro, se as coisas me correrem bem, ela nunca será esquecida, Se eu triunfar no futebol e os jornais vierem a falar de mim e se eu ganhar dinheiro grande, não quero isso para vaidade minha. Quero para dar alegria à minha Mãe. Não gosto de ser vaidoso, mas quero que os meus triunfos vão dar gosto à minha Mãe. Ela merece. Fez muito pelos filhos, por mim e pelos meus irmãos. Não esqueço a formação que me deu, para ser um homem bom e honrado.

A formação cristã que minha Mãe me deu e a que recebi também dos padres missionários que estavam lá perto da minha terra hão-de ajudar-me muito na vida.

A minha Mãe Elisa é extraordinária, Também quero ajudá-la com o dinheiro que eu ganhar.

Lembra-se da conversa que tivemos aqui, há pouco, neste quarto do Hospital, com o sr. José Travassos que veio também visitar-me? Estávamos só os três. Conversámos muito. O sr. Travassos, que foi grande jogador, foi muito largo nos elogios que me dirigiu. Ouviu aquilo que ele me disse e que eu não esperava?:

«O Eusébio, se trabalhar e se tiver sempre juízo, pode ir longe no futebol. Já o vi jogar, e digo-lhe que tem qualidades para vir a ser o melhor jogador português de todos os tempos. Aproveite-as, trabalhe e nunca seja vaidoso.»

Isto foi o que disse o sr. José Travassos ao querer ser amável comigo, lembra-se? Como sou muito novo e estou a começar a minha carreira, naturalmente ele disse aquelas coisas só para me estimular. Mas vou aproveitar o estímulo e vou trabalhar a sério, para vir a ser alguém. Não quero vaidades. Quero ser um homem, e quero dar muitas alegrias à minha Mãe Elisa.

Eusébio da Silva Ferreira

 

Lisboa,
Estádio da Luz, 5/8/1967.

Conversámos muito, em Dezembro de 1960, no Hospital, quando fui operado. Falei-lhe da minha Mãe e do muito que lhe devo, falei-lhe dos meus irmãos e dos meus desejos de vir a ser um homem como se deve ser.

Agora passados alguns anos confirmo tudo o que lhe disse então: lembro-me muito da minha Mãe e dos conselhos que sempre me deu; escrevo-lhe e às vezes telefono-lhe para ter o gosto de a ouvir e para que a Mãe Elisa tenha também o gosto de escutar a voz do filho, pois é muito minha amiga.

Ao que então disse a respeito da Mãe, junto agora um novo amor, Flora, a Mulher com quem casei.

A vida, a experiência destes 7 anos, ensinaram-me algumas coisas úteis. Tenho viajado muito, visitei muitos países imensas cidades, convivi com muita gente e aprendi alguma coisa.

Não sei se o futebol me deverá alguma coisa, mas o que sei é que eu devo muito ao futebol.

Na vida há sempre dificuldades a vencer e problemas que temos de resolver. Mas resolvem-se quando a nossa vontade é forte. E Deus ajuda sempre...

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Rui Almeida
© SNPC | 05.01.14

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