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Do (des)confinamento dos museus eclesiásticos. Desafios e atuações no Museu de Arte Sacra do Funchal

Seguindo de perto a evolução da disseminação do vírus e propagação da infeção  pandémica do COVID19, tanto na escala global, como nacional, o Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF) decidiu suspender, adiar e cancelar, logo do dia 10 de março de 2020, o conjunto das diferentes atividades agendadas que envolviam uma relação mais direta e presencial com os seus públicos. Depois de um período desafiador e de (re)invenção inesperada, o MASF reabre ao público no dia 18 de maio. 

 

I – As exigências de um período de confinamento 

De todas as funções museológicas, a exposição e a comunicação/educação em torno da arte e do património, na sua vertente material e imaterial, junto dos públicos que nos visitavam, foram aquelas que mais diretamente se ressentiram com as medidas de contingência adotadas, o que obrigou a cancelamentos e reajustes. Todas as outras funções, designadamente as de gestão, estudo e inventário continuaram a ser realizadas em teletrabalho, e a conservação preventiva das coleções e espaços foi reajustada de acordo com o plano de contingência desenhado. 

O primeiro grande cancelamento de atividades públicas ocorreu desde logo com a quarta edição d´”As Conferências do Museu 2020” que deveria ter acontecido no MASF nos dias 12 e 13 de março (https://conferenciasmasfsite.wordpress.com/).  O intenso trabalho de programação e contactos estabelecidos, a nível regional e nacional, para dar corpo ao tema “Museografia: espaços e discursos”, vinha sendo elaborado desde novembro de 2019. Em face à perda avultada das receitas no museu, provenientes dos ingressos e das aquisições na loja e garantidas, essencialmente, pelos turistas estrangeiros, o MASF já não irá realizar esta edição em 2020. Todas as exposições programadas para maio e julho foram canceladas. No mesmo seguimento, todas as atividades de mediação educativa em torno da arte e do património do MASF, agendadas com o público escolar e sénior da Madeira, foram imediatamente cancelados.

Enquanto que o trabalho invisível de gestão e estudo das coleções, por exemplo, continuou sem dificuldades, foi o serviço educativo e de programação cultural aquele que, com a colaboração pontual dos técnicos das diferentes funções museológicas na estruturação e investigação de conteúdos a partilhar, mais recorreu ao meio digital para, através das redes sociais (Instagram, Facebook, Youtube), criar um espaço significativo de interação, de presença e de criação de sentidos junto dos mais diferentes públicos e em relação aos novos tempos. A transposição e divulgação de conteúdos para o meio digital permitiu tornar público o tipo de planificação conceptual das ações educativas até então desenvolvidas exclusivamente no contexto presencial, revelando, assim, a articulação das dimensões material e imaterial na divulgação e estudo do património histórico e artístico conservado no MASF, em estrita ligação pastoral às vivências eclesiais de um calendário litúrgico diocesano. Em suma, as atividades de âmbito museológico e educativo propostas “online” ao longo de dois meses de confinamento social, contribuíram para o conhecimento material dos objetos artísticos, dentro das funções museológicas mais tradicionais sem descurar, no entanto, da dimensão imaterial a eles associados. Com efeito, a comunicação “onlineda dimensão pastoral da arte sacra constituiu-se como um exercício de divulgação da memória, das tradições, usos e práticas associadas à liturgia e à devoção da comunidade eclesial, e da sociedade civil, devidamente contextualizados no território insular.



Imagem Imagem da página do MASF no Instagram | D.R.


Uma janela para o infinito

A primeira publicação nas redes sociais que marcou o encerramento o MASF e o início do período de confinamento, apresentou o vídeo intitulado “Uma janela para o infinito”, mas cuja apresentação pública estava inicialmente programada para as conferências do museu então canceladas. O vídeo, que surgiu acompanhado da seguinte legenda “Uma janela para o infinito – Identidade visual do MASF. Fechamos a porta em tempos de contenção. Mas a “janela para o infinito” mantém-se aberta”, dá conta da formulação de uma imagem orgânica, que se corporiza a partir do âmago do edifício do antigo paço episcopal, articulado com as suas coleções e aberto ao mundo exterior, através de janelas múltiplas, reais e simbólicas, que tomam como inspiração direta as palavras de D. Teodoro de Faria quando este refere que «a missão da arte sacra sempre foi a de elevar, iniciar a contemplação, ser uma janela para o infinito». No seguimento da publicação deste vídeo, a criação de janelas de sentido e de entendimento da muldimensionalidade do património eclesial do MASF foi efetivada a partir dos écrans digitais, nomeadamente através das diferentes atividades e rubricas temáticas publicadas nas redes sociais nas semanas seguintes. 










