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Dostoievski, o escritor que assume a sua (e nossa) fragilidade

O escritor e cineasta austríaco Peter Handke está convicto de que «uma narração que não passa através do eu do eu do autor não é literatura, mas somente um simples produto». Uma afirmação que não poderia ser mais verdadeira no caso de Fiódor Dostoievski, um dos autores mais lidos no mundo (se o soubesse, após anos de privações e dívidas…) - e de quem se assinalam este ano os dois séculos do nascimento –, que desde a mais jovem idade foi obcecado pela observação e compreensão do humano.

São poderosas as suas palavras numa carta de 1849 ao irmão Michail, quando soube, a um passo da pena de morte, que o seu castigo tinha sido substituído por quatro anos de trabalhos forçados: «A vida é vida em todo o lado, a vida está dentro de nós, não fora. À minha volta haverá outros homens, e ser um homem entre os homens e permanecê-lo para sempre, qualquer que sejam as desgraças que aconteçam, sem lamentações, sem perder o ânimo: é nisto que consiste a vida, o seu propósito. Dei-me conta disto. Esta ideia fez-se de carne e sangue. É a verdade!».

Carne e sangue: o humano. Uma verdadeira obsessão para Dostoievski, tendo em conta que as suas obras colocam nada mais nada menos que este objetivo audaz, que foi também o de certa literatura antiga: a indagação do ser humano. Num tempo em que a narrativa mergulhava na descrição do mundo circunvizinho, da burguesia, da guerra, da História, em Dostoievski as palavras narram a profundidade da alma humana, independentemente da narração de uma trama, muitas vezes apenas superficialmente ligada ao núcleo real do romance.



«Esta sede de fé custou-me e custa-me sofrimentos assustadores, e ela cresce na minha alma tanto mais forte quanto em mim se albergam conclusões opostas. E todavia, Deus concede-me por vezes instantes em que estou absolutamente em paz; nesses momentos amo e vejo que sou amado pelos outros, e nesses momentos depus em mim o símbolo da fé no qual para mim é tudo límpido e santo»



E assim, magicamente e sem que nos dêmos conta, tornamos-nos todos Raskólnikov de “Crime e castigo”: nunca matámos por dinheiro, mas partilhamos os seus pensamentos e a sua pena. Ou o príncipe Myskin, de “O idiota”: somos menos ingénuos, mas compreendemos a sua dor e contemplamos a sua sabedoria. Os personagens de Dostoievski são todos nós, somos nós: eis um fragmento de humanidade que não sabíamos ter. Eis que explode em nós.

Mas nesta constante exploração da alma humana, onde se encontra o autor? «Descrevi-vos tudo isto e vejo que da coisa principal, isto é, da minha vida espiritual, do coração, não disse nada e nem sequer vos dei uma ideia. Será assim sempre, até nos escrevermos um ao outro. Não sei escrever cartas, e quanto a mim mesmo não sei escrever com medida».

Era o ano de 1865 e Dostoievski escrevia estas palavras. Mas como é possível que um homem que dedicou a vida à escrita e que redigiu centenas e centenas de cartas afirme que não as sabe escrever? Assim como muitos outros autores, Dostoievski não está à vontade na escrita de cartas. Para um escritor que faz da alma humana o centro da sua indagação, não há outra forma de narrar a não ser rumo à profundidade, sondando o mundo interior com toda a precisão de que se é capaz; mas fazê-lo com um personagem que se tem na mente e que, de alguma forma, se tem na mão, é uma atividade que o autor realiza com desenvoltura.



Somos seres frágeis, fora e dentro, e precisamente por isto Dostoievski experimenta piedade pelo ser humano e por si próprio, exemplo supremo desta fraqueza



Bem diferente é fazê-lo consigo próprio, ter de abrir-se ao próximo, fotografar um fragmento de si, que por sua natureza, molécula após molécula, depressa amarelecerá , definhará. Se todo o ser humano está em constante devir, fotografar o seu pensamento é, de alguma forma, para Dostoievski, um ato não natural. Só a Obra é eterna. Só a Obra é imperecível. É com a sua obra que é possível interrogar-se sobre tudo: sobre os mistérios do universo, sobre a fé.

