Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Pré-publicação: "Do outro lado da rua" assinala 25 anos da Comunidade Vida e Paz

Imagem Capa e autora | D.R.

Pré-publicação: "Do outro lado da rua" assinala 25 anos da Comunidade Vida e Paz

O livro "Do outro lado da rua - 25 anos, 25 vidas", que a jornalista Marta Atalaya redigiu a propósito do aniversário da Comunidade Vida e Paz, vai ser apresentado pelo humorista Ricardo Araújo Pereira a 17 de outubro, em Lisboa.

O volume, publicado pela Paulus, resulta de entrevistas a 25 pessoas «que marcaram e foram marcadas» pela atuação da instituição integrada na Igreja católica, refere o comunicado de imprensa da editora.

Os testemunhos «contam na primeira pessoa de que forma a comunidade entrou nas suas vidas e como as modificou. Contam os episódios mais marcantes, os bem sucedidos, mas partilham também os casos que não conseguiram salvar e ficaram pelo caminho», explica a autora na introdução.

«Entrevistei fundadores, colaboradores, coordenadores dos Centros de recuperação terapêutica, técnicos e voluntários: pessoas anónimas que já resgataram muitas vidas e que, por isso, na minha opinião, merecem ser reconhecidas. Estas são realmente as pessoas inspiradoras! E como o país precisa disso», assinala Marta Atalaya.

A jornalista registou a história de «pessoas que durante muito tempo não tiveram abrigo  e perderam tudo: a casa, a família, os amigos, a saúde física e mental, a fé, os sonhos e a esperança. Viveram durante anos em ruas sem nome, com portas fechadas, sem que alguém os olhasse nos olhos e lhes mostrasse haver saída. A Comunidade Vida e Paz mostrou!».

«Ao fazer este livro - conclui a autora - percebi como é fácil ir parar às ruas, mas tão difícil sair delas. Muitos saíram, mas voltaram, porque não aguentaram a pressão de uma  sociedade que não coloca os pobres, os idosos e as crianças em primeiro lugar. Este livro é para todos os que acreditaram que  a vida pode  ser diferente, mas também para as pessoas que duvidam que é sempre hora de recomeçar!»

A Comunidade Vida e Paz, presidida por Henrique Joaquim, colaborador do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, propõe-se «ir encontro e acolher pessoas sem-abrigo, ou em situação de vulnerabilidade social, ajudando-as a recuperar a sua dignidade e a (re)construir o seu projeto de vida, através de uma ação integrada de prevenção, reabilitação e reinserção».

Do livro, cujo lançamento decorre no Palácio Foz (Museu do Desporto), a partir das 18h30, apresentamos o segundo capítulo.

 

Do outro lado da rua
Marta Atalaya

Carlos Castanheira diz-se um sonhador e rebelde desde criança. Filho de um casal com cinco fiihos, era o único que enfrentava o pai, descrito como um homem austero e com feitio de ditador. Carlos, hoje com 55 anos, lembra-se do medo que ele e os irmãos sentiam do pai, ao ponto de se esconderem quando a mãe anunciava a chegada dele a casa. «Debaixo do "telhado" só ele mandava. As normas eram muito rígidas, todas impostas por ele, e tinham de ser seguidas à risca, era tudo à sua maneira. A comida voava até à parede quando não estava ao gosto dele ou suficientemente aquecida. Eu fazia-lhe frente e fartava-me de levar porrada para ele não bater na minha mãe. Eu era o mau da fita que não acarretava as regras. Ganhei-lhe muito medo e fechava-me na minha realidade, numa espécie de bolha, onde acabaram por entrar o álcool e as drogas.»

Carlos deixou a escola no 6.º ano. Lembra-se de ser um aluno calão, que gostava de ciências mas, sobretudo, de trabalhos manuais e pintura.

Foi com 11 anos que experimentou droga pela primeira vez: «Eu queria estar longe, fugir daquele mundo que não queria ver, porque sempre fui um "peace and love". Quando consumia drogas, despertava psicologicamente. Tinha alucinações, a pessoa vê coisas lindas e uma realidade com um filtro. Comecei pelas drogas leves, depois era mais "snifar" coca, morfina, mas tudo o que viesse à rede era peixe...»