11 mestres flamengos para conhecer no MASF

Preparada para divulgação alargada e início marcado para assinalar o Dia da Anunciação, a rubrica “Conheça os 11 mestres flamengos no MASF” foi pensada para dar a conhecer a coleção mais emblemática do Museu de Arte Sacra do Funchal, a coleção de Arte Flamenga. Trata-se de uma iniciativa que dá a conhecer os nomes dos mestres, das oficinas e seguidores, caraterizando, do ponto de vista histórico e artístico, as principais influências, caraterísticas e traços distintivos das obras, ao mesmo tempo que  carateriza e dá a conhecer as principais encomendas artísticas e a devoção cristã católica dos primeiros madeirenses. 



Imagem Grafismo de apresentação da rubrica | D.R.


Como um jardim expandido

Quando o confinamento social obrigatório ditou o encerramento do MASF a 13 de março, faltavam alguns dias para a celebração da primavera, assim como a aproximação, a passos largos, da Páscoa que passou a ser forçosamente celebrada em casa. Foi neste quadro de procura poético-simbólica, espiritual e religiosa que a rubrica “Como um jardim expandido” foi desenhada para celebrar, num primeiro momento, a força regenerativa da primavera e abrir caminho, num segundo momento, à celebração da Páscoa. As coleções do MASF foram observadas na perspetiva de se identificar, selecionar e publicar, até ao dia da Ascensão de Cristo, os diversos pormenores da representação da natureza, designadamente das plantas, das flores e dos frutos que, qual um jardim vasto e fecundo, existem nas diversas expressões artísticas da arte sacra, testemunhando entre as múltiplas narrativas, a glória de Deus e a intenção religiosa que é inerente e anima toda a criação. 

A primeira publicação desta rubrica consistiu numa animação em vídeo, que apresenta uma Jarra de Prata do século XVIII, proveniente da Sé do Funchal, contendo no interior um conjunto de íris naturais, num exercício de restituição da função original de um vaso de altar e o seu papel utilitário e simbólico, enquadrada da seguinte forma: 

«Aproxima-se a celebração do Domingo de Ramos no próximo dia 5 de abril, festa que assinala a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Marcos 11:1; Mateus 21:1-11; Lucas 19:28-4 e João 12:12-19). Uma das expressões mais marcantes desta celebração é o momento em que as diferentes comunidades de cristãos se juntam para a bênção dos seus ramos primaveris, compostos por diferentes ramos de árvores, ervas medicinais, palmitos, ou folhas simples de palmeira, numa clara e ancestral alusão aos relatos bíblicos da entrada triunfal de Cristo. Os ramos que se levam para casa, neste contexto, relembram, assim, o triunfo e a união em Cristo, na mesma luta pela salvação do Mundo. 

Este ano todas as celebrações de união e presença social têm sido reinventadas por força das circunstâncias sanitárias em que se vive. Apesar do quadro de contenção e isolamento social a Primavera chegou forte, como sempre, e com ela a esperança na renovação cíclica da vida. 

Passaremos, com efeito, a partilhar convosco, num gesto simbólico de esperança por um tempo melhor e de regresso à fruição presencial do nosso património conservado no museu, as flores e as plantas que, como num jardim expandido, se revelam na multiplicidade simbólica e estética das nossas coleções de ourivesaria, escultura, pintura, têxteis, mobiliário. 

Desejamos a todos os nossos pares, visitantes e amigos do MASF a promessa de dias gloriosos e uma Páscoa sentida.»



Imagem Imagens da animação vídeo que apresenta uma jarra do século XVIII da Sé do Funchal | D.R.


