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Do tempo e da eternidade

Olga, a protagonista de “Vai aonde te leva o coração”, tem mais de 80 anos. Poucos meses após a saída do livro, recebi o telefonema de uma senhora muito idosa. «Como é que conseguiu descrever tão profundamente a nossa idade?», perguntou-me, «não há uma única palavra em que não me tenha reconhecido!». Tinha então apenas 33 anos. Se aos 30 anos pude interpretar perfeitamente os pensamentos e sentimentos de uma pessoa muito para além disso em idade é simplesmente porque, desde que tenho memória de mim, fui sempre consciente da presença da morte. Ainda tinha à minha volta as barras do berço infantil e já pensava nas bordas do caixão que um dia acolheria o meu corpo. Mais do que estar com os meus coetâneos, gostava de frequentar as pessoas idosas. Se era livre para fazer um desenho, em lugar de uma casinha com as flores, desenhava um cemitério ou a longa e dolorosa procissão de um funeral. Sorte a minha que, nesse tempo, ainda não tinham enviado psicólogos para as escolas! A vida, contemplada no seu fluir material, parecia-me privada de sentido. Por que razão teria de repetir obsessivamente ações de sobrevivência diária quando, em qualquer instante, tudo podia ser aspirado para o nada aniquilador da morte? E depois, perguntava-me, seria realmente aniquilador? Ou, antes, tratava-se apenas de uma passagem? De sentido único, naturalmente, porque ninguém voltava para trás, mas em todo o caso sempre uma passagem. Apesar de ainda não conhecer a paleontologia, era-me suficientemente clara a brevidade dos nossos dias. Olhava à minha volta, via toda a magnificente e gratuita beleza da natureza, e perguntava-me: tudo isto para uma só representação e de tão breve duração?

Desta maneira, a pouco e pouco, em pontas dos pés, o eterno entrou nos meus pensamentos. Há o tempo e há o eterno, disse-me a um certo ponto, e nós estamos continuamente suspensos entre estas duas dimensões. Como a luz dança com a escuridão, como o masculino com o feminino, assim o tempo dança com o eterno. E esta dança é o grande mistério oculto em cada instante da nossa vida. Os rostos lívidos e contraídos da contemporaneidade, a enchente epidémica dos distúrbios psiquiátricos, a cada vez mais extensa insanidade de homicídios das pessoas que deviam ser amadas – pais sobre filhos, filhos sobre pais, maridos sobre mulheres, companheiros sobre companheiras – têm origem, em boa parte, no esquecimento do eterno. Se a nossa única dimensão é a do tempo, se a nossa posição é a de Atlas, que carrega o peso do mundo inteiro às costas, como fazemos para não nos sentirmos esmagados, para não sermos devastados pelos dardos da insanidade? À borboleta que bate alegremente as asas foi ligada uma bola de chumbo, e pretende-se que continue a voar elegantemente com esse peso em cima.



A Terra está a pedir-nos desesperadamente para reativar a profunda, quente e vivificante energia do nosso coração, para purificar o nosso olhar, tornando-o novamente capaz de distinguir com clareza aquilo que é necessário daquilo que não é



Podemos dizer que a nossa sociedade é pobre? Rica de bens, rica de artigos para venda, mas muito pobre, pobríssima de visão do humano? O mundo que nos entregou a história dos últimos quatro séculos é um mundo dominado pela racionalidade. Consideramos verdadeiro aquilo que se pode pesar, que se pode medir, que se pode vender e comprar, aquilo que, submetido aos rigorosos critérios da ciência, resulta sempre absolutamente coerente. Sabemos medir com precisão cada coisa, mas já não sabemos perguntar-nos que origens têm as leis que permitem ao universo existir. As leis da física, da química, da matemática, de onde vêm? Não fomos nós que as inventámos, fomos apenas genialmente curiosos e inteligentes para as descobrir. Mas essas leis precedem-nos. Já existiam quando assumimos a posição ereta. Já lá estavam todas quando com esforço articulámos a primeira palavra, ativando regiões cerebrais que nenhum outro animal alguma vez conseguiu ativar. Sem essas leis, o universo, a vida que povoa o nosso modesto planeta – e provavelmente povoa outros em uma qualquer galáxia – não teria tomado forma. A nossa incapacidade de ler o cosmo através da lente da humildade faz-nos afirmar com estulta certeza que é só o acaso que rege as rédeas do mundo. É esta a vulgata transmitida obsessivamente aos nossos tempos, desde o jardim-de-infância. (…)

Para a nossa espécie soou a meia-noite, como para a Cinderela. O espumante já foi vertido e estamos a aproximar os lábios do cálice para beber o primeiro sorvo. Conseguiremos? Conseguiremos beber outro, e ainda mais um? Viemos à cena do mundo com uma alteração climática, será pela mesma razão que dele nos despediremos? A nossa pequena maravilhosa Terra encontra-se num equilíbrio extremamente precário. Não é preciso ser um ideólogo catastrofista para o afirmar, basta apenas parar ao longo de um curso de água e dar-se conta de que nessa água já não há vida, ou que, simplesmente, já não há água. Basta observar a silenciosa hecatombe dos anfíbios, o imparável massacre das abelhas. A Terra está a pedir-nos desesperadamente para reativar a profunda, quente e vivificante energia do nosso coração, para purificar o nosso olhar, tornando-o novamente capaz de distinguir com clareza aquilo que é necessário daquilo que não é. Está a implorar-nos que substituamos o alvoroço pelo silêncio, porque só o silêncio é capaz de gerar novamente palavras ricas de sentido. Conseguiremos desfrutar daquelas deliciosas bolhinhas, ou deixaremos que sejam os ratos a mergulhar nas taças de champanhe? Mais uma vez, a escolha depende de nós.


 

Susanna Tamaro
In Avvenire
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: denbelitsky/Bigstock.com
Publicado em 14.01.2020

 

 
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