No auge dos consumos não ia para casa, mesmo que os pais soubessem no que andava metido. Para não prejudicar a família e evitar algum conflito grave, acabou por sair de casa quando acabou a tropa e alugar um quarto. Tinha 22 anos.

Trabalhava numa oficina como mecânico e tudo o que ganhava era para o vício. Nessa altura, andava sempre sob o efeito de alguma coisa: «A droga era barata, pura e partilhava-se.»

Sempre foi muito tímido com o sexo oposto, não tinha jeito para raparigas. Foi só com mais de 30 anos que conheceu a pessoa que modificou a sua vida: Maria da Graça, mais velha que ele cinco anos, e com quem teve uma filha, Diana.

Quando foi pai, tentou livrar-se da droga e ainda conseguiu algumas paragens, não mais do que alguns meses, mas voltava sempre porque o problema estava lá...

Ao fim de seis anos a relação acabou. «Houve afastamento total por causa dos consumos. Os amigos e a família cansam-se de ajudar e ver constantemente a pessoa a cair, acaba a confiança. Depois da separação andei mais uns anos perdido. Sofri muito, de tal maneira que me enterrei mais. Recordo de me meter num carro e ir procurar droga para aliviar as terríveis dores que sentia no corpo. Já não era para curtir, para andar com a cabeça no ar, mas sim para acabar com o mal-estar que sentia.»

Mais tarde, conheceu aquela que viria a ser a segunda mulher, Maria José. Estiveram casados 15 anos e tiveram duas !lhas: Mara Lúcia, a quem chamam “Marita”, de 11 anos, e Nádia, de 18 anos.

 

Desespero e suicídio

Falar das filhas leva-o à infância.

Desde muito pequeno Carlos consultou vários psicólogos, porque o que sentia, fazia e sonhava não era próprio de uma criança. «Tinha pesadelos horríveis, que me puxavam para um buraco, e desde cedo senti muitas vezes a vontade de desistir da vida.» Em adulto, tentou três vezes o suicídio, no espaço de um ano.

FotoCarlos Castanheira | D.R.

A primeira tentativa foi depois da separação da segunda mulher. «Fechei-me na casa de banho de casa e cortei-me todo. Era mais sangue nas paredes e no chão do que dentro do meu corpo. A segunda tentativa foi com gás, mas uma das minhas filhas, a Nádia, apareceu em casa e salvou-me. Depois houve uma terceira tentativa, com comprimidos, mas uma vizinha ajudou-me. Fui internado sete vezes em psiquiatria. Uma das vezes estive um mês e meio altamente medicado, parecia um zombie. Dormia e, quando estava acordado, lembro-me que me babava todo... Sentia-me sozinho e abandonado.»

A mulher e as filhas deixaram a casa e Carlos, sozinho, vendeu todo o recheio para ter dinheiro para consumir. Ao fim de uns anos, o caso foi para tribunal e Carlos recebeu ordem para deixar a casa em benefício da ex-mulher e das filhas. «Quando perguntei ao juiz o que eu iria fazer, para onde iria viver, ele disse-me para ir para debaixo da ponte.»

E viveu na rua, com vergonha de voltar para casa de familiares, amigos ou pedir ajuda. Dormia num canto ou noutro, para os lados de Vila Franca de Xira, na freguesia do Forte da Casa, e Lisboa. «Na rua não criamos amizades, porque se nos afeiçoamos corremos o risco de ter grandes desgostos, porque era muito comum haver recaídas e termos a notícia de que alguém tinha morrido.»

As drogas afastaram-no de tudo e todos. Tem pouco contacto com as filhas mais novas. Com Mara ainda se corresponde por Facebook, mas com Nádia está mais difícil a aproximação. «Compreendo as marcas que ficaram nelas. Chegaram a receber apoio psicológico, porque não é fácil verem o pai drogar-se. Fiz coisas incríveis. Foi a minha filha Nádia quem me salvou na segunda tentativa de suicídio. Ainda estou para saber por que razão ela voltou a casa, à hora do almoço, e me apanhou caído. Acordou-me com água, quando já estava inanimado. Todos os dias, interiormente, lhes peço desculpa, mas sei que não vai ser fácil elas perdoarem -me. Será preciso tempo.»