A mesma rubrica acolheu algumas publicações que assinalaram o tríduo pascal. A primeira referiu-se ao desafio simbólico proposto pelas Dioceses portuguesas, que consistiu em celebrar a Páscoa em casa, sugerindo a presentação de uma cruz na sexta feira-santa, estrutura que se previa simples e deveria de ser coberta de flores no Domingo da Ressurreição. A primeira imagem apresentou a seguinte legenda:

«Uma cruz na porta. As famílias cristãs portuguesas foram desafiadas e viver a Páscoa de uma forma diferente, construindo e colocando uma Cruz na porta de cada lar. A Cruz deverá ser feita com as ramagens da época, ou os materiais que cada um entender. No domingo de Páscoa deverá vestir-se de flores para celebrar a Ressurreição! Partilhamos aqui o nosso singelo exemplo: uma base feita com alecrim que deverá ser decorada com “estrelas” em breve! Inspire-se e acompanhe-nos!»



Imagem Imagens da estrutura da cruz feita em alecrim, na Sexta-Feira Santa e coberta de flores no Domingo de Páscoa | D.R.


Celebração da Quinta-feira Santa fez-se através da partilha de duas imagens que evocaram a tradicional transição das obras conservadas no MASF para o interior da Sé do Funchal demonstrando, dessa forma, a utilização litúrgica da arte sacra no contexto do culto original. Essas imagens foram enquadradas da seguinte forma: 

«Hoje, Quinta Feira Santa, é o último dia da Quaresma e a abertura do Tríduo Pascal, após a missa vespertina. Neste dia relembra-se a instituição da Eucaristia por Cristo na ceia de despedida, antes da sua morte. Através de uma lição de humilde serviço, Jesus lavou os pés aos seus apóstolos, tornando-os em sacerdotes mediadores da sua Palavra, dos seus sacramentos e da sua salvação. 

Há no Museu de Arte Sacra do Funchal duas obras artísticas que são emprestadas anualmente à Sé do Funchal para cumprir a sua função litúrgica original, durante a Semana Santa. Excecionalmente este ano, devido à situação pandémica atual, o conjunto escultórico da Última Ceia (MASF 346) e a Urna Eucarística (MASF71), não transitaram para a Sé onde são expostos no altar sul do transepto, no mesmo lugar onde, outrora, era montado o camarim.

Observemos com atenção a assinável urna do Santíssimo Sacramento, objeto litúrgico destinado a encerrar o Santíssimo Sacramento na Quinta-feira Santa. De linguagem barroca, a urna apresenta motivos florais e vegetais, cabeças de anjos, e símbolos eucarísticos (ostensório, espigas de trigo, o cordeiro, uvas). A urna é encimada pelo livro dos sete selos sobre o qual assente o cordeiro, modelado em vulto redondo, que sustenta um pendão no qual está gravado Ecce Agnus Dei.»

Na sexta-feira santa a rubrica foi assinalada, com um vídeo que apresentou a seguinte legenda: 

«Uma coroa de espinhos, uma coroa de glória. “Fizeram uma coroa de longos espinhos, a colocaram na cabeça d'Ele, e lhe puseram uma vara na mão direita, como se fosse um cetro, ajoelhando-se diante d´Ele em sinal de zombaria. ‘Salve o Rei dos Judeus’, gritavam eles” (Mateus 27:29). “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hebreus 2: 9)

A coroa, ou carapuça de espinhos, duros e dilacerantes, que provocou sofrimento desfigurante, foi um dos instrumentos da Paixão de Cristo (Arma Christi). Depois da colocação da túnica purpúrea sobre Cristo, a coroa de espinhos foi o objeto que mais falou do escárnio a que foi sujeito. 

Do ponto de vista botânico é inconclusiva a determinação da espécie utilizada na realização da coroa de espinhos, embora sejam apontadas, como hipóteses, algumas espécies existentes em Jerusalém e no Médio Oriente, entre elas, a Ziziphus jujubas; a Ziziphus lotus; a Acacia pachyceras e a Acacia raddiana.