Para ele, a escrita é um meio de constante busca da fé. A sua fé não tem nada de dogmático: é uma religião que acolhe os limites do ser humano e que pode até englobar uma qualquer forma de ateísmo, uma religião que acolhe todos e tudo, que abraça o culpado e o inocente, que matiza os contornos limpos que estamos habituados a dar às coisas e que se faz guiar só e unicamente pelo amor, motivo pelo qual a figura de Cristo resulta sempre fundamental para o autor, dentro e fora dos textos.

Numa carta de fevereiro de 1854, escreve: «Dir-vos-ei de mim que sou um filho do século, sou um filho da dúvida e da descrença, até hoje (…). Esta sede de fé custou-me e custa-me sofrimentos assustadores, e ela cresce na minha alma tanto mais forte quanto em mim se albergam conclusões opostas. E todavia, Deus concede-me por vezes instantes em que estou absolutamente em paz; nesses momentos amo e vejo que sou amado pelos outros, e nesses momentos depus em mim o símbolo da fé no qual para mim é tudo límpido e santo. Este símbolo é muito simples, e é este: acreditar que não há nada de mais belo, profundo, disponível, sensato, corajoso e perfeito do que Cristo, e não só não existe, mas digo-me com amor cioso, que também não pode existir. Além disso, se alguém me demonstrasse que Cristo está de fora da verdade, e se realmente a verdade se encontrasse fora de Cristo, preferiria ainda assim permanecer com Cristo do que com a verdade».



Eis o escritor, ei-lo pleno de vida, tão vivo que nem sequer oculta de si mesmo os seus lados escuros, sejam físicos (desde jovem que é doente de epilepsia, da qual sofrerá toda a vida) sejam interiores (basta pensar na sua paixão pelos jogos de azar)



Cristo é, portanto, máximo exemplo de amor e única via a seguir para poder suportar o peso da tragédia humana, constrangida num corpo perecível e esmagado pela fragilidade, e constrangida por impulsos nefastos que – em qualquer ser humano, mesmo o mais claro e límpido – arruinam os dias e as noites. Somos seres frágeis, fora e dentro, e precisamente por isto Dostoievski experimenta piedade pelo ser humano e por si próprio, exemplo supremo desta fraqueza. Eis o escritor, ei-lo pleno de vida, tão vivo que nem sequer oculta de si mesmo os seus lados escuros, sejam físicos (desde jovem que é doente de epilepsia, da qual sofrerá toda a vida) sejam interiores (basta pensar na sua paixão pelos jogos de azar, que várias vezes o conduzirá, e à mulher, à beira da ruína). Entrançar segmentos de si nas suas obras. Viver a escrita como uma exploração e como um assédio.

E assim Fiódor Dostoievski não é dissemelhante dos seus personagens, também ele anda às apalpadelas em busca de uma verdade superior, também ele desce aos abismos do humano, o subsolo, para depois procurar arduamente voltar a subir por um bem superior, ao qual todos são atraídos e que não devemos cessar de buscar. Continua em sangue a palavra de Dostoievski, à distância de séculos, e assim continuará, século após século. Porque, ao explorar os meandros da sua mente, através dos seus romances, fala-nos de nós, das nossas fraquezas, dos nossos sofrimentos. Faz-nos tremer. Fere-nos. Abraça-nos. É um abraço, a sua obra, doloroso e comovente como os abraços de adeus ou de reconciliação. Parece dizer, a sua obra, que a única maneira para sobreviver a esta vida é aceitar também o mal, aceitar também o “subsolo”: reerguendo-nos, encontraremos sempre alguém pronto a abraçar-nos.


 

Alice Farina
In Messaggero di Sant'Antonio
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Fiódor Dostoievski | D.R.
Publicado em 23.07.2021

 

 
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