Com a filha mais velha, Diana, de 27 anos, a aproximação aconteceu há uns anos e desde aí nunca mais se largaram. Há uma década que não se viam porque ela vive em Londres, onde trabalha como tatuadora. Quando veio a Portugal foi procurá-lo. «Foi inexplicável o reencontro. Não a via há dez anos, ela estava tão diferente. Ela aceitou-me, abraçou-se a mim a dizer que me compreende e que nunca mais me vai perder. Eu sei que é difícil, há um estigma e rótulos muito fortes. Mesmo quando estamos limpos, as pessoas perguntam: "Até quando?"»

A resposta de Carlos está em 2007. Está «limpo» há sete anos, porque quis realmente mudar de vida. «Uma pessoa só pode ir para tratamento por si, não porque a mulher, os filhos, amigos ou família a abandonaram. Temos de ir por nós próprios.»

Carlos tinha perdido tudo e sentia-se sem saída: se por um lado não conseguia estar sem droga, quando consumia caía na depressão e na vontade do suicídio. Cansou-se de não conseguir sobreviver sem substâncias e de não saber lidar com os seus problemas, os interiores e de adição.

Um amigo falou-lhe do CRAS, o Centro de Alcoologia de Lisboa, onde esteve a fazer tratamento durante seis semanas para se livrar do álcool. Seguiu-se o Centro das Taipas, para deixar as drogas pesadas, e foi nessa altura que lhe falaram da Comunidade. Os técnicos diziam que Carlos precisava de estar numa instituição onde pudesse ter tempo e ajuda para lidar com os seus problemas e fragilidades.

Foi a 22 de abril de 2006 que entrou no centro de Venda do Pinheiro. Estava determinado em curar-se e entregou-se de alma e coração.

«O vazio que fui vivendo ao longo do tratamento foi sendo preenchido com a presença de Deus em mim. A fé foi o meu principal motor de arranque e hoje tenho um sentimento de missão: o que fizeram por mim eu quero fazer pelos outros. Eu sou o testemunho vivo de que vale a pena continuar! A droga só tem um fim: a morte.»

Nos primeiros três meses não teve qualquer contacto com o exterior, mas ao fim desse tempo já ia a Lisboa levar outros rapazes para tratamento. A primeira vez que chegou à cidade pareceu-lhe estranha, desconhecida, como se estivesse no estrangeiro, tal foi a mudança que o tratamento fez em si. «Fizeram-me um "reset", como nos computadores. Limpa-se a memória, cria-se uma diferente.»

Carlos reconhece que os traços e defeitos de personalidade não podem ser apagados mas sim modificados, o que para si foi importante em matéria de orgulho e humildade. «Hoje sou um homem novo e um pai diferente. Esta casa acolheu-me, aprendi a aceitar e a lidar com o problema que tinha e outros que desconhecia. Deu-me as ferramentas necessárias para gerir as dificuldades que me acompanharão no resto da vida, porque o problema está cá. Esta instituição aceitou-me com a roupa que tinha em cima do corpo, deu-me comida, dormida, a atenção que eu precisava em todos os aspetos – psicológico, psiquiátrico e clínico –, os valores humanos que outrora eu tinha perdido. Só ao fim de nove meses a Comunidade começou a receber a comparticipação para me tratar. E como eu sei que é difícil manter uma cama ocupada sem ajudas!»

É por gratidão que Carlos usa agora o seu exemplo para tentar recuperar pessoas que estão em circunstâncias idênticas.

Recorda quando há uns tempos foi fazer um «resgate emocional» com uma das técnicas da Comunidade: «Fomos a um quarto da Santa Casa buscar uma pessoa sem-abrigo que tinha sido retirada da rua. Estava altamente debilitada, porque há anos que só ingeria álcool, praticamente não comia. Era a decadência total, mas hoje nada me choca: lavo-os, visto-os, calço-os e digo para levantarem a cabeça. A minha função é abaná-los e despertá-los, dizer-lhes que eu também estive lá, no fundo do buraco, e que consegui.»