No contexto barroco insular, era comum colocar-se sobre a cabeça das imagens de Cristo usadas nas estações da Paixão uma cabeleira e uma coroa de espinhos naturais, imprimindo, desta forma, maior realismo e compaixão às cenas representadas.

A coroa (c. 1891-1900) utilizada nesta animação pertence a uma escultura de um Cristo Morto (séc. XVIII). Foi feita com espinhos verdadeiros de ramos secos de buganvília (Bougainvillea spectabilis), nativa da América do Sul, há muito introduzida na Madeira e no Porto Santo. Esta espécie pode apresentar brácteas de diferentes tonalidades como a cor púrpura, aqui utilizada para simbolizar a promessa de Renascimento e Ascensão.»










Entre o arquivo e a retrospetiva

Das várias publicações com propósitos educativos e devidamente enquadradas com textos de pendor histórico-religioso que revisitam as coleções do MASF, constaram as celebrações de várias efemérides, entre elas a do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, a 18 de abril, o Dia da Mãe, com publicação em vídeo associada a Maria; o dia nacional do Azulejo ou celebração do dia 1 de maio, que assinalou o dia de São Tiago Menor através de duas publicações: 

“Dia 1 de maio: Dia de S. Tiago Menor, padroeiro do Funchal”
As coleções do MASF são inestimáveis por inúmeros motivos e um deles é a profunda ligação à História da Madeira. Conservam-se no museu duas importantes pinturas flamengas que são verdadeiros documentos associados ao voto da cidade do Funchal e a sua devoção a São Tiago Menor, eleito como padroeiro e protetor da cidade, numa altura em que grassava a peste e era grande a mortandade. O voto foi feito na Sé em 1523 na presença do capitão da ilha, Simão Gonçalves da Câmara, os vereadores e oficiais da Câmara, o Senhor Deão, o cabido da Sé e outros elementos do Clero, ficando determinada a construção de um templo em honra de São Tiago Menor, a nascente da cidade. A partir desse ano foi sempre realizada a procissão, em cerimonial idêntico ao do Corpo de Deus, para dar cumprimento à promessa. Nas procissões dos primeiros anos saía a pintura atribuída a Dieric Bouts, que representa São Tiago Maior, transformado em Menor por força da urgência sanitária da época e porque não havia representações deste santo na ilha naquela altura. Posteriormente, entre 1527 e 1531, foi encomendado e pintado um importante tríptico para a referida igreja, encomendado por Simão Gonçalves da Câmara, que representa São Tiago Menor ao centro, acompanhado de São Filipe. Partilhamos aqui algumas imagens dos rostos de São Tiago existentes nas pinturas flamengas acima mencionadas, assim como a capa e algumas reproduções do interior do folheto que mostra o documento quinhentista do auto do voto, mandado imprimir, em 1942, pela Câmara Municipal do Funchal para justificar o restabelecimento da Procissão votiva do 1º de maio, que havia deixado de acontecer com a implantação da República em 1910” ; 



Imagem Pormenor da Pintura de São Tiago atribuída da Dieric Bouts do fim do século XV | D.R.


“A procissão de São Tiago Menor”
Imagens de um passado recente. Face às circunstâncias sanitárias atuais a realização da procissão de São Tiago Menor não pôde acontecer nos moldes a que todos estamos habituados. Em jeito de retrospetiva, partilhamos aqui um conjunto de fotografias realizadas por Pedro Freitas para a exposição "Paisagens, a presença do religioso" que o MASF preparou em 2016 para celebrar o dia 18 de maio, Dia Internacional dos Museus, em torno do tema anual relacionado com as "Paisagens culturais". Nesta exposição, que colocou em diálogo as peças de Arte Sacra antiga do MASF com as intervenções de vários criadores contemporâneos da região, Pedro Freitas mostrou a sua interpretação das celebrações do padroeiro na paisagem urbana, tendo posto em evidência os principais gestos e testemunhos materiais de uma religiosidade vivida em comunidade no espaço público.



Imagem Uma das fotografias de Pedro Freitas, 2016, da procissão de São Tiago | D.R.

Imagem Exposição temporária “Paisagens, a presença do religioso” no MASF em 2016 | D.R.


Durante as publicações no período de confinamento o Museu aderiu, ainda, a desafios internacionais que articularam em rede os museus a partir de partilhas e desafios comuns, nomeadamente o MuseumBoquet ou os Remakes interpretativos das obras, realizados no contexto doméstico e partilhadas nas redes pelos utilizadores aderentes. Outras rubricas temáticas foram ainda iniciadas, como por exemplo “O MASF nas imagens em Movimento”, apresentando-se como uma partilha “de materiais didáticos audiovisuais antigos, do arquivo do Serviço Educativo do MASF, convertidos de VHS para MP4” que documentam o museu num contexto cruzado com a museologia, o património, a história e a cultura regionais e locais. 

 

Formas de Esperança

De todas as publicações realizadas durante o período de confinamento, há ainda a destacar aquela que teve como título “Formas de esperança #1 Um muro de flores, a norte, e um painel de virtudes a sul” que demonstra o tipo de articulação aberta e criadora de sentido entre o património artístico religioso conservado no MASF e as festividades cíclicas e urbanas vivenciadas na ilha:

«"Há semanas, parece que a tarde caiu. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e de um vazio desolador… Nos vimos amedrontados e perdidos." (Papa Francisco, 27 de março de 2020).

Este é um tempo onde a palavra Esperança mantém-se ainda mais forte nos desejos do mundo em ultrapassar uma inesperada tempestade, que agitou os modos de vida contemporâneos, ameaçando-os de naufrágio. Hoje, dia 2 de maio, na programação inicial da SRTC para as animações da Festa da Flor que envolvem toda a ilha, seria o dia em que largas centenas de crianças dos infantários e escolas locais haveriam de repetir um gesto simbólico e essencial, colocando uma flor primaveril num muro que se constrói, desde a década de 1981 junto à fachada norte do edifício do MASF, para celebrar a esperança num mundo sedento de pacificação e cura.

Hoje não será possível renovar os votos com o cortejo habitual na cidade. Deverá, excecionalmente, acontecer em Setembro. Os problemas globais com a vida humana na "casa comum" também não diminuíram, mas este será certamente um tempo de intensa e desejável preparação e reflexão, em isolamento social, é certo, mas ancorado na Esperança construtiva de um tempo novo, formulador de formas mais serenas e justas de navegar coletivamente. Partilhamos aqui imagens que são interpretações e faces de uma mesma Esperança: 1) De uma esperança que se constrói na confiança e compreensão entre os homens, apresentam-se alguns registos do mural construído anualmente pela pureza de gerações infantes, junto à fachada norte do edifício; 2) De uma esperança radicada na confiança das promessas de Cristo e na procura da felicidade no Reino dos Céus, apresenta-se a alegoria da Esperança existente no painel de azulejos barrocos que representam as virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade) na fachada sul do edifício do MASF.»



Imagem Muro da Esperança feito com flores a norte do edifício | D.R.

Imagem O painel de azulejaria que representa a virtude teologal da Esperança, a sul | D.R.


II – Os desafios do período de desconfinamento

As fontes de receita do MASF são provenientes essencialmente de um público turista pagante, que representa cerca de 75 por cento dos ingressos no Museu. A frequência pública regional restringe-se aos 25 por cento das entradas e dentro dessa percentagem estão sobretudo as visitas realizadas ao vasto público escolar e grupos seniores. 

Com o turismo praticamente parado no arquipélago e o estabelecimento de novas regras sanitárias que condicionam a receção de grandes grupos nas visitas presenciais, o regresso dos públicos locais tornou-se ainda mais incerto. Com as escassez das fontes de receita adivinha-se um período de dificuldade financeira nos próximos meses, que irá obstaculizar  a atualização, manutenção e conservação de insfraestruturas, equipas e meios de comunicação inoperacionais, como o sítio do museu na web. Perante este cenário, restará ao MASF continuar o seu trabalho mais invisível ao público, no que se refere ao estudo, gestão, conservação do património à sua guarda, dentro das possibilidades atuais. As funções da exposição e comunicação das coleções nas suas vertentes tangíveis e intangíveis e nos moldes conceptuais e pastorais atrás enunciados, terão de continuar por via da partilha de conteúdos nas redes socais e meios digitais de que dispõe.

O início do período de desconfinamento e a abertura do MASF ocorre a 18 de maio, com um novo horário pensado para acolher o público regional. Passará a estar aberto semanalmente de terça-feira a sábado entre as 14H00 e as 17h00. O preço de entrada no museu baixa dos 5 euros para os 3 euros. 

 

O Dia Internacional dos Museus 

Para assinalar o Dia Internacional dos Museus, o MASF preparou um desafio para decorrer nas redes sociais, que consiste na realização de uma exposição virtual intitulada “Tenho uma peça de museu! Narrativas da religiosidade doméstica”. 

“Tenho uma peça de museu! Narrativas da religiosidade doméstica” é o título da proposta que o MASF apresenta no sentido de ir ao encontro do tema proposto pelo ICOM para a celebração do dia Internacional do Museus, a 18 de maio, este ano assente na problematização dos museus enquanto espaços de igualdade, inclusão e diversidade.

Neste sentido, a proposta do MASF consiste num convite à participação de todos os residentes da Madeira e do Porto Santo na realização de uma exposição digital através das redes sociais do MASF no Instagram e do Facebook. Esta atividade procura encetar um diálogo virtual entre as suas coleções e as imagens de vulto que povoam as casas dos madeirenses e portosantenses, dando a conhecer a diversidade das invocações, os vínculos e as narrativas de fé numa época particularmente difícil como a que atravessamos. 

As imagens de temática religiosa que existem nas nossas casas e com as quais estabelecemos uma relação devocional, nem sempre podem ser consideradas imagens excecionais do ponto de vista artístico. O seu maior valor reside, na maioria das vezes, no caráter simbólico e na capacidade que elas têm de documentar as vivências da religiosidade e da fé individual no espaço doméstico.

O tema da proposta apresentada é uma espécie de interrogação aberta que deixa no ar alguns pontos para a reflexão: O que é ser peça de museu? Terá que ver apenas com o inegável valor histórico e artístico? Ser um documento material muito antigo e irrepetível? Um objeto comum pode ser exposto no museu? O museu e os seus dispositivos (plinto, vitrine, legenda, ecrã, etc) conferem um outro efeito de visibilidade ao objeto comum que o ambiente quotidiano não lhe reconhece? Como pode um museu de arte sacra, que fala da religiosidade de um povo através de objetos de inegável excelência e criteriosa seleção artística do passado, falar da mesma religiosidade e fé que, no presente, se faz acompanhar de testemunhos materiais mormente desprovidos de sentido estético e artístico? Por fim, num mês mariano como é maio e num período de início de desconfinamento em contexto de pandemia, quais foram as devoções a que os madeirenses e portosantenses têm recorrido na esperança da vinda de melhores tempos? Manter-se-ão as devoções aos Santos intercessores contra epidemias e causas impossíveis, como o foram a de São Sebastião, a de São Roque, a de São Tiago Menor, a de Santa Rita de Cássia?



Imagem Peça da exposição virtual "Tenho uma peça de museu" | D.R.


A exposição tem um caráter de construção e divulgação contínua até o fim do mês de maio, um mês particularmente associado a Maria. Para participar basta seguir as instruções publicadas nas redes sociais, designadamente o envio, para o endereço masfunchal@gmail.com, de uma fotografia frontal, em fundo neutro bem iluminado, de uma imagem de vulto de existente no espaço doméstico dedicado ao sagrado. A imagem deverá  ser acompanhada, ainda, de um pequeno texto para legendagem, que identifique o local de produção da imagem (país, cidade), a data aproximada de produção, os materiais e as técnicas que compõem o objeto, a origem (a quem pertenceu originalmente) e uma descrição entre 50 a 80 palavras para narrar o que de mais relevante há a dizer sobre a imagem do ponto de vista da fé e da religiosidade.  


 

Martinho Mendes
Responsável pelo serviço educativo e coordenador da programação artística do MASF
Imagem: D.R.
Publicado em 18.05.2020

 

 

 
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