Quando Carlos deixou o centro de Venda do Pinheiro, e porque não tinha para onde ir, foi viver para um quarto na sede da Comunidade, em Lisboa. Como gostaram do seu trabalho, convidaram-no para ser condutor das carrinhas da Comunidade e tratar da manutenção dos veículos e de todos os equipamentos. Em simultâneo, arranja computadores, porque durante o tempo de internamento aprendeu informática e gráfica, ele que não sabia sequer o que era uma tecla de computador.

Ao fim de cinco anos, em setembro último, deixou a sede para ir viver em casa da ex-mulher, Maria da Graça, que lhe ofereceu um quarto. «Para já não passa de uma amizade. Sempre tivemos uma grande compreensão, é uma ligação que vem de trás. Ela é excecional e sempre foi uma grande conselheira. Quando soube onde eu estava, veio ao meu encontro. Por isso devo-lhe uma grande percentagem da minha vida.»

Carlos continua a ter as mesmas funções na Comunidade. Vai trabalhar todos os dias, com diferença de que não passa lá 24 horas por dia. «Em termos materiais, quero muito pouco. Basta-me ter uma casa para me proteger da chuva e do frio, nada mais...»

Carlos conquistou uma grande serenidade e paz dentro de si, mas não perde a consciência do que fez. Diz que tem orgulho por ter tido a capacidade de ter procurado ajuda quando entendeu que sozinho não conseguia. «Há maneiras complicadas de se reconhecer os erros, eu precisei de ir até ao fundo do poço, mas consegui, despertando para uma vida diferente.»

Com os pés bem assentes na terra, confessa que não tem grandes projetos. «Hoje estou bem, amanhã logo vejo. Vivo um dia de cada vez, mas sonhos… tenho muitos: o maior desejo é que o mundo fosse como esta Comunidade, em que todos se veem como irmãos. Sei que ainda estamos tão longe disso…»

 

Marta Atalaya
In: Do outro lado da rua
Publicado em 10.10.2014

 

Tírulo: Do outro lado da rua - 25 anos, 25 vidas
Autora: Marta Atalaya
Editora: Paulus
Páginas: 200
Preço: 10,00 €
ISBN: 978-972-301-805

Comunidade Vida e Paz

 

 
Imagem Capa | D.R.
Uma pessoa só pode ir para tratamento por si, não porque a mulher, os filhos, amigos ou família a abandonaram. Temos de ir por nós próprios
O vazio que fui vivendo ao longo do tratamento foi sendo preenchido com a presença de Deus em mim. A fé foi o meu principal motor de arranque e hoje tenho um sentimento de missão: o que fizeram por mim eu quero fazer pelos outros. Eu sou o testemunho vivo de que vale a pena continuar! A droga só tem um fim: a morte
Hoje sou um homem novo e um pai diferente. Esta casa acolheu-me, aprendi a aceitar e a lidar com o problema que tinha e outros que desconhecia. Deu-me as ferramentas necessárias para gerir as dificuldades que me acompanharão no resto da vida, porque o problema está cá
Esta instituição aceitou-me com a roupa que tinha em cima do corpo, deu-me comida, dormida, a atenção que eu precisava em todos os aspetos – psicológico, psiquiátrico e clínico –, os valores humanos que outrora eu tinha perdido
Como gostaram do seu trabalho, convidaram-no para ser condutor das carrinhas da Comunidade e tratar da manutenção dos veículos e de todos os equipamentos. Em simultâneo, arranja computadores, porque durante o tempo de internamento aprendeu informática e gráfica
Há maneiras complicadas de se reconhecer os erros, eu precisei de ir até ao fundo do poço, mas consegui, despertando para uma vida diferente
Hoje estou bem, amanhã logo vejo. Vivo um dia de cada vez, mas sonhos… tenho muitos: o maior desejo é que o mundo fosse como esta Comunidade, em que todos se veem como irmãos. Sei que ainda estamos tão longe disso…
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos